Cao Guimaraes

Almanaque No 21

A queda do falocentrismo: consequências para a clínica das toxicomanias

CLÁUDIA MARIA GENEROSO
Cao Guimaraes

Cao Guimaraes

Para falar sobre as consequências da queda do falocentrismo na clínica das toxicomanias, vamos, antes, traçar um breve caminho sobre a noção do falo nos momentos do ensino de Lacan, que foi se modificando no desenrolar de suas próprias investigações. Se, no primeiro ensino, a questão do simbólico ocupava o centro, mais para o final será em torno do real que suas elaborações serão desenvolvidas. De maneira breve, destacamos dois momentos: um primeiro momento, em que a noção de real estava articulada ao simbólico, isto é, o real como possibilidade de ser simbolizado, e sendo o Nome do Pai (NP) sua chave, assim como seu correlato, que era o ordenamento fálico da libido (MILLER, 2014, p. 24); e um segundo momento, já no final de seu ensino, quando Lacan pôde vislumbrar os efeitos do capitalismo associado à ciência, que dariam novo movimento à civilização, e os efeitos na subjetividade, sendo em torno dessa conjuntura que desenvolveu suas elaborações sobre a outra concepção sobre o real.

 

No momento simbólico, o falo será concebido a partir do significante, considerando a construção da metáfora paterna, que é uma maneira de formalizar, com os elementos da linguística, o Édipo freudiano. Nessa construção, Lacan define o Nome do Pai como um significante que tem função de lei. Um significante fundamental, que tem valor de “metáfora que coloca esse Nome em substituição ao lugar primeiramente simbolizado pela operação de ausência da mãe” (LACAN, 1958, p. 563), significante tal que barra o desejo materno produzindo uma nova significação, nomeada de significação fálica, que regulará a relação entre mãe e criança. O falo como significante ordenará o desejo, regulando o gozo e tornando-se um operador fundamental na dimensão desejante humana. O NP terá uma função de normatização do mundo pela ordenação do campo simbólico, em que cada coisa está em seu lugar, sustentado pela força fálica do Outro e de seus ideais.

 

Nos seminários finais de Lacan haverá uma mudança em relação ao estatuto do simbólico, que não mais se destacará como orientador das relações humanas, visto que a civilização sofrerá os efeitos da queda do falo na vida social contemporânea e na clínica. Nessa perspectiva, no Seminário 17, O avesso da psicanálise, Lacan demarcará a função do mais-de-gozar no mundo contemporâneo e sua incidência sobre o objeto a, dizendo que

 

A sociedade de consumidores adquire seu sentido quando ao elemento, entre aspas, que se qualifica de humano se dá o equivalente homogêneo de um mais-de-gozar qualquer, que é o produto de nossa indústria, um mais-de-gozar – para dizer de uma vez – forjado (LACAN, 1969-70, p. 76).

 

O mercado, ao bancar o mais-de-gozar, amplia o registro do objeto a, que se multiplica no nível dos objetos forjados pela indústria, os gadgets, para provocar o consumo com a promessa de obturar a falta, produzindo novos modos de gozo insaciáveis. Nesse contexto, Lacan apontará para a ascensão do objeto e para a queda da função paterna na ordenação social e, como consequência, para uma deficiência do gozo fálico, a fim de normalizar as relações dos seres humanos.

 

Os efeitos da queda do falocentrismo ficam ainda mais evidentes no Seminário 20, Mais, ainda, e nos posteriores, quando Lacan elabora uma teoria da sexualidade cujo norte não é o gozo fálico, mas sim um outro tipo de gozo, que o autor nomeia de suplementar, ou seja, o gozo feminino, o gozo do corpo. Se o falo como significante simboliza o lado do homem, do lado da mulher haverá uma carência do significante para simbolizá-la, entrando em cena um outro tipo de gozo, que é suplementar.

A concepção de gozo feminino será sustentada por Lacan a partir das fórmulas da sexuação, em que contrapõe a lógica do todo à lógica do não-todo em relação gozo fálico, sendo que qualquer “ser falante se inscreve de um lado ou de outro” (LACAN, 1972-73, p. 107). Se o lado homem se define pela lógica do todo, a mulher “se define por uma posição com o não-todo no que se refere ao gozo fálico” (LACAN, 1972-73, p. 15, p. 99), apresentando, aí, um gozo suplementar. Gozo tal que indica que há algo a mais, estando conectado ao gozo do corpo, o qual se experimenta e do qual não se sabe nada, pautando-se pelo sem sentido. Gozo sem limites, sustentado pela iteração de uma satisfação superegoica que se multiplica por não estar circunscrita, recusando o vazio estrutural que define a subjetividade devido à inexistência do gozo universal.

