Almanaque No 16

A adolescência prolongada, ontem, hoje e amanhã

Philippe La Sagna
Atividade de Christina Fornaciari: "Se eu fosse Francis Bacon". Jovens do Programa Caput.

FOTO: Atividade de Christina Fornaciari, “Se eu fosse Francis Bacon”. Jovens do Programa Caput.

 

No século XX, nossa percepção da vida e da vida sexual em particular mudou muito em relação àquela do século passado. Ela foi modificada em diferentes planos, e, primeiramente, no plano do real. Segundo alguns autores, em particular Paul Yonnet (2006), antropólogo, de quem vou retomar algumas teses, há uma incidência real da ciência sobre a sexualidade humana, principalmente sobre a procriação e, portanto, sobre a duração e a repartição das idades da vida. Yonnet estudou a incidência de nossa nova relação com a morte, por causa do progresso da ciência sobre a vida da família. A quantidade de vida de que dispomos nunca foi tão grande: nosso tempo de existência quase dobrou em menos de um século.

 

Adolescência e idade da vida

É notável que esse prolongamento da vida não seja homogêneo. Assim, a idade da tenra infância e da infância parece se reduzir, se condensar cada vez mais. A idade da maturidade é, ao contrário, cada vez mais restrita. Isso significa que passamos cada vez menos tempo sendo “maduros”. A adolescência e a terceira idade não param de aumentar até se tornarem idades hegemônicas. A saída da adolescência e a entrada na idade adulta estão ligadas às convenções e parecem ser cada vez mais retardadas; é o que prolonga desmesuradamente o tempo da adolescência. Por outro lado, os homens entram na terceira idade ou se aposentam cada vez mais cedo. Atualmente, aqueles que são considerados jovens adolescentes se situam entre quatorze e vinte e cinco anos. Consideramos geralmente que uma saída da adolescência é também uma entrada na vida ativa. O fato de que os jovens ficam mais tempo na casa de seus pais está ligado a diferentes fatores, muito estudados pelos sociólogos e pelos jornalistas:

– o prolongamento dos estudos;

– a impossibilidade real de encontrar condições de estabelecimento, isto é, uma moradia e um trabalho;

– a terceira razão, mais interessante para nós, é a dita ausência de ruptura de valores entre as gerações. Os jovens não estão mais em ruptura com as ideologias e os modos de vida atribuídos aos de seus pais. Desde 1968 há uma continuidade sem ruptura de valores entre crianças e pais.

Para Yonnet, uma das razões da “sociedade dos indivíduos” é que, a partir do momento em que a duração da vida aumenta, é a vida individual que se torna um valor. Ao contrário, quando a duração da vida é curta, o valor é a família, ou seja, aquilo que, para o indivíduo, persiste depois de sua morte. Durante muito tempo, em particular na época do Iluminismo e da Revolução, quisemos nos opor ao poder das famílias. O poder das famílias sobre o indivíduo era então efetivo. Hoje, é a família que se coloca a serviço do indivíduo.

Por outro lado, o tempo de formação do indivíduo está cada vez mais prolongado. A formação nunca é suficientemente perfeita e o trabalho é raro: passamos, portanto, a vida nos preparando. Essa preparação passa por um treinamento que supõe a ação. A ação, para a psicanálise, se diferencia do ato.  Os adolescentes são muito ativos, mas, por outro lado, não fazem nada no sentido do ato concebido como uma ação que tem consequências. Treinar, praticar esportes, é frequentemente uma ação sem consequências. A oposição ação/ato é um dos critérios que permitiria distinguir a adolescência da maturidade. Censuramos aqueles que estão na adolescência por fazerem demasiadas ações, isto é, por se mexerem demais. Quando não sabemos que ato fazer, é normal tentarmos todas as ações possíveis.

O herói adolescente é autoengendrado: não é alguém que dependa dos outros, como percebeu Yonnet. É alguém que utiliza seus pais e seu entorno para  engendrar a si mesmo. O sujeito moderno é, portanto, um autoengendrado. Isso é importante porque o autoengendrado é sempre também um autodestruído.           O avesso do autoengendramento é a autodestruição. Isso esclarece certas tendências suicidas. Pressionamos cada vez mais o adolescente a se autoengendrar, isto é, a se formar de maneira autônoma e assim, sem saber, ele é pressionado a se autodestruir.

