Cao Guimaraes

Almanaque No 21

A cura pelo amor ou o amor pela cura

SAMYRA ASSAD
Cao Guimaraes

Cao Guimaraes

A transferência

 

Podemos dizer que uma experiência analítica não acontece sem a transferência. Trata-se de um conceito fundamental, extraído por Freud a partir de suas observações a respeito do tratamento analítico, que caminha, passo a passo, sob a égide da dimensão do amor.

 

Vários são os autores e poetas que se ocupam do amor, da escrita do amor, e, curiosamente, quase todos eles trazem a dimensão da tragédia ou do perigo que esse sentimento traz. Claro, não podemos nos esquecer do bálsamo que muitas vezes ele oferece à vida, mas, se o amor é algo invocado numa experiência analítica, Freud bem sabe o que disse quando nos revelou algo sobre “invocar o espírito dos infernos” (FREUD, 1969, p. 213).

 

Roland Barthes, por exemplo, em Fragmentos de um discurso amoroso, traz a inequívoca experiência do endereçamento (cartas de amor) articulando o amor, a escrita e a solidão.

 

Há também O banquete, de Platão, sobre o qual Lacan trabalhou para falar do conceito de transferência em O seminário, livro 8, intitulado “A transferência”. Em O banquete, momento regado a vinho, os convidados eram convocados, um a um, a falar sobre o amor. E, para seguir o fio do alicerce que sustenta a transferência, qual seja, o do endereçamento e do deslocamento, traríamos o que Sócrates aí deflagrou a Alcebíades, quando desvia o que este vê nele, segundo o comentário de Lacan: “Mas convém não desconhecer que, aqui, Sócrates, justamente porque sabe, substitui alguma coisa por outra coisa. Não é a beleza, nem a ascese, nem a identificação a Deus que deseja Alcebíades, mas esse objeto único, esse algo que ele viu em Sócrates e do qual Sócrates o desvia, porque Sócrates sabe que não o tem” (LACAN, 1992, p. 161).

 

De toda forma, para falarmos das incidências clínicas do amor sobre a transferência, não poderemos dispensar os aspectos que aí se configuram como sendo a função de deslocamento e endereçamento, alicerces freudianos do amor transferencial.

 

O amor como resistência para o tratamento

 

O artigo de Freud “Observações sobre o amor transferencial”, publicado em 1915, foi considerado por ele mesmo como o melhor da série dos seus trabalhos técnicos. Ele nos aponta a dificuldade que o analista enfrenta (principalmente os mais jovens) quando chega a ocasião de “interpretar as associações do paciente e lidar com a reprodução do que foi reprimido” (FREUD, 1969, p. 208).

 

É incrível perceber, com esse texto de Freud, como a neurose e o amor possuem uma espécie de relação orgânica; tanto que o amor dirigido ao analista pode vir a se tornar um verdadeiro empecilho para o tratamento, mostrando-nos o uso que a repressão pode fazer do amor a favor de uma resistência ao tratamento. Ou seja, o amor é um terreno fértil para a neurose!

 

Longe de se pautar sobre uma questão moral para se recusar à correspondência amorosa que uma paciente reclama no processo de análise, Freud nos diz da importância de aí haver o que chamamos de manejo da transferência. Por quê? É no amor, pois, por excelência, que se concentra o que se acha oculto na vida erótica infantil. Diz Freud: “Quanto mais claramente o analista permite que se perceba que ele está à prova de qualquer tentação, mais prontamente poderá extrair da situação seu conteúdo analítico” (FREUD, 1969, p. 216).

 

Desse modo, agora as cartas ficam na mesa: a precondição do amor na vida adulta se localiza na “escolha objetal infantil e nas fantasias tecidas ao redor dela” (FREUD, 1969, p. 217). Assim, as noções de deslocamento e endereçamento ganham, aqui, o foco de uma luz no processo transferencial. Por esse viés mesmo podemos encontrar “o problema de como é que uma capacidade de neurose se liga a tão obstinada necessidade de amor” (FREUD, 1969, p. 217).

 

Logo, a posição do analista é fundamental para se fazer superar a resistência do paciente ao tratamento, resistência essa que se estabelece pela via do amor ou do enamoramento do sujeito para com o analista. O amor transferencial pode, então, funcionar como resistência ou mola propulsora em uma análise.

