Cao Guimaraes

Almanaque No 21

“A arte, como a vida, é cheia de riscos”: Lacan com Lilly e Lana Wachowski

GABRIEL SILVA MEDEIROS / JEANNINE MARIE TEIXEIRA NARCISO
Cao Guimaraes

Cao Guimaraes

Na era da técnica, a arte é um indicador aliado da psicanálise

 

A clínica do contemporâneo opera mais-além da narrativa freudiana. Miller (2012/2014) descreve que os discursos do capitalismo e da ciência, lado a lado, reestruturaram a experiência humana, outrora organizada pelo que prescrevia o Outro social. É o advento de uma verdadeira des-ordem no real, que, no passado, disfarçava-se de natureza e voltava sempre ao mesmo lugar. Real que funcionava como Outro do Outro, garantia mesma da ordem simbólica (MILLER, 2012/2014). Porém, o último Lacan (1975-1976/2007) afirmará que o verdadeiro real, o real como impossível, é sem lei. A efração no real do binário ciência-capitalismo é desordenada, arriscada, põe em xeque a natureza (MILLER, 2012/2014). Prova disso é a onipotência dos gadgets (microscópio, rádio, televisão, etc.), artefatos do discurso científico que pululam e integram a existência do homem, que o animam, e dos quais ele próprio se torna sujeito: já é sintomático (LACAN, 1975/1985, 1975/2009). E não se pode localizar aí algo de nossa relação com as TV series, fenômeno contemporâneo, capaz de mesmerizar-nos por longas maratonas? Como toda arte, isso nos afeta.

 

Lacan (1975/2009) nos lembra que o corpo se introduz na economia de gozo por meio de uma imagem corporal, que tem, no homem, grande alcance. Sua preferência imaginária decorre de que essa é a via por onde ele antecipa sua própria maturação. Logo, a partir do momento em que a escritura científica introduz mudanças significativas no laço que hoje sustemos com o corpo, a arte, no que evidencia disso, se aproximará da psicanálise. A topologia borromeana, com efeito, vai na mesma direção (BROUSSE, 2014), pela via do sinthoma. Está em jogo um novo imaginário, sustentado nos restos de gozo e contíguo ao real do gozo. E a consequência decorrente, conforme Santiago (2016), é que se virar com a imagem é também se virar com o sintoma.

 

Joyce, Lilly & Lana

 

Lilly e Lana Wachowski são irmãs, cineastas, e trabalham em parceria como produtoras, diretoras e roteiristas. Entre suas produções, estão Bound, Matrix, Cloud Atlas, V for Vendetta e o seriado Sense 8 (2015-2017). Da leitura de dados biográficos, articulada à possibilidade colocada por Miller (2015), de que talvez os registros da música, da pintura e das Belas-Artes tiveram seu James Joyce, consideramos que o trabalho das Wachowski poderia encontrar semelhante lugar.

 

“The Wachowski Brothers” era a nomeação por meio da qual Larry e Andy se faziam conhecer antes das suas transições de gênero, quando se tornaram, respectivamente, Lana e Lilly. Sob influência dos pais, amantes da sétima arte, Larry e Andy cresceram frequentando o cinema, em “orgias de filmes” nos drive-ins, onde assistiam a dois, três filmes de uma vez. Nas palavras de Andy, “eu era tão jovem que não sabia o que a palavra ‘orgia’ significava. Mas o que quer que fosse, eu gostava” (apud HEMON, 2012, s/p, livre tradução). Larry, por sua vez, conta que sua perplexidade ante o enigmático monólito presente em 2001: A Space Odissey, suscitou de seu pai uma explicação: “trata-se de um símbolo”. Ali,

 

[…] aquela simples sentença entrou no meu cérebro e rearranjou as coisas de um jeito tão inacreditável que eu não acho que fui a mesma pessoa desde então. Houve um click interior. ‘2001’ é uma das razões pelas quais sou cineasta (apud HEMON, 2012, s/p, livre-tradução).

 

Uma simples sentença produz um acontecimento! Em Joyce, o Sintoma, Lacan (1979/2003) concebe o sintoma como um evento corporal ligado a que o temos. Subsiste aí algo de instrumental, já que ter é poder fazer alguma coisa com (p. 562). O sinthoma, o sintoma do falasser, está ligado ao corpo; “[…] surge da marca escavada pela fala quando ela toma a aparência do dizer e faz acontecimento […]” (MILLER, 2015, p. 130). Ora, a “orgia” e o “símbolo”, com efeito, têm a ver com o fato de que hoje elas são filmmakers.

 

Numa entrevista de 2013, verifica-se a intensa parceria que subsiste entre Lana e Andy, que só anunciou seu come out como Lilly em 2016 (BAIM, 2016). Na entrevista, Andy falava de sua arte como um jeito de injetar emoção na política, na filosofia e nas ideias, afirmando que esses assuntos não têm que ser chatos. Comenta ainda a presença do discurso do capitalista na arte, encarnado na figura de executivos que têm se fixado no meio cinematográfico ditando como as coisas devem ser (WACHOWSKI, 2013).