Atualmente, cultivamos um inacabamento de nós mesmos, de nossa formação, de nossa identidade, de nosso desejo, até mesmo da realidade. Esse inacabamento cultivado caminha junto com um certo desespero: se isso nunca acaba, é porque é interminável. Será sempre melhor amanhã, e o sujeito permanece suspenso a um futuro líquido no sentido de Zigmunt Bauman (2004).            O inacabamento da “Bildung” do ego em formação produz também um ego vago in progress…

 

A novidade da idade da escolha?

Atualmente, não nos engajamos porque não sabemos muito bem em que nos engajar. Podemos dizer que hoje nada mais é “para sempre”. Antigamente, o “sempre” ou o “para sempre” ocorria rapidamente. Muito frequentemente, entre dezesseis e dezoito anos, o sujeito sabia com quem ele ficaria “para sempre” no amor e qual ofício ele teria “para sempre”. Hoje, supomos que o sujeito tenha várias vidas, vários ofícios e até mesmo várias famílias, famílias recompostas. Então, o problema é que o sujeito passa a vida escolhendo e não vivendo.             A possibilidade de escolha é preservada mais do que tudo. E, essa maneira de preservar em tudo a escolha, de estar diante de várias hipóteses sem escolher nenhuma delas e de experimentar um pouco todas, é exatamente a posição subjetiva do adolescente.

A adolescência não está simplesmente prolongada no tempo, ela é, além disso, valorizada socialmente como prolongamento generalizado e adolescência generalizada. A sociedade propõe que sejamos eternos adolescentes, sempre prontos para qualquer coisa que vai vir e que não vem, sempre treinando para esse algo que vai vir. Freud e todos os pós-freudianos pensavam que o laço social tinha efeitos sobre a psicanálise e a psicanálise sobre o laço social. Ou seja, que aquilo que nós tratamos não era unicamente efeitos de sujeito, mas também efeitos de discurso.

 

A adolescência com Freud

No século XX, Freud pensava que seria necessária uma ação exterior, uma ação social, para separar a criança de sua família. Mesmo a famosa inibição, a barreira contra o incesto que podia reinar no seio da família, era comandada pela sociedade. Para Freud, os laços familiares eram muito fortes. Seria preciso, portanto, opor a eles uma outra força, aquela da civilização. Era importante “estabelecer unidades sociais mais elevadas” (FREUD, 1972) do que a família.        A sociedade fazia, portanto, uso de todos os meios a fim de que, no adolescente, se afrouxassem os laços familiares que existiam durante a infância. O que mudou, desde Freud, é que a sociedade hoje não faz quase nada para cumprir essa tarefa. De fato, a primeira coisa a fazer seria dar aos jovens os meios para se separar da família. Ora, na maioria das vezes, não é o caso.

Para Freud, a tarefa a ser cumprida no momento da puberdade é uma reconstituição diferente da relação com o objeto. A constituição de uma relação com o objeto novo vai preparar o encontro com um objeto exterior, ou seja, o encontro com um parceiro sexual, o que quer dizer aqui um parceiro/objeto no exterior do corpo próprio. Esse parceiro não pode ser o corpo próprio, o que constituiria uma solução narcísica, e isso não pode ser apenas um encontro na fantasia. Se há adolescências prolongadas, há também síndromes de Peter Pan, sujeitos que permanecem num amor não sensual infantil e eterno, sujeitos que se designam também atualmente como “assexuais”.

Se, para Freud, a tarefa a ser cumprida na adolescência é a “reconstituição” desse objeto sexual novo, há um obstáculo. A corrente sensual pode permanecer fixada numa satisfação autoerótica, numa satisfação masturbatória na qual o sujeito se satisfaz com o corpo próprio e com a fantasia. Na adolescência, com efeito, as correntes sensuais se descarregam alimentando-se das fantasias. Freud sublinha que uma produção desenfreada de fantasias é o que caracteriza a adolescência. A fantasia não é, de fato, algo que prepara o encontro com o objeto exterior, mas algo que se opõe a ele pela criação de um desvio.

