Almanaque No 09

A toxicomania não é mais o que era

Antonio Beneti

O mundo das toxicomanias, em 28 anos, aqui em Belo Horizonte, mudou. No Brasil mudou, no mundo mudou! Então, temos que pensar no fenômeno da toxicomania contemporânea, seu lugar, sua função, sem exclusão da singularidade de cada um dos consumidores. Foi assim que eu desenvolvi o que eu vou colocar para vocês, no sentido de algumas considerações para se pensar a questão do tratamento do toxicômano hoje. Isso porque, se, nesses 28 anos, esse mundo mudou, temos que pensar na toxicomania ontem e hoje, para refletir sobre o tratamento do toxicômano ontem e hoje.

Eu entendo que, no tratamento do toxicômano, hoje, nós estamos engatinhando, estamos num momento de não saber como fazer com as novas formas da toxicomania; e entendo que isso aqui nos aproxima hoje do campo da psicanálise e do campo da saúde mental. É evidente que se Lacan nos deixou um “não recuar diante da psicose”, e nós assim o fazemos hoje, ontem, não recuamos diante da toxicomania, do tratamento do toxicômano. Isso a partir do estabelecimento de um princípio ético não segregativo: “Necessário hoje não recuar diante desse real contemporâneo, que é o consumo de drogas”. Então, enquanto analista, estou de acordo com ele, devemos desejar saber o que se passa e nos posicionarmos a partir do que temos como princípio político (não segregação do sujeito do inconsciente), com suas estratégias e táticas para lidar com a questão.

Então, o que ocorria ontem? Ontem, em Belo Horizonte — estávamos em 1983 — nossos usuários de drogas, indistintamente, quando eram surpreendidos, pegos usando droga, eram “encarcerados” no depósito de presos da Gameleira enquanto “objetos de tratamento” da polícia. Não havia a inscrição desse tipo de sujeito nos campos da medicina, da psiquiatria e da saúde mental. Nem mesmo um discurso jurídico tinha tanta importância nessa época, mesmo já com a existência da presença dos advogados, do relaxamento da prisão, etc… E mesmo com somente os traficantes, que eram poucos, sendo enquadrados numa lei, como ato criminoso, etc.

Na época, qual o ato que calculamos fazer e fizemos?

— “Vamos escutar esse tipo de sujeito, vamos dar a palavra a esse tipo de sujeito”, desejando saber por que ele consome essa “substância-droga”, esse “significante encarnado”; por que ele se droga; qual o lugar e a função desse objeto droga nas três dimensões da economia psíquica do sujeito (Real, Simbólica e Imaginária); por que isso era importante para o sujeito; o que ele queria com isso… Foi assim que começamos a construir uma “clínica não segregativa com o sujeito dito (pelo Outro do social) toxicômano”.

Nessa época — eu vou dizer “o mundo de ontem” com uma formulazinha: o “i” grandão, o I maiúsculo, maior que o a minúsculo (I>a). Os “Ideais na cultura maiores que os objetos mais-de-gozar”. Isso, ontem. Então, toda clínica construída no tratamento do sujeito dito toxicômano, nomeado assim, porque consumia droga, teria que ser referida a essa estrutura de funcionamento do mundo, estrutura de funcionamento da cultura. Aí, tínhamos então que o sujeito podia, muitas vezes, passar ao ato de se drogar, e ele passava a se drogar com o objeto fora da lei. Chamávamos isso de uma “transgressão”. Era uma “passagem-ao-ato transgressiva”, nomeado, o sujeito, enquanto toxicômano. Começamos a pensar que deveríamos escutar o sujeito nessa passagem-ao-ato, em sua singularidade, um-a-um.

Introduzimos, então, no que foi possível, um deslocamento do problema, que estava no campo policial, primeiro para o campo médico, e depois para o campo, talvez eu deva chamar, da saúde mental. Porque não era a psiquiatria, a saúde mental não tinha essa força, era um trabalho praticamente isolado, iniciativa de alguns analistas, no caso, eu, Jésus Santiago e José Mário Simil Cordeiro, que fomos para construir esse serviço.

