Almanaque No 10

A segregação nossa de cada dia

Luís Tudanca

É um prazer estar aqui, trabalhando com vocês as questões levantadas em meu último livro.[2] Agora posso dizer “meu último livro”, já que são dois.

Trata-se, então, da política pensada a partir da psicanálise e, mais estritamente, da política da psicanálise que chamo de “uma política do sintoma”, que é o título do livro. Tento sustentar-me nessa linha. Nesse sentido, parece-me que há uma ideia de Lacan da qual não se deve desviar, que é sua definição de política em relação à psicanálise. Lacan diz, textualmente: “O sintoma institui a ordem em que se revela nossa política, implica, por outra parte, que tudo o que se articula por essa ordem, quer dizer, a ordem do sintoma, seja passível de interpretação”. Assim, o que Lacan indica — e ele não se afastou nunca disso — e que faz com que Miller retome todas as discussões sobre a política e a psicanálise, nesse ponto, gira ao redor de três termos: política, sintoma e interpretação. Isso quer dizer que, em psicanálise, a política é a política do sintoma, e, com isso, o outro passo agregado por Lacan é aquele segundo o qual, se a política da psicanálise é a política do sintoma, a única ferramenta de que dispomos para essa política é a interpretação. Esses são os três eixos que vamos encontrar nos dois livros e em todas as ideias nas quais Miller insiste, e insiste muito, ultimamente.

Isso abre duas perspectivas, uma é a perspectiva para dentro, ou seja, para a psicanálise pura, e outra é a perspectiva para fora, quando dizemos ir desde a psicanálise ao social, ir desde a psicanálise à cidade.

Para dentro, a política da psicanálise é a política do sintoma, e isso nos leva ao passe. Por quê? Porque o dispositivo do passe investiga o sintoma, e essa é a política da psicanálise pura. Por outra parte, no dispositivo do passe, tenta-se verificar o que se passou com a interpretação em uma análise, se essa interpretação conseguiu fazer algo ou não com o sintoma do sujeito, e se houve modificação a tal ponto que se possa falar de sinthome no final de análise, um novo enodamento, isso é para dentro.

Para fora, em relação ao social, ocorre o mesmo, porém aí surgem nossos problemas. Porque a política para fora teria que estar restrita unicamente a localizar o sintoma, o sintoma no social, a cada vez; não há outra perspectiva senão essa. De modo que o trabalho em instituições, o trabalho no Estado, inclusive, etc., se alguém o aborda como psicanalista, tem que abordá-lo unicamente na perspectiva do sintoma, e aí sim se abre a perspectiva de interpretar esse sintoma que aparece no social, na sociedade concreta, na qual vivemos. Qual seria, no entanto, a especificidade dessa interpretação? Porque, se o abordamos, numa perspectiva geral, poderíamos dizer que todos interpretam o sintoma. O que quer dizer todos? Os filósofos, os sociólogos, os cientistas políticos, os literatos… Na televisão, há um excesso de interpretação do sintoma. O problema é que todas essas interpretações apontam para o sentido. A questão é: o que isso quer dizer? Eles convocam, na televisão, na Argentina é assim, aqui deve também, um cientista político, um deputado, um médico e um psicanalista.

Se alguém vai a essas mesas multidisciplinares, como psicanalista, deveria perguntar-se se pode dizer algo diferente. O algo diferente teria que estar fora dos sentidos que as demais disciplinas vão apresentar. É nisso que se torna tão difícil a intervenção de um psicanalista na mídia, seja em um jornal, na televisão, etc. Porque ele sempre deveria apontar para o que chamamos, em psicanálise, o fora de sentido.

É assim que a interpretação, como Miller a pensa e eu a retomo neste livro, é leitura do sintoma, sempre se trata de ler o sintoma. Ler o sintoma é interpretá-lo, interpretá-lo é, se não ir diretamente ao fora do sentido, é, pelo menos, tratar de podar os outros sentidos que estão em jogo em relação a esse sintoma. Essa me parece que é a intervenção mínima.