 

É na lógica do não-todo que vemos a sociedade contemporânea se constituir, demarcando uma mudança em relação ao objeto a. Se no Seminário da Angústia o objeto a se refere ao regime da exceção, no Seminário 20 (Mais ainda) ele será regido pela lógica do não-todo, correlacionado ao mais-de-gozar e, por isso, se proliferará, estando em toda parte (MILLER, 2005, p. 24;25). É nessa conjuntura de ascensão do objeto a ao zênite social (LACAN, 1970) que Miller, no texto “A teoria do parceiro”, dirá que a toxicomania representa bem o momento contemporâneo, pois “ela traduz a solidão de cada um com seu parceiro mais-de-gozar” (2000/1997, p. 170). Condição tal que pertence ao liberalismo e seus desdobramentos “(…) em que não nos ocupamos de construir o Outro, e que os valores ideais do Outro desagregam-se frente à globalização que prescinde do Ideal” (Ibid.).

 

Sabemos que o mestre contemporâneo, ou seja, o discurso capitalista, acarreta consequências na civilização e na subjetividade. Sinatra, no III Colóquio Americano TyA/2017[1], diz que há um componente aditivo no circuito do consumo de mercadorias na atualidade, produzindo drogas-mercadorias no sentido de as mercadorias terem, em si, um valor aditivo.

 

Isso se torna possível porque se valem diretamente da condição estrutural da subjetividade, que se constitui a partir da marca da inexistência de um gozo universal. Essa marca do vazio se institui também, nos tempos atuais, como matriz onde se inserem os gadgets. O discurso capitalista intervém no mercado produzindo um objeto para saturar, com os pequenos objetos, este vazio central do gozo impossível. Sua função: a de fazer existir um gozo suplementar dos sexos, que não há (SINATRA, 2017).

 

Com isso, o que se substitui não é um objeto, mas sim um gozo que não existe. Nessa promessa de suturar o vazio pelos objetos-mercadoria, o que se produz é a iteração do gozo impossível de se satisfazer.

 

No contexto do Outro dos ideais que se esvanecem, e em que Miller se refere ao Outro que não existe, abre-se um processo no qual o sujeito contemporâneo se encontra em movimentos acelerados e encontros efêmeros, abertos, por um lado, à diversidade de formas de gozo e à multiplicidade de comunidades e tribos, mas, por outro lado, observa-se uma crescente intolerância aos modos de gozo do outro, ao diferente, o que leva a uma profusão de formas de segregação. Laurent (2014) comenta que Lacan já se preocupava com a globalização como efeito do capitalismo e, em suas elaborações sobre o racismo, especialmente o nazista, antevia os desdobramentos de novas segregações, dizendo em seu texto de 1967: “Nosso futuro de mercados comuns encontrará sua balança na extensão cada vez mais dura dos processos de segregação” (LACAN, 1967, p. 263). O que está em jogo nessa frase de Lacan é a dificuldade de suportar o modo de gozo do outro que se apresenta como estrangeiro, “rejeitando um gozo distinto do meu” e que remete ao inquietante estranho que cada um comporta, estando a segregação ancorada nessa rejeição.      O autor prossegue dizendo que, se Lacan insistia nessa discussão do racismo, era para demonstrar que “todo conjunto humano comporta em seu fundo um gozo deslocado, um não-saber fundamental sobre o gozo, que corresponderia a uma identificação” (LAURENT, 2014, s/p.), e é isso que está no fundamento do laço social. Lacan, em Televisão, comenta que, “no desatino do nosso gozo, só há o Outro para situá-lo, mas na medida em que estamos separados dele” (1973, p. 534). No entanto, o contemporâneo demostra uma colagem de modos de gozo, rejeitando o gozo impossível e, com isso, o que lhe é diferente. Em tempos de queda dos ideais e de uma civilização cada vez mais orientada pela lógica do gozo feminino, vemos se multiplicar as formas de gozo e seus embates na sociedade. Laurent dirá que não se trata de choque de civilizações, mas sim de choque dos gozo: “Esses gozos múltiplos fragmentam o laço social, daí a tentação de apelo a um Deus unificador” (LAURENT, 2014, s/p.).