O que vai estar em jogo é produzir um estatuto novo do objeto que possa permitir ao sujeito encontrar um objeto no exterior, um objeto que não seja o objeto edipiano do passado. Os psicanalistas observaram muito cedo que a série dos objetos do passado surgia naquele momento e, em particular, os objetos pré-genitais. Isso não quer dizer que a famosa regressão dos adolescentes os traga de volta ao pré-genital. Isso quer dizer que, para fabricar um objeto novo, que lhes servirá de guia em direção a um objeto exterior, eles vão utilizar em parte os objetos parciais pré-genitais. No caminho da constituição de uma sexualidade dita madura, o adolescente estará sujeito a tempestades de gozo “parcial” totalmente “imaturo”. É por isso que os adolescentes bebem, fumam, vomitam, sujam, gritam exatamente como se fossem bebês! Isso porque eles precisam buscar no passado os materiais para fabricar algo novo. O prolongamento da adolescência leva ao prolongamento dessas manifestações. Por exemplo, a anorexia/bulimia, enquanto epidemia, é algo que vai surgir nesse momento.

 

A adolescência difícil dos pós-freudianos

Um dos grandes debates entre os pós-freudianos da IPA gira em torno da questão de saber se a etapa ou a via do narcisismo é um meio necessário para permitir o encontro com um objeto exterior ou se, ao contrário, é um obstáculo. Para alguns psicanalistas, com Freud, trata-se de um obstáculo. Eles consideram, com razão, que há uma oposição entre o narcisismo e o fato de encontrar um objeto exterior a si, já que o narcisismo é o amor de si mesmo e que o objeto exterior é suposto ser diferente do si. Outros vão pensar que, para atingir o objeto exterior, é preciso um eu suficientemente forte, é preciso reforçar o ego. O narcisismo não é então o obstáculo, mas o meio de obter o objeto exterior. Isso tem consequências:

– seja que a adolescência é sobretudo um trabalho de reforço do ego, de fabricação de um eu que deve ser um eu forte para assegurar a conquista do objeto, ou mesmo suportar seu encontro;

– seja que a adolescência é um tempo no qual não se trata de reforçar o ego, mas o desejo, desejo de ir ao encontro do objeto no exterior libertando-se das fantasias e do autoerotismo.

Há, portanto, dois modos de considerar o tratamento na adolescência: ou a ênfase é dada à identificação, sempre muito frágil, do adolescente, ou a ênfase é dada ao desejo. Atualmente, o discurso contemporâneo consiste antes de tudo em dizer: “Reforce sempre sua identificação”. Ser adulto é ter terminado a “formação” desse ego forte. A partir do momento em que o sujeito é sempre inacabado, ele apresentará forçosamente um distúrbio de identidade. De fato, o eu forte exigido pela sociedade é um eu suscetível de ter uma identidade mutável. Portanto, de fora o sujeito é persuadido a aderir a tal ou tal identidade, o que o desangustia, ao mesmo tempo em que o caráter instável dessa identidade restaura a angústia!

Ou se escolhe a identificação ou se escolhe o valor da des-identificação e do desejo. O valor da des-identificação tem consequências na esfera sexual, já que ela pode colocar em questão a identificação sexual que parecia antigamente uma fonte de identificação forte. Não nos vestíamos da mesma maneira, não vivíamos da mesma maneira, não falávamos da mesma maneira, não frequentávamos os mesmos lugares, caso fôssemos uma moça ou um rapaz. Os encontros se davam de maneira regrada, segundo um cálculo social. Compreendemos que todo o discurso de Freud sobre a necessidade de identificação surge numa época em que a identificação é uma ideia forte na sociedade.