O outro ponto que Lacan assinala, e que sempre nos traz dificuldades, é sustentar nosso discurso num meio-dizer.

Há um exemplo que Lacan dá, no Seminário 17, e que sempre gerou, inclusive entre nós, os colegas, discussões. Lacan diz “evitando a denúncia”, não denunciando. Mas, se alguém permanece somente nessa frase, parece-me que não termina de entender a ideia de Lacan. Ele disse, efetivamente, “evitando denunciar, porque denunciar reforça o denunciado, salvo…”, e aí vem a segunda parte, “salvo que se o faça com um meio-dizer”. Então, não é exatamente não denunciar, mas denunciar de outra maneira, uma maneira difícil, uma maneira para a qual eu penso que é preciso preparar-se, porque a que nos ocorre é a outra, é a do filósofo, a do sociólogo, nos ocorrem estas. Não nos ocorre a denúncia como um meio-dizer, sem dizer tudo, apontando ao vazio, diminuindo o sentido, podando-o, rasurando-o. Parece-me que merece uma prática, uma maneira de ir-se instalando, aos poucos, nessas questões. Isso, como linha geral.

Como isso se encarna na ação política concreta?

Porque, de alguma maneira, e essa é a segunda parte, deve-se pensar a política já não somente a partir da psicanálise: a política, em geral, é ação. Vocês podem verificar a multidão de filósofos políticos que, pelo positivo ou negativo, sempre vai indicar que política é ação. Assim, o importante é pensar qual ação política, a cada vez, sem esquecer a perspectiva de que a ação política deve estar dirigida a ler um sintoma e interpretá-lo, essa é a política da psicanálise.

Não é pouco, ler um sintoma e interpretá-lo pode interferir diretamente no real de uma situação, não se deve pensá-lo como algo localizado fora da política concreta, ao contrario, isso é política concreta, e pode fazer mudar as políticas. A questão é: como mudar as políticas sem chamar muita atenção? Aí se coloca o impolítico,[3] porque a ação política permite uma dupla leitura: a da ação política pensada em direção a conseguir uma eficácia direta; e a da ação política pensada como o impolítico, possibilitando a leitura da ação política sustentada em uma eficácia indireta.

Aqui tenho que fazer uma pequena confissão: no primeiro livro, eu pensava que o impolítico sempre devia guiar a ação política. Hoje, não penso exatamente o mesmo, há uma variação entre o primeiro e o segundo livro. Não falo de complemento entre ambos, mas sim de suplemento; assim como falamos do gozo feminino como suplemento, podemos falar do impolítico como suplemento. Porém, às vezes, necessita-se da ação política sustentada na ação direta, na eficácia direta. Por exemplo, quando Miller funda a Associação Mundial de Psicanálise, aí não há nenhum ato impolítico, é um ato político de eficácia direta e com consequências, nesses 20 anos em que já se encontra estabelecida a AMP. É uma ação política concreta direta, não tem nada de indireto, com uma mensagem ao resto da psicanálise, com uma presença nova no real dos psicanalistas de orientação lacaniana em nível mundial. De forma que, há, nisso, uma política que não podemos chamar de impolítica.

O impolítico deve ser pensado como um dos nomes do que, em psicanálise, se chama de não-todo. Para mim, o impolítico é uma maneira de pensar o político sustentado no não-todo, o que corresponde à lógica feminina e não à lógica masculina, que aponta sempre para o todo, corresponde ao que eu transmitia, em meu testemunho de passe, como apontando ao A, A história, A política, A mulher. O impolítico é o que aponta ao não-todo sustentado na lógica feminina, que é, por outro lado, a lógica com base na qual Lacan pensa a posição do analista, mais do lado da lógica feminina, quer dizer, do não-todo, que do lado da lógica masculina, que aponta ao todo.

Por isso, digo, neste livro: há a ação política propriamente dita, que é a que remete à eficácia direta, e há a ação política mais sustentada no impolítico, que é a que assinala para a eficácia indireta, a ser atingida de lado.