 

No Brasil, podemos situar uma das novas formas de segregação, que são as “cracolândias” e seus efeitos no social. Diante desses espaços fora da lei, que atualizam um modo de gozo estranho, sempre surgem tentativas de intervenções sociais, sejam de caráter de inserção social, sejam de medidas higienistas. Destacamos duas delas: por um lado, a proposta de incluir esse agrupamento de alguma forma no social a partir das noções de direitos humanos e cidadania, contempladas pela ideia de redução de danos. Por outro lado, as antigas formas proibicionistas e higienistas de combate às drogas, cada vez mais crescentes nos dias atuais. Mas quanto mais se combate as “cracolândias”, como o exemplo de São Paulo, mais se espalham os agrupamentos pela cidade. Tais agrupamentos nos mostram também a atualidade do gozo autístico como uma modalidade do contemporâneo, pois, mesmo os consumidores estando em um mesmo espaço, cada um se encontra imerso em seu próprio gozo.

 

Em relação à clínica, nos perguntamos como podemos pensar a toxicomania considerando a queda do falocentrismo. Naparstek, no argumento do Encontro TyA que aconteceu em abril deste ano em Barcelona, destaca três tempos de elaborações sobre a toxicomania no ensino de Miller, desenvolvidas considerando a tese de Lacan da “relação da droga com o pequeno pipi”. Naparstek diz que a primeira versão de Miller sobre as toxicomanias se encontra ancorada nas elaborações sobre o falo, fazendo referência ao texto “Para uma investigação sobre o gozo autoerótico”, de 1989. Nesse texto, Miller refere-se à toxicomania como o que coloca questão ao falo. Diz que a especificidade do gozo toxicômano é que não passa pelo Outro nem pelo gozo fálico, caracterizando-se por romper o casamento com o pequeno pipi, não permitindo, assim, colocar o problema sexual (MILLER, 1989/2016, p. 28).                  É, portanto, uma relação de ruptura com o gozo fálico.

 

O segundo momento das elaborações de Miller giram em torno do objeto pequeno a, fazendo referência aos textos da época do parceiro sintoma (“Teoria do parceiro”, 1997/2000). Jésus Santiago, em A droga do toxicômano (2017, p. 233), demarca que essa formulação de Miller possibilitou conceber o Outro não apenas como lugar do significante, mas também como o que se representa como corpo, permitindo entender os novos sintomas, tal como a toxicomania, como supremacia do gozo autístico e mortífero. Nesse sentido, a toxicomania aparece como um gozo assexuado, prescindindo do parceiro sexual, tendo o caráter de um antiamor, uma vez que estabelece o parceiro-droga como mais-de-gozar, havendo a prevalência dessa vertente em conexão com um objeto artificial. A teoria da droga como ruptura fálica é comentada por Santiago considerando as concepções do último ensino de Lacan, situando a especificidade do ato toxicômano como uma ruptura com o gozo decorrente da parceria com o falo. Parceria esta que fomenta o gozo necessário ao ser falante para lidar com os embaraços decorrentes do gozo como impossível. Na toxicomania, o que se observa é um excesso de gozo prevalecendo sua vertente mortífera, que não convém à vida, numa ruptura com o desejo e o amor (ponto a ser desenvolvido por Mariana Vidigal, no seminário teórico O uso de drogas como anti-amor e o recurso do falo”, e pelos comentários de Cristina Nogueira).

 

No terceiro momento das formulações de Miller, em “Ler um sintoma” (2011), Naparstek, em “Enganches y desenganches en las toxicomanias y las adicciones”, destaca que o autor se refere mais à adição do que à toxicomania: “Neste caso, não se trata do falo ou do objeto pequeno a, mas do sintoma nos termos do último Lacan. Refere-se à iteração do sintoma e à adição como modelo do sintoma enquanto tal. Um sintoma separado do Outro e vazio de sentido” (2018, p. 22). Assim sendo, a concepção das psicoses ordinárias coloca em questão a noção da tese de ruptura relacionada à droga no ensino de Lacan, especialmente aquela pautada pela referência ao NP. Mais do que ruptura, o autor sugere, com Miller, pensar em ligamentos e desligamentos do Outro, reafirmando a noção da clínica borromeana, flexível às soluções sintomáticas como amarrações. Nessa perspectiva, o Nome do Pai, concebido como predicado, se instala como uma solução compensatória ao substituir o substituto NP. Por esse viés, Santiago comenta, referindo-se às psicoses ordinárias, que a droga pode se revelar um “substituto substituído”, podendo ser um NP na relação que o sujeito tem com seu corpo. Ou seja, uma solução para as desordens do gozo do toxicômano, especialmente quando se verifica a prática do consumo como uma técnica de corpo com a droga (SANTIAGO, 2017, p. 240). Na clínica das amarrações, é possível pensar práticas de consumo de drogas que podem funcionar como uma forma compensatória de ligamentos ou desligamentos do Outro (questões que serão trabalhadas por Maria Wilma Faria em torno do tema “ruptura ou queda do falo nas toxicomanias e suas implicações na clínica”).