Atualmente, a identificação valorizada é aquela que é líquida (BAUMAN, 2004), muito mais do que fixada: é preciso estar pronto para tudo! Pedimos, por exemplo, às vezes, ao adolescente, que ele se identifique com empatia ao outro sexo. É um efeito recente, que data da Segunda Guerra Mundial. É a partir desse momento, em que vemos rapazes com os cabelos compridos, que as identidades sexuais são perturbadas. Começamos a fazer disso uma doutrina que é a doutrina atual da IPA na esfera sexual: para se ter uma vida sexual realizada, é preciso participar da sexualidade do outro no sentido da identificação, pelo menos mental. Se antes participar da sexualidade do outro significava ter um parceiro do Outro sexo, hoje isso significa se identificar aos desejos, até mesmo ao gozo suposto do outro. Nos pedem para sermos “bissexuais”, o que vemos claramente nas fantasias contemporâneas.

 

A descoberta do adolescente prolongado

O termo adolescência prolongada data de 1923. Ele foi inventado por Siegfried Bernfeld (1924), que faz o seu retrato: o adolescente é um adolescente idealista, deprimido. Esse adolescente idealista tem tendência a abrir mão da busca do objeto exterior para se perder, não em fantasias, mas em algo que parece com elas, isto é, em sublimações. Temos aí a primeira aparição de uma tese que fará sucesso: como impedir o adolescente de sublimar?

Vemos a inversão das teses, pois hoje a ideia é de que é preciso absolutamente fazê-lo sublimar! O que Bernfeld diz é que essa sublimação participa de um medo narcísico de perder o falo. Ele observa justamente que isso explica o que ele chama de regressões arcaicas. Todos esses jovens que preparam a revolução passam, de fato, seu tempo em bares, onde eles fumam e bebem.

Bernfeld deixa Berlim em 1932 para ir para a América e sua tese do adolescente idealista é retomada por sua amiga Anna Freud (1958). Esta última descreve, sobretudo, uma adolescente asceta e intelectual que é um retrato psíquico da adolescência da própria Anna Freud, com uma discreta nota homossexual e masoquista. Para a doutrina psicanalítica clássica, a adolescência não era um período determinante no nível dos sintomas. Clinicamente, quando se propõe aos pacientes falar espontaneamente e livremente, observa-se que eles falam de sua infância e raramente de sua adolescência. Isso é verdade se eles são neuróticos. Mas todos os psicanalistas que, depois da guerra trataram psicóticos ou borderlines, observaram que, de modo inverso, eles falavam muito frequentemente de suas adolescências. Anna Freud vai então dizer que a adolescência é talvez mais determinante do que se crê. A determinação do desejo é o Édipo e a infância, e a fabricação do ego é a adolescência. Ela pensa que o essencial na psicanálise é a fabricação do eu, ou seja, a Ego-psychology. A adolescência é então quase tão determinante para ela quanto a infância.

Na metade dos anos sessenta, todo mundo, e também os psicanalistas, se apaixona pela adolescência. É o nascimento dos Teen-agers. É o nascimento da adolescência como entidade definida, como grupo social. Winnicott notava isso: “Os jovens adolescentes são isolados reunidos […] um agregado de isolados” (WINNICOTT, 1969, p. 401). É exatamente o que se constata na sociabilidade moderna.

Winnicott (Ibidem, p. 398–408) retoma a questão da adolescência prolongada: “É preciso precipitar as coisas?”, “É preciso apressar o movimento da adolescência?”. Winnicott diz: “de modo algum”. E esse “de modo algum” passará por um certo número de teses entre as quais esta, célebre, de que não é preciso tentar compreender os adolescentes. Não é preciso compreender os adolescentes, porque eles não querem ser compreendidos (Ibidem, p. 398). Eles ficam furiosos quando vocês os compreendem. A partir do momento em que o seu desejo é um x para você, que você não sabe o que você quer, não há nada mais irritante do que aqueles que sabem em seu lugar. É o que os pais frequentemente fazem. O que Winnicott também diz é que, se intervimos, arriscamos o pior. Arriscamos destruir, estragar um processo natural e arriscamos terminar na doença mental (Ibidem, p. 399). Para ele, o que mais falta ao sujeito adolescente é “se sentir real” (Idibem, p. 405). Poderíamos dizer que o sujeito moderno também não se sente real. Para se sentir real, o adolescente busca criar antagonismos (Idem). Ele provoca o Outro para se sentir real através da resposta que lhe é dada. Winnicott explica assim o acting-out adolescente. Dessa forma, ele define indiretamente o que seria um adulto: um adulto seria alguém que se sente real. Portanto, prolongamos também um sujeito irreal!