 

Mas o interessante do cinema é poder subverter tal estado de coisas, por vir com a particularidade de ser uma arte social, que envolve um grupo de artistas e cuja estética decorre de um trabalho conjunto. Não se fazem filmes sozinho. (WACHOWSKI; WACHOWSKI, 2013). Ora, a finalidade do discurso do mestre é fazer as coisas marcharem no ritmo de todo mundo. Mas isso não é o real. O real não anda, é o que entorpece essa marcha (LACAN, 1975/2005). E não é justamente do inconsciente real que trata o ultimíssimo Lacan? Aqui, entramos no campo do laço social, cujo real é a inexistência da relação sexual (MILLER, 2015).  O sujeito não está sozinho com seu eu, e o solipsismo não é a verdade de sua vida psíquica. Ele nasce do campo do Outro, o que lhe convoca a um verdadeiro trabalho de artista: “Fazer alguma coisa com o Nome-do-Pai: prescindir, servir-se dele” (LACAN, 1975-1976/2007, p. 125). É aí que o laço entre os corpos falantes, as parcerias, divergem do conceito de sociedade como instância una.

 

O sinthoma é o que possibilita enlaçar o imaginário, o simbólico e o real. É aí que o pai ganha novo estatuto. “O complexo de Édipo, é, como tal, um sintoma. É na medida que o Nome-do-pai é também o Pai do Nome, que tudo se sustenta, o que não torna o sintoma menos necessário” (LACAN, 1975-1976/2007, p. 23). Para que o pai subsista, deve ser sustentado.

 

A topologia nodal nos permite aproximar do trabalho das Wachowski pela via do sinthoma. A partir de fragmentos biográficos, autodescritivos, arriscamos a montagem de um mosaico que, de relance, parece mostrar tons de algo da ordem do acontecimento. Lilly e Lana prestam seus corpos a uma produção que é essencialmente inédita. O manejo de outros artistas, mais os objetos que elas legam à cultura, assinalam laço social. Fatos que, todavia, não tiram o caráter subversivo da arte ora discutida. A obra faz face ao discurso do mestre, interpelando a Matrix – a realidade? – e atacando-a em seus limites mais consolidados. Talvez, na especificidade desse caso, fazer cinema responda pelo que o sinthoma comporta de savoir-faire com a imagem corporal. “Se o núcleo real do sintoma não fala, é mudo, algum indício dele pode ser fornecido pela imagem?” (SANTIAGO, 2016, p. 76).

 

Fato é que os dramas do sexo não escapam ao deus-nos-acuda do real. Sobre isso, a psicanálise propõe algo distinto das teorias sócio-políticas sobre gênero (que se concentrarão nos semblantes acoplados aos modos de gozo), pois conceberá tais identidades como respostas sintomáticas ao impossível da relação sexual (SANTIAGO, 2006). As diferenças estruturais entre os modos de gozo do homem e da mulher, conforme ensina a escritura lógico-matemática da sexuação segundo Lacan, hoje virão, a posteriori, ao choque primeiro do corpo com lalíngua (MILLER, 2012/2014).

 

Lana Wachowski (apud HEMON, 2012, livre tradução) bem exemplifica isso, ao narrar que, na terceira série, estudou num colégio católico em que rapazes e moças permaneciam em fileiras separadas antes das aulas. Não se identificando com uma ou outra linha, Lana interpretou que ali talvez tenha percebido, inconscientemente, seu verdadeiro lugar: entre as duas. Um entre – betwixtness –, que foi causa de bullying e derrisão. Sua resposta? Encontrar refúgio em livros e mundos imaginários, muito mais atraentes que o seu próprio (HEMON, 2012). Algo do sinthoma parece cintilar…

 

Isso posto, pode-se dizer que, entre os sexos, alguma coisa não vai: “[…] só se pode gozar de uma parte do corpo do Outro pela simples razão de que jamais se viu um corpo enrolar-se completamente, até incluí-lo e fagocitá-lo, em torno do corpo do Outro” (LACAN, 1975/1985). Mas e se fosse possível?

 

É a ideia de que se aproxima Sense 8, em que, pela ficção científica, Lilly e Lana se aproximam das “questões de foda” (LACAN, 1975/1985, p. 103) com um interessante conceito: oito indivíduos, os chamados homo sensorium, estão conectados de tal modo que, sem palavras, podem comunicar pensamentos e sentimentos entre si. Um vivencia as dores, prazeres e afetos do outro, tendo a capacidade de experimentar emoções humanas mais intensamente que os próprios humanos. O mesmo vale para o coito: quando alguém transa, os outros gozam juntos, ainda que de distintos cantos do globo.