Isso acrescenta um problema, o da decidibilidade, da decisão. Ou seja, cada um tem que escolher que coisa, a cada vez. Não se pode escapar da decisão. Isso é exatamente o contrário de um efeito de massa, porque, se alguém tem que decidir, a cada vez, elimina por completo o plano da sugestão e o efeito de massa, ou o efeito de grupo, esse é um tema a considerar.

O livro Uma política do sintoma deve um reconhecimento a um outro livro que não é de um psicanalista e que me permitiu entender alguns temas da psicanálise, de modo a iluminar alguns pontos obscuros para mim em relação à teoria psicanalítica. Esse livro é de Michel Foucault, e seu título é É preciso defender a sociedade.[4] Há uma tese central, nesse livro, que não é exatamente o que se toma em geral como a tese central que está no último capítulo, que é onde ele define a biopolítica. Há um capítulo do meu livro dedicado à biopolítica. Porém o desenvolvimento que se dá a ver no livro de Foucault é muito mais importante que o de seu último capítulo, ou seja, os quatro primeiros capítulos. Pelo menos, eu penso assim, porque a biopolítica é uma consequência do desenvolvimento que Foucault faz nesse curso, nas quatro primeiras aulas. Eu o recomendo especialmente, porque é um livro que serve a nós, psicanalistas, não para saber de filosofia política, mas para saber de nossos temas, nossos problemas. Nesse livro de Foucault, estão duas ideias fundamentais para mim, que constituem as hipóteses que sustento em meu livro.

A ideia de Foucault está sustentada na análise de uma fórmula. Ele diz que, antes, no discurso do mestre antigo, havia o direito, por parte do mestre, de “fazer morrer ou deixar viver”, essa é a fórmula que ele analisa. Ou seja, que o mestre, com relação ao súdito (para não dizer escravo, porém poderíamos dizer escravo), tinha o direito de fazer morrer, de matá-lo concretamente, e essa era uma lei inerente ao mestre. Ou de permitir-lhe viver, deixá-lo viver. Foucault expõe que, na sociedade contemporânea, no capitalismo contemporâneo, essa fórmula sofre uma transformação, que nos leva ao tema central do livro. Essa fórmula é substituída pelo poder de “fazer viver e deixar morrer”, é uma fórmula que deve ser destrinchada.

Em primeiro lugar, há um deslocamento do termo “direito” ao termo “poder”, e aí estamos na essência de todo o desenvolvimento de Foucault a respeito do que seja o tema central de sua obra, que é o poder e como um sujeito sofre em relação ao poder. A segunda questão é a inversão dos termos, antes era “fazer morrer”, agora a fórmula passa a “fazer viver”, antes era “deixar viver”, agora passa a “deixar morrer”. A inversão de vida e morte na fórmula mesma. O fundamental, e o que nos permitiria interpretar a inversão da fórmula, é que começam a nos dizer como viver. Isso eu creio que é claro para qualquer um.

Antes de dar um exemplo, no mesmo curso de Foucault, encontramos a ideia de que o mundo está basicamente dividido em duas raças. Essas duas raças podemos traduzir como dois bandos, dois grupos, e Foucault pensa que isso constitui a essência mesma de nossa sociedade. Na Argentina, pode ser River e Boca, pode ser peronismo e antiperonismo, os millerianos e os antimillerianos… Isso é essencial, na sociedade contemporânea, não ocorria tanto na sociedade antiga. Inclusive, quando se produziam guerras, nunca havia exatamente essa questão de dois bandos, isso é o que constitui um racismo contemporâneo, é o que eu chamo de o racismo nosso de cada dia. Aqueles que, alguma vez, rezaram o Pai Nosso recordarão essa fórmula, na parte em que se diz ”o pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Faço uma ironia com ela, tomo da oração maior da religião cristã essa frase e a transformo em “o racismo nosso de cada dia”. Assinalo o pequeno racismo de todos os dias, que acontece quando tomamos um táxi, com o taxista, não ao racismo que termina no nazismo, por exemplo, e que pode resultar numa guerra, etc. A mim me preocupa esse racismo nosso de cada dia, que é o que cada analisante leva à análise e do que, a partir da psicanálise, devemos tentar dizer algo.