Abrimos espaço, então, para profissionais orientados analiticamente, com informação analítica, que estavam na experiência analítica enquanto analisantes e analistas em formação, para começar a escutar esses sujeitos, dentro de um determinado lugar, que viemos a chamar de Centro Mineiro de Toxicomania. Não sem antes passar como “pontos significantes” de um percurso, por uma instituição chamada de Centro de Recuperação Social, onde eles estavam colocados como delinquentes, no então depósito da Gameleira, como marginais. Depois, para Centro de Reintegração Social, e depois, Centro Mineiro de Toxicomania. Se nós prestarmos atenção a esses dois significantes, recuperação social e reintegração social, o sujeito estava colocado “fora”, ou seja, deveria reintegrar-se a um bom tipo de comportamento. Se nós pensarmos bem nesse primeiro momento, que era então encarcerar o toxicômano para proteger a sociedade, já operava um fundamento da lógica manicomial que é a “díade proteção-exclusão”: “Nós te internamos para te proteger, mas, ao mesmo tempo, te excluímos do laço social”. Esse é o principal fundamento da lógica manicomial.

É a esse fundamento manicomial que nós temos que estar atentos hoje. Fundamento que, politicamente, põe a ênfase, o acento, no objeto droga, o que leva a uma nomeação do sujeito generalizadamente, independentemente da singularidade, da subjetividade, das relações do sujeito do inconsciente com o mais-de-gozar, com o gozo, colocando a dimensão de uma díade da proteção-exclusão que nós devemos combater. Esse é o divisor de águas, é o ponto de combate: o princípio de tratamento centrado na abstinência do consumo com exclusão da subjetividade, da singularidade de cada usuário ou consumidor. O pressuposto oficial — a droga faz o toxicômano — que nos afirma imperativamente que se você usa a droga, você é toxicômano, e que todos que se drogam são toxicômanos, determina um “são todos iguais”, com uma homogeneização nominativa e um tratamento dos chamados toxicômanos numa clínica que chamamos de “segregativa”. Segregativa no sentido de que, a partir de um “nós”, todos são comandados por esse nome, excluindo a subjetividade. Vou colocar no quadro o que chamamos de segregação:

Discurso do Inconsciente

No lugar de S1, eu tenho um nome: toxicômano. Temos um: “Você é toxicômano!”, e isso comanda um S2, “saber fazer” do sujeito que consome a droga para sustentar essa nomeação vinda do Outro, do social (“Sim, eu sou toxicômano!”), para fazer gozar — lugar do mais-de-gozar essa nomeação enquanto produção nesse discurso, o discurso do inconsciente. No lugar da verdade, nesse discurso, enquanto verdade dessa lógica terapêutica, centrada no princípio da abstinência, nós temos a exclusão do sujeito do inconsciente. Então, é a exclusão da subjetividade inconsciente. Uma clínica que chamamos de segregativa. No discurso da segregação, temos a amputação do sujeito do inconsciente em suas relações com o mais-de-gozar. É o discurso do mestre amputado no lugar da verdade, transformando-se num discurso segregativo de três termos apenas:

Discurso da Segregação

Então, nós temos que estar atentos com o que, hoje, isso pode operar novamente, vamos dizer assim: todos os que usaram crack ou que usam crack são “crackeiros”. Eu acho que não é bem assim. Então, o sujeito está fora. Temos que introduzir o sujeito e enfrentar toda essa lógica do discurso oficial que diz que todos os que usam drogas são toxicômanos, e que a droga faz o toxicômano.

O que fizemos? Introduzimos a subversão dessa lógica com uma frase vinda de nosso colega e amigo francês Hugo Freda (na ocasião, Diretor do Centro de Acolhimento e Tratamento de Toxicômanos de Reims, França), que trouxemos a Belo Horizonte para fundarmos nosso serviço no campo ético do tratamento dos toxicômanos. Com as mesmas palavras, Hugo modificou essa frase: “O toxicômano faz a droga!”.

Se a droga faz o toxicômano”, Hugo Freda propôs que: “Para eu abrir uma porta, eu tenho que construir uma chave, e a minha chave é a seguinte: o toxicômano faz a droga”. São as mesmas palavras, as mesmas letras, só que a ênfase que era posta no objeto droga é posta, agora, no sujeito.

Introduz-se, então, o sujeito do inconsciente, lá onde não havia esse sujeito — ele estava excluído. Restitui-se ele ao lugar dele, e restitui-se o discurso que rompe com a segregação. Então, é a introdução do sujeito do inconsciente nas suas relações com o gozo. Dar a palavra ao sujeito para que ele venha a nos dizer o que ele, inconscientemente, quer com o consumo de drogas. O que ele quer com esse objeto e não o porquê do uso de drogas. Qual a importância desse objeto, qual o lugar desse objeto, qual a função desse objeto droga.