 

No Mais, ainda, Lacan (1975/1985) aborda a impregnação narcísica do amor, cuja imagem está sustentada no a. “O amor é impotente, ainda que seja recíproco, porque ele ignora que é apenas o desejo de ser Um, o que nos conduz ao impossível de estabelecer a relação dos… A relação dos quem? – dois sexos” (SANTIAGO, 2016, p. 14-15). O gozo sexual “[…] é marcado, dominado, pela impossibilidade de estabelecer, como tal, em parte alguma do enunciável, esse único Um que nos interessa, o Um da relação sexual” (Ibid. p. 15). Mas, em Sense 8, o impasse parece sair de cena, levando-nos a indagar: poderia um dia a evolução, ou então a ciência, liberar do homem o estorvo desse exílio que lhe impõe o instante do encontro?

 

Para não concluir

 

“A arte, como a vida, é cheia de riscos” é uma fala de Hernando, parceiro de Lito (um dos oito), no décimo episódio da 2ª temporada da série. Ora, não só dos riscos da aposta, mas dos riscos da letra, no que ela é linguagem reduzida à sua matéria significante (MILLER, 2010). A escrita joyciana e a escrita cinematográfica – por que não? – apontam para isso:

 

Só se é responsável na medida de seu savoir-faire. Que é o savoir-faire? É a arte, o artifício, o que dá à arte pela qual se é capaz um valor notável, porque não há Outro do Outro para operar o Juízo Final […]. Isso quer dizer que há alguma coisa da qual não podemos gozar (LACAN, 1975-1976/2005, p. 59).

 

 

Referências

 

BAIM, T. 2016 Second Wachowski filmmaker sibling comes out as trans. Windy City Times, Chicago, 21 mar. 2016. Disponível em: <http://www.windycitymediagroup.com/lgbt/Second-Wachowski-filmmaker-sibling-comes-out-as-trans-/54509.html>. Acesso em 27 fev. 2018.

 

BROUSSE, M.-H. Corpos lacanianos: novidades contemporâneas sobre o Estádio do Espelho. In: Opção Lacaniana online nova série, n. 15, p. 1-17, nov. 2014. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_15/Corpos_lacanianos.pdf>. Acesso em jun. 2017.

 

HEMON, A. “Beyond The Matrix”, Onward and Upward With the Arts, The New Yorker, 2012 issue, disponível em: <https://www.newyorker.com/magazine/2012/09/10/beyond-the-matrix>. Acesso em: 27 fev. 2018.

 

JIMENEZ, S. No cinema com Lacan: O que os filmes nos ensinam sobre os conceitos e a topologia lacanaiana. Rio de Janeiro: Ponteio, 2014.

 

LACAN, J. (1975). O Seminário, Livro 20: mais, ainda. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

 

LACAN, J. (1975-76). O Seminário, Livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

 

LACAN, J. (1979/2003). Joyce, o Sintoma. In: ______. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. p. 565-566.

 

LACAN, J. (1975/2009). “La tercera”. Lacantera Freudiana, Argentina e Chile. Disponível em: <https://www.lacanterafreudiana.com.ar/2.5.1.35%20%20LA%20TERCERA.pdf>. Acesso em: 25 fev. 2018.  p. 1-21.

 

MILLER, J.-A. Ler um Sintoma. Afreudite – Ano VII, 2011, n. 13/14. Disponível em: <revistas.ulusofona.pt/index.php/afreudite/article/view/2483/1942>. Acesso em: 10 mar. 2018.

 

MILLER, J.-A. O real no século XXI (2012). In: MACHADO, O. RIBEIRO, V. L. A. (orgs).  Um real para o século XXI. Tradução de Vera Ribeiro. Belo Horizonte: Scriptum, 2014, p. 21-32.

 

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MILLER, J.-A. 2016. Um Esfuerzo de poesia. Cuidad Autónoma de Buenos Aires: Paidós, 2016

 

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SANTIAGO, J. A ética do solteirão – valor autístico do gozo para a sexuação masculina. aSEPHallus. Rio de Janeiro, n. 02, pp 1-7, mai.-out., 2006. Disponível em: <http://www.isepol.com/asephallus/numero_02/artigo_03port_edicao02.htm>. Acesso em 02 abr. 2017. pp. 1-7.

 

SANTIAGO, J. O novo imaginário é o corpo. In: Correio, Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n. 78, 2016, p. 73-77.

 

Sense 8. Direção: The Wachowskis. Estados Unidos, 2015-2017 (2 temporadas), cor.

 

WACHOWSKI, A.; WACHOWSKI, L. Andy Wachowski and Lana Wachowski. DePaul University School of Cinema and Interactive Media, Chicago, 11 ago. 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ARoKJ00cEZ8>. Acesso em: 27 fev. 2018. Entrevista concedida a Matt Irvine.

 

GABRIEL SILVA MEDEIROS / JEANNINE MARIE TEIXEIRA NARCISO

GABRIEL SILVA MEDEIROS Acadêmico de Psicologia das Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros (FIPMoc) e aluno do Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental (NIPSM) gabrielsmedeiros@hotmail.com
JEANNINE MARIE TEIXEIRA NARCISO Psicanalista, psicóloga, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise jannarciso31@gmail.com

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