Também podemos dizer algo sobre o outro racismo, de fato um capítulo do livro que dedico às ideias de Lacan sobre o racismo e ao que acrescenta Miller a essas ideias, que são três. O racismo dos discursos em ação, a fórmula do racismo sustentado no ódio ao gozo do outro e uma terceira de que não me recordo neste momento, porém são três. Pode-se fazer isso também, e, de fato, é importante, mas, na condição de psicanalista, procuro elucidar o ponto do pequeno racismo, que é esse do qual ninguém escapa, incluídos nós, os psicanalistas. De forma que este é clínico, o interesse é político, mas também é clínico, porque depois é o que se escuta no discurso dos analisantes.

Então, agora sim, o exemplo, correndo o risco de que, ao ser dado, se constituam dois bandos. Na sociedade contemporânea, cada vez mais, pode-se fumar em menos lugares. Então, alguém pode dizer que isso é indicar-nos como viver. Impõem-nos que há um gozo que não devemos ter, outros não importam tanto, porém esse é um gozo em cuja erradicação a sociedade contemporânea, cada vez mais, tem decidido investir. Por quê? Já sabemos, como psicanalistas, que quanto mais se aponta à erradicação de um gozo, este volta por outro lado, isso já sabemos. Vamos deixar de fumar e seguramente nós iremos talvez às drogas, não importa.

Porém não sabemos tampouco quem detém o poder, porque uma das teses de Foucault é a de que se perde onde está o poder, cada vez mais. Antes, localizava-se o poder num rei, por exemplo, ou em alguém que mandava, agora não se sabe muito bem, o poder está completamente desfocalizado.

Voltemos ao exemplo: se eu pego um cigarro, vão me dizer: “não, aqui não, em Belo Horizonte, não se fuma aqui dentro, podemos ir lá fora para fumar”. Isso imediatamente constitui dois bandos, e é a sociedade na qual vivemos. Na Argentina, continua-se avançando no como viver, e agora não se pode colocar um saleiro na mesa dos restaurantes, é preciso pedi-lo ao garçom, se alguém quer colocar sal na comida. Então, indicam-nos que devemos consumir pouco ou nada de sal, e assim será com a água, que será com gás ou sem gás, de acordo com o que pense o poder, continuará com as comidas, não haverá mais carne de porco nos restaurantes… Exagero para que entendam a minha ideia.

Essa ideia está em Foucault e se verifica no que os analisantes nos contam de seus dramas. É o mesmo, porque os bandos devem ser pensados em termos psicanalíticos, em termos de homem e mulher. Por isso, é um milagre que tenham ocorrido a Lacan as fórmulas da sexuação, que eliminam os dois bandos: há dois gozos, não dois bandos, e cada um pode-se localizar de acordo com o gozo que tem. Um homem pode estar do lado direito, de fato estar do lado esquerdo, a estrutura da histeria o faz estar do lado esquerdo. Para a mulher, valem as quatro fórmulas, no homem, ao contrário, as duas da esquerda, e ele tem muito mais dificuldades para orientar-se para o lado direito. As fórmulas da sexuação são um exemplo, uma resposta ao problema dos dois bandos. Obviamente, não me imagino indo à televisão para explicar, numa mesa com filósofos e sociólogos, que o que dá a possibilidade de solucionar o problema das duas raças são as fórmulas da sexuação. É impossível, por isso, nossa intervenção é muito limitada. Mas temos que nos perguntar como podemos intervir, tendo essa ideia em mente. A partir desse ponto de vista, a filosofia política tomou as fórmulas da sexuação para explicar o mundo contemporâneo. Isso é feito por Milner, Badiou, assim como Ernesto Laclau, todos os filósofos políticos que consideram o pensamento de Lacan. Porém, do pensamento de Lacan, o que tomam fundamentalmente são as fórmulas da sexuação, não somente, mas fundamentalmente, repito.