Naquela época, Peter Blos publica Os adolescentes (1967), obra na qual ele precisamente estudou “a adolescência prolongada” (1954), que ele chama às vezes de “a adolescência retardada”. Para ele, a conscientização do fim irremediável da infância, das obrigações do engajamento no mundo, da impossibilidade de escapar aos limites da existência individual, essa conscientização faz nascer um sentimento de medo, de opressão e de pânico. Por isso muitos adolescentes preferem permanecer numa fase transitória, a adolescência retardada. Esse é um retrato de um adolescente angustiado que oscila entre angústia e desespero. Ele observa que isso está ligado à impossibilidade de escolher um tipo de vida. Nos anos sessenta, vemos a aparição de um fato social novo: a possibilidade de escolher um tipo de vida. Anteriormente isso não era possível, e, segundo Blos, o risco de ficar angustiado não existia. Alguns lamentam a época em que o sujeito via seu pai cultivar a terra e ficava tranquilo porque, um dia, ele também cultivaria a terra. A ideia de escolher sua vida mudou totalmente a subjetividade contemporânea como o fato moderno de ter sucessivamente várias vidas profissionais e amorosas.

Blos sublinha que, para se tornar um sujeito, o essencial do trabalho é se separar das tendências regressivas, isto é, operar um luto do objeto ao mesmo tempo edipiano e pré-edipiano. O objeto edipiano é, por exemplo, o Outro materno; o objeto pré-edipiano são todos os objetos pré-genitais que alimentam a tendência regressiva como a tendência à intoxicação e a fazer a festa. Não sentir mais uma necessidade imperiosa de festa é considerado como um guia para uma saída da adolescência, enquanto em nossa sociedade contemporânea supõe-se que todo mundo deva fazer a festa até muito tarde! A partir do momento em que a sociedade líquida (BAUMAN, 2004) é valorizada, como essa de hoje, que não tem mais nenhuma fixidez, não sabemos o que acontecerá amanhã. Se o sujeito quer um futuro, ele deve mudar de identidade rapidamente. Nesses casos, onde vai entrar a festa? Ela só pode se alojar numa festa permanente. Não há mais distinção entre a festa e a sociedade. Uma não é o avesso da outra.

A ideia de Blos é que, se escolhemos nossa vida, devemos poder escolher nossa estrutura psíquica, e então uma das angústias da adolescência recai sobre o fato de não saber que estrutura psíquica escolher. Essa perspectiva é singular. Para Lacan, ao contrário, não escolhemos nossa estrutura psíquica. Os psicanalistas da IPA pensavam que a adolescência era o tempo em que se fabricava uma estrutura, e assim tomavam distância de Freud.

Para Blos, o essencial é se separar dos objetos internos para produzir uma individuação. O perigo, segundo ele, é que se essa individuação do sujeito é muito rápida, vai-se produzir um adulto “como se”, um falso adulto. Vai ser necessário, portanto, evitar a pressa na maturação da adolescência. É o fenômeno Tanguy que se anuncia: quanto mais o adolescente fica na casa de seus pais, mais ele se torna um adulto formidável. E Blos considera que tudo o que vai no sentido inverso desse prolongamento é forçosa e necessariamente um acting-out. Por exemplo, a criança que foge de casa, a jovem que engravida, todos esses fenômenos são acting-out, quer dizer, um efeito de pressa e uma recusa da maturação lenta. Ele considera em particular que o luto do objeto não tem por objetivo permitir o acesso ao objeto exterior, mas tem por objetivo reforçar o eu e as identidades. O objeto deve servir à individuação, à constituição de uma identidade forte prévia à separação. Houve alguns protestos em relação às suas teses na IPA, aquele de Erik H. Erikson (1976), por exemplo, que diz que na realidade a adolescência não é tanto um fenômeno psíquico, mas uma moratória social. É um fenômeno que não tem sua origem no sujeito, mas na modificação do laço social na metade do século passado.