 

Do traço ao saber

 

Por outro lado, isso certamente nos conduzirá a um enunciado de Lacan, a saber, que a resistência é sempre do analista. Não é à toa que Lacan também nos diria “analistas, sejam pacientes”. A dupla maneira de se ler essa frase aponta para a necessidade de o analista, para não ceder aos encantos de um paciente e, com isso, beneficiá-lo em seu tratamento, trabalhar também suas próprias fantasias e escolhas objetais para que não seja imaginariamente capturado na transferência, numa relação dual com o paciente.

 

Isso, portanto, abre outra perspectiva para abordarmos o amor transferencial: a do traço que imprime a escolha de um analista, que descortinará a relação libidinosa do sujeito com seu objeto de amor. Nota-se um traço, um símbolo, uma contingência que faz um sujeito dizer “é com esse que vou fazer minha análise…”. Certamente isso é singular, nenhuma escolha passa pelo mesmo tipo de encontro. Dessa maneira, estamos dizendo também de um deslocamento: aquele do traço impresso pelo sujeito ao analista para se chegar ao saber, ao saber inconsciente, ou seja, S1         S2.

 

Isso nos permite ressaltar um percurso, o do traço que instiga uma escolha pelo analista, com tudo aquilo que este aloja em relação a um aspecto libidinoso e fantasmático do sujeito ao saber, à suposição de saber no analista – o que chamamos de Sujeito Suposto Saber em uma leitura lacaniana. É assim que o analista empresta o seu corpo na transferência.

 

Acrescentamos, assim, à noção de deslocamento e endereçamento inerentes à transferência, a questão da suposição de saber no Outro, não sem incluir o aspecto libidinal que isso envolve – o que permite, por sua vez, a experiência com a indeterminação na relação do sujeito com o saber que o ultrapassa, via o engano do SSS, que nos orienta em direção ao real. No decorrer do tratamento, depura-se outra faceta no final desse processo: a dimensão real da transferência e ao incurável, ou não simbolizável.

 

Sq ———–> Sn

________________

(S (s1, s2, s3, sn…)¹

Por esse viés, o ICS articulado à transferência se faria pela via do traço que pode ser captado em um significante qualquer:

St——–> Sq.

 

Talvez isso nos permita dizer que o “significante qualquer” da transferência teria a função de uma conexão com a cadeia de significantes inconscientes latentes. Em outras palavras, lá onde a marca, o traço, se constituiu, uma causa (ou modo de vida, ou de amar) deve advir.

 

O que se eleva aí faria parte de um funcionamento psíquico, e, seguindo o alerta de Freud, “O psicanalista sabe que está trabalhando com forças altamente explosivas e que precisa avançar com tanta cautela e escrúpulo quanto um químico (…) quando tudo está dito, a sociedade humana não tem mais uso para o furor sanandim nem para qualquer outro fanatismo” (FREUD, 1969, p. 221).

 

É certo que, no final do texto “Observações sobre o amor transferencial”, Freud faz alusão ao que é incurável, ainda que nosso trabalho tenha indicado a noção da cura pelo amor. Se a análise é um processo de depuração, algo do incurável, através do amor de transferência mesmo, se apresenta.

 

É, se posso dizer assim, quando as figurinhas do álbum (de família[1]), de uma história de vida, se descolam, restando apenas o branco do papel das páginas folheadas, escutadas e, fundamentalmente, lidas.

 

Talvez, assim, se esteja mais livre para amar.

 

 

Referências

 

BARTHES, R. – Fragmentos de um discurso amoroso, São Paulo: Martins Fontes, 2003. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar.

 

FREUD, S. (1915 [1914]). “Observações sobre o amor transferencial” In: Obras completas de Sigmund Freud, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

 

LACAN, J. O seminário, livro VIII: a transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1992.

________. “Proposição de 9 de outubro de 1967”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003.

 

PLATÃO. Diálogos: O banquete – Fédon – Sofista – Político (Coleção os Pensadores). 5ª ed. São Paulo: Nova Cultural. 1991.

[1] Alusão à obra de Nelson Rodrigues “Álbum de família”.

SAMYRA ASSAD

samyra@uai.com.br Membro da EBP/amp

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