E, nesse ponto, para dar-lhes outro exemplo, há outro capítulo que eu chamo “a época da vizinhança”. Vizinhança é um termo que Lacan usa no Seminário 21, e em todo o último ensino. É um termo que corresponde à lógica do não-todo, do pas-tout, inclusive como oposição a outra lógica, que é a lógica da fronteira. É sempre o mesmo tema, com distintos nomes. A lógica da fronteira é uma lógica de segregação, porque, onde há uma fronteira, há um bando e outro bando, e, a partir daí, começam as guerras, porque “você avançou um pouquinho, cem metros, e ocupou meu território, então, tenho que te expulsar”.

A lógica da fronteira é uma lógica da inclusão/exclusão, não tem nada de não-todo. Ao contrário, por isso, Lacan pensa que a lógica da vizinhança é a eliminação total das fronteiras.

Então, a filosofia política começa a pensar se poderia haver uma maneira de eliminar as fronteiras. Gostemos ou não, estejamos completamente de acordo ou um pouquinho em desacordo, o Mercosul é uma ideia de vizinhança, não é uma ideia de fronteira. E todas as discussões do Mercosul — “me impediste a importação”, “agora não me mandas aquilo, mas queres o meu” — isso é um retorno da lógica das fronteiras. Ou seja, a lógica da vizinhança é muito difícil de sustentar, no entanto, pareceria que há elementos que pouco a pouco se vão instalando na sociedade contemporânea, pelo menos na América Latina.

Isso teria que nos servir para pensar os problemas nas instituições psicanalíticas. Nelas, deixamo-nos levar pelo não-todo, pela lógica da vizinhança, ou caímos todo o tempo, como sintoma, na lógica das fronteiras, na lógica dos bandos, dos grupos? E, como sempre, ao cair nisso, deve-se interpretar o sintoma e encontrar soluções parciais para esse sintoma. Pelo pouco que conversei, em São Paulo e aqui, sei que isso acontece do mesmo modo como na Argentina, o tempo todo, e é necessário, a cada vez, interpretar o sintoma: como ele se deslocou e apareceu em outro lugar, como se deslocou e voltou a aparecer no outro lado, e como se pode resolvê-lo a cada vez. Para consumo interno, isso tem uma vigência extraordinária.

Debate

Sergio de Castro: Pergunta não audível a respeito da diferença entre o Mercosul e o mercado comum europeu.

Luis Tudanca: Sim, torna-se mais duro se se mantém a lógica das fronteiras, porque o que se mostra no mercado comum europeu é que está mantida a lógica das fronteiras, porque os maus alunos são castigados, os alunos que não fazem os deveres. Isso nos leva à lógica da avaliação, há um poder que avalia quem merece permanecer. Neste momento, é muito mais interessante a lógica do Mercosul que a do mercado comum europeu. Deve-se ver se isso vai seguir assim ou não, o Mercosul é uma mistura das duas lógicas, vamos ver o que acontece. Nesse sentido, Lacan era pessimista, falava do pessimismo da estrutura e somente localizava o otimismo do lado da ação. Então, devem-se pensar todas essas questões do lado da ação, porque, se as pensamos do lado da estrutura, já sabemos, como psicanalistas, o que acontece do lado da estrutura, nesse ponto.

O problema é a convivência de lógicas, e qual vai tendo maior peso em cada situação, essa é a questão.

Jésus Santiago: Porque, além da questão da fronteira e da vizinhança, tem um aspecto mais estrutural que, a meu ver, é a própria lógica do capital. Lacan, de alguma maneira, aponta para se considerar os mercados comuns como uma espécie de estímulo ao racismo. O que os mercados comuns denotam é o avanço do capitalista, portanto, da homogeneização, e isso iria contra os distintos modos de gozo. Não sei o que você pensa, mas talvez tivéssemos que introduzir a ideia, em torno do problema da vizinhança e da fronteira, de que, para além dele, haveria um certo processo de homogeneização, e que, em última instância, é a base do fenômeno do racismo, não?