Nós introduzimos o sujeito, introduzimos a singularidade do sujeito, as particularidades das estruturas clínicas. Era assim na época, época de uma clínica psicanalítica estrutural, das estruturas clínicas — Neuroses, Psicoses e Perversões — característica do primeiro ensino de Lacan. Então, rompemos com o princípio de abstinência, porque nós percebíamos que, quando o sujeito parava de se drogar, em muitos deles, eclodia um quadro psicótico, desencadeava-se um quadro psicótico, o que já furava aquela lógica, permitindo-nos propor que: nem todos que se drogam são toxicômanos. Muitos que se drogam são psicóticos. Isso, centrado na escuta, nos sinais da forclusão do Nome-do-Pai, impedindo-nos de pensar a questão generalizadamente.

E havia outros que não aceitavam essa nomeação de toxicômanos. Eles não a aceitavam porque foram surpreendidos se drogando, que um outro, representante desse Outro do social, dissesse: “Você é toxicômano!”. Esses diziam: “Eu não sou toxicômano, eu uso droga quando vou a uma festa, quando vou sair com os amigos, recreativamente”. Uma posição de consumo de drogas com a droga posta como um S1 identificatório grupal, de enlaçamento social.

Então, distinguimos usuários de drogas, geralmente neuróticos, e os psicóticos que faziam desse uso de droga algo que viria a substituir a produção de um delírio, impedindo a produção desse delírio, como uma suplência imaginária a isso que Lacan chamou de forclusão do Nome-do-Pai. E existiam os outros que, de fato, não eram psicóticos, não eram neuróticos, e sustentavam essa modalidade de gozo, do consumo de drogas, com certa característica de ironia em relação à lei. Eles sempre transgrediam as normas da instituição; não se comportavam como os psicóticos, nem como os neuróticos. É aí, nesse ponto, que escutamos, um tempo depois, um texto de Jacques-Alain Miller“Algumas considerações sobre gozo auto-erótico” — em que ele introduz a dimensão de um gozo cínico na toxicomania, um gozo autoerótico, fazendo menção ao cinismo de Diógenes, o cínico. Cinismo com relação aos ideais da polis grega. Diógenes se masturbava em público, gozando, extraindo o gozo do próprio corpo, dispensando os significantes que vinham do Outro da cultura grega, do corpo de Ideais da polis grega. Então, a esse gozo, Miller chamou cínico. Isso nos ajudou muito clinicamente.

Então, vejam bem que, a partir desse momento, há um enriquecimento da clínica com o toxicômano, trabalhando um-a-um para saber o lugar e a função desse objeto droga para a economia psíquica do sujeito.

É verdade que, naquela época, e isso mudou também, as drogas eram quais? Optalidon, barbitúricos, analgésicos, maconha, os xaropes antitussígenos à base de codeína — que produziam os “boiadeiros”, assim chamados porque, após beberem um ou dois vidros desses xaropes, ficavam “pastando”, andando cambaleando, com alteração de consciência. Eram chamados de “boiadeiros” por eles mesmos. O curioso é que eles, às vezes, chegavam a ter convulsões tônico-clônicas que chamavam de “pala”. A “pala” era interpretada como um ponto de basta no consumo da droga, uma convulsão que fazia as vezes de “Um-Pai” interditor do excesso do mais-de-gozar. Era preciso atingir a “pala” para depois parar de se drogar. Havia ainda o tetracloroetileno (um vermífugo), a metaqualona (Mandrix e Mequalon, hipnóticos), o LSD e a cocaína. Essas eram as drogas de ontem.

Então, vejam bem que nós nos posicionamos aí com a ferramenta que temos: com o discurso analítico, a ética da psicanálise enquanto bem-dizer e um combate à clínica oficial segregativa. Tínhamos para nós o seguinte: há casos que não conseguimos tratar sem uma parceria institucional, o que justificava a instituição para tratamento dos toxicômanos. E nós dizíamos que a instituição elimina, forclui, não deixa que o discurso analítico seja incluído entre os discursos que estruturam o lugar terapêutico que é a instituição. A instituição é o lugar dos quatro discursos formalizados por Lacan (mestre, histérico, universitário e analítico).

Então, deve haver o analítico. Isso fundou de alguma maneira essa nossa instituição, que não trabalhava com internação. Tinha o hospital-dia e o ambulatório. Era assim que dirigíamos os tratamentos nesses espaços institucionais.