 

Considerando os pontos levantados é que foram abertos os trabalhos do semestre, ressaltando que a toxicomania nos mostra um funcionamento congruente ao gozo feminino, uma vez que nos indica o que escapa à norma fálica e aponta muito mais para uma iteração do gozo. Como vimos acima, o estatuto do gozo feminino refere-se ao ilimitado, a uma dificuldade de contornar aquilo que, no gozo, se mostra como deslocado, que se apresenta como impossível. Nesse sentindo, colocamos como questão a ser investigada: a relação com o parceiro-droga seria uma maneira de ruptura fálica, uma forma rejeitar ou de contornar o gozo deslocalizado? Questão a ser abordada ao longo do semestre, no Núcleo de Toxicomania, por meio dos pontos desenvolvidos nas apresentações teóricas, tal como o tema de Rachel Botrel, “A toxicomania como uma resposta à queda do falocentrismo”, e também verificados nos casos clínicos apresentados por Marina Melo e comentado por Lilany Pacheco; por Marcelo Quintão, com comentários de Francisco Paes Barreto; pelo comentário de Maria José Salum sobre a apresentação de pacientes de 2017; e também pela prática da apresentação de pacientes a ser feita por Jésus Santiago.

 

 

Referências

 

LACAN, J. (1967). Proposição 9 de outubro, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

 

______. (1968-69) O seminário, Livro XVI: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

 

______. (1969-70) O seminário, Livro XVII: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.

 

______. (1971). O seminário, Livro XIX: … ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012.

 

______. (1972-73), O seminário, Livro XX: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

 

______. (1970/2003). “Radiofonia”, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

 

______. (1973) “Televisão”, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

 

LACAN, J (1975/76). Encerramento das Jornadas de Estudos de Cartéis da Escola Freudiana, Revista Pharmakon digital (2016), n. 02, vol. 1. Disponível em: < http://www.pharmakondigital.com/indice2016_vol1_pt.html>.

 

LAURENT, E. (2014). O racismo 2.0: Lacan Cotidiano n. 371. Disponível em: <http://ampblog2006.blogspot.com.br/2014/02/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html>.

 

MILLER, J-A. “Para uma investigação sobre o gozo autoerótico”, Revista Pharmakon digital (2016), n. 02, vol. 1. Disponível em: <http://www.pharmakondigital.com/indice2016_vol1_pt.html>.

 

MILLER, J-A (2013). “O Outro sem o Outro”. Diretoria na Rede. Disponível em: <https://www.ebp.org.br/dr/orientacao/orientacao005.asp >.

 

MILLER, J-A. “Introdução à leitura do Seminário 10 da Angústia de Jacques Lacan”, In: Opção Lacaniana. São Paulo: Edições Eólia, n. 43. Maio de 2005, p. 7-91.

 

MILLER, J-A. (1997). “A teoria do parceiro”, In: Os circuitos do desejo na vida e na análise. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000, p. 153-207.

 

MILLER, J-A (1998). “O sintoma como aparelho”, In: O sintoma-charlatão. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 9-21.

 

MILLER, J-A. El partenaire-síntoma: Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2008.

 

MILLER, J-A. “Ler um sintoma” (2011). Disponível em: http://www.lacan21.com/sitio/2016/04/16/ler-um-sintoma/?lang=pt-br.

 

NAPARSTEK, F. “Enganches y desenganches en las toxicomanias y las adicciones”, In: La inquietante familiaridad de las drogas. Olivos – Buenos Aires: Grama Ediciones, 2018, p. 21-23.

 

SANTIAGO, J. “Droga, ruptura fálica e psicose ordinária”, In: A droga do toxicômano – uma parceria cínica na era da ciência. Belo Horizonte: Relicário, 2017, p. 231-241.

 

[1] O III Colóquio Americano da rede TyA ocorreu em 13 de setembro de 2017, na cidade de Buenos Aires, Argentina, como um dos eventos satélites do VIII ENAPOL, debatendo o tema “A inquietante familiaridade das drogas”.

 

CLÁUDIA MARIA GENEROSO

Coordenadora do Núcleo de Toxicomania do IPSM-MG, doutora em Psicologia/Estudos Psicanalíticos pela UFMG, psicóloga no CAPS-AD Betim. claudia.generoso@yahoo.com.br

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