Luis Tudanca: Essa é a distinção que temos de realizar, o que você disse é preciso. Em certo sentido, a lógica da fronteira já não existe, devido à uniformização que o capitalismo tem produzido, a homogeneização, porém a lógica da vizinhança não é isso. Então, deve-se extrair de Lacan essa ideia. Talvez a AMP possa dar uma injeção de vizinhança no capitalismo. Isso é o que temos que começar a pensar.

Jésus Santiago: Porque a ideia que eu penso que a própria Orientação Lacaniana introduz em relação à crise que vive a Europa, dos processos de homogeneização no nível da própria economia, a impressão que me dá é a de que, para se contrapor ao racismo, a resposta que tem que ser dada não é tanto uma resposta pela via do nacionalismo. Pois o nacionalismo reforça a lógica da fronteira. O que estaria em jogo seria um processo de civilização, não um projeto jurídico, não uma certa orientação da própria integração, de mercado comum, de propor uma unificação dos mercados, sem ter uma orientação em relação ao próprio estilo da vida civilizada.

Ludmilla Faria: A homogeneização, na verdade, traz como resposta a fronteira, leva à fronteira. Contra dois bandos, todos iguais, a tentativa é de constituir diferença, introduzir fronteira, acho que a gente tem fronteiras hoje, uma lógica de fronteiras. Parece-me que a homogeneização introduz a tentativa de diferenciação.

Pergunta não audível.

Luis Tudanca: A homogeneização deve ser pensada em termos de gozo. Quem idealiza as fronteiras torna os sujeitos idiotas e casados com seu gozo. Isso é o que chamamos de consumo, a homogeneização é o que Miller chama de “a ditadura do mais-de-gozar”. Sustentada numa ciência, que não é ciência, mas técnica, que produz objetos para alcançar essa homogeneização do consumo. A partir desse ponto de vista, a discussão da fronteira ou vizinhança passa para um segundo plano, porque já não há sujeito, por isso, Lacan recorre ao termo parlêtre, para designar alguém diretamente casado com o gozo. Já não há dois bandos, já não há dois grupos, na medida em que o que triunfa é o autismo do um, que não se dirige ao Outro de nenhuma maneira. Isso é clínica, e é clínica porque o que começamos a ver, em todas as nossas discussões sobre psicoses ordinárias, é isso. Percebe-se que, cada vez mais, está impossibilitado o enlace como tal.

É desde esse ponto de vista que se deve começar a pensar que política é possível nesse ponto. Sem a possibilidade de um retorno nostálgico à solução Nome-do-Pai, que já não tem retorno, mas tampouco sem uma solução para sustentar isso. Esse é o problema que temos, insisto, não se pode dar uma fórmula, não se pode dar uma lei, não se pode assegurar uma generalização, é a cada vez, em cada situação, a solução que nos venha à mente. A distinção entre fronteira e vizinhança está sustentada (tento fazer isso no livro), fazendo primeiro uma distinção de qual é a lógica do capitalismo atual, depois se verá como intervir a cada vez, porque não há receita, esse é o problema.

Texto estabelecido por Ernesto Anzalone (revisto pelo autor)

Tradução: Maria das Graças Sena

(1) Intervenção realizada em 18/05/2012, na sede do IPSM-MG, em atividade extraordinária do Núcleo de Investigação e Pesquisa em Psicanálise e Direito, coordenada por Ludmilla Féres Faria.

(2) TUDANCA, Luis. Una política del síntoma. Buenos Aires: Grama ed., 2012.

(3) A categoria do impolítico designa uma política que busca intervir em relação ao poder, mas sob a forma de uma “ação não atuante”, contrária à despolitização contemporânea.

(4) FOUCAULT, Michel (1976). É preciso defender a sociedade. [S.l.]:Livros do Brasil, 2006.

Luís Tudanca

Psicanalista, AME, Analista Membro da Escola, da EOL - Escuela de la Orientación Lacaniana e da AMP - Associação Mundial de Psicanálise. E-mail: tudancaluis@fibertel.com.ar

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