Então, nós dissemos: Centro Mineiro de Toxicomania. Toxicomania aí não é nada mais, nada menos, que um significante que utilizamos estrategicamente para justificar a instituição e trazer os toxicômanos a ela, a partir dessa nomeação “toxicômanos”. Fazendo um semblante de que estávamos preocupados com o objeto droga, mas a preocupação era mais além do objeto droga, era com o sujeito do inconsciente em suas relações com o mais-de-gozar.

E qual era a política? Dar a palavra ao sujeito da fala e estabelecer uma clínica sob transferência, um-a-um nesse tratamento. Tratava-se de estabelecer, entre os princípios de cura, na clínica dos toxicômanos, princípios fundamentais para uma clínica não segregativa, fora da lógica manicomial, fora da díade da proteção-exclusão do laço social, fora do princípio da abstinência, que se aplica a um “universal” de que “a droga faz o toxicômano”, e como o DSM-IV, que coloca o todos iguais enquanto “dependentes químicos”.

Os princípios eram: “O toxicômano faz a droga”.

1- Introdução do sujeito do inconsciente.

2- Introdução de uma clínica sob transferência.

3- Nem todos que se drogam são toxicômanos verdadeiros.

4- Questão da singularidade de cada um em questão.

5- A Instituição enquanto lugar terapêutico.

6- A Instituição enquanto lugar dos quatro discursos tem que incluir o discurso do analista.

Isso ontem.

O que ocorre hoje? Hoje, há uma mudança radical: os objetos mais-de-gozar maiores do que os ideais (I<a). As palavras de ordem, medidas socioeducativas, etc… Então, nós temos a maior que I.

Hoje, podemos dizer de uma outra forma: “Todos toxicômanos!” Todos consumistas, consumidores, não somente dessas drogas ditas ilícitas, foras da lei, mas as drogas legalizadas que todo mundo, praticamente, consome.

Eu gostei muito de um texto que chegou a partir do Fórum de Saúde Mental para eu ler, que se chama “A Doença Mental Medicalizada” (in Revista Piauí, n.59). Eu recomendo a leitura desse texto para todo mundo psi. Impressionante esse texto. É um tema que me interessa muito, e aí podemos observar, escutar, como o discurso da ciência via indústria farmacêutica constrói, fabrica, o “todo mundo se drogando”.

Então, o mundo mudou! Aí é que entra a questão de que essa mudança implica a mudança do mestre de ontem para o mestre de hoje. Se o mestre de ontem era o discurso do mestre, discurso do inconsciente, hoje, nós temos o mestre contemporâneo, o discurso capitalista, em que há um declínio dos significantes dos Ideais na cultura. Assim, o S1 cai, o sujeito sobe, e aqui nós temos o saber da ciência produzindo objetos mais-de-gozar.

Discurso Capitalista

O discurso da ciência, inerente ao discurso capitalista, é responsável, então, pela produção dos gadgets, das drogas supostamente terapêuticas, e por esse consumo impressionante de drogas, de químicas, de ascensão do saber químico ao comando, colocando os consumidores como objetos comandados por esse saber químico.

Então, o que ocorre, hoje, como essa mudança e as mudanças na sociedade?

De repente, aparece uma população à margem dos laços sociais, à margem do sistema de produção e que consome uma substância quase que de forma epidêmica, que coloca a dimensão do sujeito como resto, dejeto, dentro dessa sociedade de hoje, resto social, resto dessa produção, desse discurso, simples objetos degradados e que colocam uma dimensão de passagem ao ato diferente daquela que presenciamos ontem.

E é aí que a coisa é preocupante. E é por isso que estamos aqui reunidos.

Como fazer com isso? Porque é a preponderância da passagem-ao-ato homicida, não é mais uma passagem ao ato transgressiva, no sentido de se conseguir algo do qual se podia gozar mais além do interdito da lei. É uma passagem-ao-ato homicida, uma associação com o tráfico que tem um poder econômico muito forte e coloca a dimensão de uma periculosidade social epidêmica. Então, nós vivemos numa dimensão de risco o tempo todo… de bala perdida, de gente matando, criança morrendo, sendo assassinada, e não temos muita solução até o momento.

Eu li aquela revista Brasileiros, em que tem um colega, Antônio Lancetti, eu não o conheço, dizendo da passagem do basagliano Franco Rotelli por São Paulo. Quando eles foram visitar a Cracolândia, ele falou: “Isso é um manicômio a céu aberto!” É uma expressão importante, mas será que a saída seria um manicômio a céu fechado? Não creio, porque aí entrariam todos dentro dessa lógica, nós retrocederíamos e perderíamos muito daquilo que conseguimos fazer a partir de 79. Foi a reforma psiquiátrica. Mesmo que tenhamos muitas dificuldades, há muitos avanços. Seria, então, algo da ordem de um retrocesso.