Helen Deutsch observa que o essencial da clínica da adolescência não é uma clínica do sintoma, mas frequentemente uma clínica das ações, dos acting-out (DEUTSCH, 1977). Ela acrescenta que é a razão pela qual os pacientes adultos não falam muito frequentemente de sua adolescência. Por que eles não a evocam? Porque os acting-out não deixam traço, eles deixam lembranças, mas não traços determinantes (Idem). O acting-out é uma falsa separação, sempre a ser repetida, operada por meio de um objeto mostrado. Esse objeto, em jogo nesse falso ato, serve de pseudo-separação, no sentido de que ele serve de ponto de ruptura e de diferenciação. A adolescência é, portanto, algo que desencadeia um certo número de acting-outs que são, com efeito, o avesso das separações efetivas. Numerosos jovens passam o tempo estudando e se formando. Helen Deutsch observa que a sociedade contemporânea é uma sociedade do training, da preparação, que exige uma renúncia ao objeto real muito maior do que nos séculos XVIII e XIX. Ao contrário dos acting-outs, os sintomas, nascidos na infância, deixam traços porque eles são uma escrita tendo uma consistência própria.

No final do século XX, qual é a situação a esse respeito na IPA? Richard C. Marohn, em um artigo de 1999, ataca a posição de Blos. Ele critica a ideia de que em algum momento se chegaria a um self acabado. Para ele, o self não se acaba nunca, a transferência também não, a construção de si é infinita. Não se trata de falar de separação e de individuação, mas muito mais, na adolescência, de um “período significativo de transformação do eu” sem fim. Assim, a construção de si pode durar do nascimento até a morte. Os filmes de Woody Allen o presentificam: apesar de estar numa idade avançada, o personagem do filme procede sempre na construção de seu eu. O fato de afastar para o infinito o encontro do objeto serve sempre ao narcisismo.

 

Lacan e a solução do objeto separador

O ponto de vista lacaniano exige ser freudiano: não é a identificação que permite o acesso ao objeto, mas é muito mais o encontro com o objeto e sua perda que produzem uma identificação. É o encontro que produz a identidade e não a identidade que permite o encontro. No horizonte do encontro há a questão do ato sexual. Não há ato sexual que permita que um sujeito se assegure que ele é homem ou mulher. Felizmente há o amor, que pode fazer suplência a essa falha de certeza do ato sexual. O amor permite ao sujeito pensar que ele é homem ou mulher, de um modo muitas vezes um pouco delirante, que passa pela imaginação e pelo discurso. A maturação que deve operar a partir do encontro sexual não é de forma alguma aquela do eu ou do narcisismo, mas aquela da relação com o próprio objeto.

O objeto é, de fato, o que vai servir à separação do sujeito e do Outro. Para Freud, não se trata tanto para o adolescente de se separar do objeto, mas de utilizar um objeto “exterior” para se separar do Outro, o objeto a, objeto que deve ser distinguido da exterioridade “realista” do objeto. A utilização desse objeto passa por um certo luto do objeto edípico, como do objeto parcial, ou seja, dos objetos tais como eles existiam anteriormente para o sujeito. Na perspectiva freudiana, existe uma exigência social que permite a separação. Na perspectiva de Lacan, a sociedade vem em segundo lugar em relação ao efeito dos modos de discurso que servem para regular o gozo. Um dos modos no qual o gozo contemporâneo se distribui é o objeto dito mais-de-gozar. A sociedade vende produtos mais-de-gozar que consomem os adolescentes. Esses objetos de consumo vão entrar em concorrência com outros objetos e outras satisfações enodando fantasias e usos regressivos do objeto e saturando, por vezes, o local e o uso possível do objeto separador para o sujeito.