Dever-se-ia pensar uma nova modalidade de lidar com essas novas toxicomanias, diferente da do mundo de ontem. E o crack é o representante maior. Nós temos, hoje, drogas diferentes, com o discurso da ciência produzindo o ecstasy, skank, óxi, etc… são drogas completamente violentas, que colocam o sujeito numa alienação, numa posição de objeto, resto degradado, lixo da sociedade, que quando sai dessa dimensão, é sob a forma de uma passagem-ao-ato homicida, como se fossem delinquentes, mas então vamos retroceder. Esse é um problema que nós temos que pensar: como construir soluções novas, contemporâneas.

Então o que temos a pensar? Se a instituição mais adequada ontem era a instituição enquanto lugar terapêutico, lugar dos quatro discursos, fora da díade da lógica manicomial proteção-exclusão, como pensar uma instituição hoje que considere o discurso analítico como algo muito importante, para zelar por essa não exclusão do sujeito, para zelar por essa não segregação, sabendo que existe mais um discurso dentro de qualquer instituição que venha a ser fundada hoje, que é o discurso capitalista?

Vai ser ele que vai fundar. Então, nós teríamos que fazer parceria sim, discurso do analista com o discurso do mestre, discurso do estado, discurso externo, discurso de instituição de saúde mental, sabendo que, na verdade, nós temos algo coletivamente, chamado o coletivo desses, o conjunto desses quatro discursos para combater um que é o discurso capitalista, senão nós vamos ter instituições capitalistas malucas e não vamos poder fazer quase nada. O motor desse discurso é o discurso da ciência, vamos dizer assim, da ciência e tecnologia, e não vai ser difícil pensar que nós teremos futuras instituições, manicômios a céu fechado, para tratamento dos “crackeiros”, com drogas, com substâncias, porque tudo vai ser pensado no nível do cérebro. Então, para tratar o consumo de droga, nós vamos fazer outro consumo de droga para tratar esse tipo de sujeito, excluindo de novo a dimensão da subjetividade, da singularidade, do um-a-um, do caso a caso.

Evidentemente, há situações em que o sujeito está à beira da morte; há situações dramáticas, quando devemos colocá-lo numa clínica, pelo menos durante uma semana, para que ele se recupere, se alimente, se hidrate, para depois seguir um tratamento.

Bom, eu estava dizendo desse quadro dramático, que o crack preocupa mesmo. Ontem, eu vi um desses jornais, Aqui, esses que “têm sangue”, esses tabloidezinhos, e vi uma coisa impressionante: aparece uma foto de dois pés do sujeito com sapato, acorrentado. A mãe desesperada, não sabia mais o que fazer. Eu entendi assim, que ele foi pego pelo pé, amarrado ali, para que o sujeito não saísse. “Única maneira que eu tive foi amarrar os pés dele para ele não sair para a rua, não roubar as coisas, não vender isso, não se drogar, porque eu tenho que trabalhar para sustentar meus filhos”, disse a mãe.

Então, nós temos situações que chegam a esse nível dramático e violento, do sujeito correndo risco de vida, de matar ou de morrer. Bom, minha opinião é a de que qualquer tentativa de se construir algo que não seja simplesmente dar a palavra, e que tenhamos que proteger o indivíduo e resgatar ali o sujeito, não deve passar pela exclusão social.

Como pensar algum lugar terapêutico? Primeiro: é hora de somar os esforços — que inclua decididamente os analistas, o pessoal da saúde mental, as equipes multidisciplinares para combater esse mestre contemporâneo que vem ditando todas as normas baseadas no “Deus cérebro” para tratar tudo.

Eu fico por aqui.

Obrigado!

[1] Intervenção pronunciada na VII Conversação da Seção Clínica do IPSMMG, realizada em 10/09/2011. Texto estabelecido por Ana Elisa Maciel, revisado por Márcia Mezêncio e pelo autor.

Antonio Beneti

Psiquiatra e psicanalista, Analista Membro da Escola (A.M.E.) da EBP-CF /AMP – Escola Brasileira de Psicanálise do Campo Freudiano / Associação Mundial de Psicanálise. E-mail: aabenetti.bhz@gmail.com

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