Para Lacan, a adolescência é por excelência o fato de que o sujeito passa da posição infantil de desejado à posição de desejante. Como criança, o adolescente certamente foi desejado ou não desejado, mas não lhe pedimos tanto que seja desejante. A partir do momento em que ele é adolescente, ele é convocado a ser desejante ou mais ainda a se propor “como um desejante”. No seminário A Angústia, Lacan precisa: “Propor-me como desejante, eron, é propor-me como falta de a” (LACAN, 2005, p. 198). Vemos que o objeto separador não é o objeto que dá as bases ao ego, mas que ele é o que produz um desejo, a partir do momento em que “eu me aproximo como desejante”, como falta de objeto.

Por exemplo, a jovem que, no desejo do rapaz é um pequeno a, poderá suportar esse desejo sem muita angústia se ela puder verificar que ela também não é “somente isso”, isto é, que ela fez um pouco o luto de ser esse objeto. O rapaz poderá também encontrar uma jovem, que é um pequeno a, não tanto porque ela é pequeno a, mas porque ela é o pequeno a que falta a ele. Trata-se aí, para o rapaz, de se aproximar como desejante, como “menos a”.

É preciso, portanto, uma queda do gozo da fantasia onde o sujeito se percebe como objeto para que se crie um desejo eficaz. O que constitui o desejo é uma sucessão de encontros do objeto, encontros que produzem um certo número de lutos. Cada vez que o sujeito encontra o objeto e que “isso falha”, o que é frequente e quase sempre certo, produz, no luto, um desejo. O desejo está ligado ao fato de se ter perdido o objeto numa experiência de amor real e não na fantasia onde o objeto subsiste intocado. As aventuras amorosas adolescentes são, portanto, extremamente formadoras do desejo. Os adolescentes têm aventuras curtas e múltiplas e é exatamente o que é necessário para eles. Há sempre exceções. O amor produz alguma coisa. É uma grande ideia da psicanálise: o amor é produtor, produtor de desejo e produtor de um novo tipo de objeto. Assim, a transferência como amor produz uma nova relação com o objeto, mas também um novo tipo de objeto que é, para Lacan, o objeto causa do desejo. É por isso que ele coloca que o amor é o que “permite ao gozo condescender ao desejo” (LACAN, 2005, p. 197). Lacan sempre se opôs à ideia ingênua da maturação ou da evolução.

A partir daí, percebemos que os amores que valem são também frequentemente amores que acabam. É a opinião de Marguerite Duras. Como é que sabemos que um amor acaba? Sabemos que um amor acabou quando começamos a amar algum outro. É nesse momento, entre um amor que se apaga e outro que nasce que tocamos o encontro do objeto, de um objeto em posição de causa. Podemos mudar de amor também, passamos de um amor de um certo tipo para outro de um outro tipo. É o que se passa na adolescência. A adolescência é mudar de amor. É por isso que a adolescência é uma clínica do amor; a questão é saber: há um amor adulto?

No final do Seminário A Angústia, Lacan propõe que o adulto é aquele que não ignora a causa de seu desejo. Seria então, para Lacan, o produto de uma análise. Talvez a psicanálise pudesse ajudar para que saiamos hoje dessa adolescência retardada que é também uma adolescência generalizada, proposta a todos. Isso supõe que compreendamos a lógica de um objeto a que participa da erótica do tempo, tal como o mostrou Jacques-Alain Miller (2000). Isso teria também o efeito positivo de acabar com o apetite inextinguível de identidade, porque a partir do momento em que o sujeito conhece a causa de seu desejo, é ela que o autoriza; não é sua identidade, ainda que ela seja forte, que lhe dará acesso a ela.

 

Tradução: Cristina Drummond

Revisão: Márcia Bandeira

 

Bibliografia

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WINNICOTT, D. W. “L’adolescence”. In: De la pédiatrie à la psychanalyse. Paris: Payot, 1969.

 

Philippe La Sagna

Philippe La Sagna - psicanalista, AME da ACF, NLS e AMP. E-mail: plasagna@free.fr

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