Almanaque No 16

Almanaque on-line entrevista

Fernanda Freitas, Vinicius Viana, Jaqueline Luiza

Entrevista com jovens estudantes

“A rua é nossa, e eu sempre fui dela”

manifesta 2

No final do ano de 2015, alunos das escolas estaduais de segundo grau do Estado de São Paulo iniciaram um movimento contra a reorganização da rede de ensino estadual, feita de forma autoritária pelo governo paulista, que pretendia fechar 93 unidades de ensino escolar.

Segundo o governo de São Paulo, um dos objetivos é separar as escolas para que cada unidade passe a oferecer apenas aulas de um dos ciclos da educação (ensino fundamental 1, ensino fundamental 2 ou ensino médio) a partir do ano de 2016.

A oposição à proposta do governo paulista mobilizou os jovens secundaristas, que se organizaram para buscar soluções. Inicialmente, os estudantes procuraram o diálogo com as autoridades estaduais. Sem obter resultado, os jovens iniciaram uma jornada de lutas, que incluíram passeatas, resistência à violência policial, ocupação de cerca de 190 escolas e outras formas criativas de atuação política.

O movimento recebeu amplo apoio da sociedade, tendo à frente outros estudantes de todos os níveis de vários estados brasileiros, intelectuais, artistas de todas as áreas da cultura, lideranças religiosas, movimentos sociais, jornalistas independentes, etc.

A explosão dos adolescentes paulistas pegou de surpresa todo o país, pois o cenário aparente indicava forte apatia política da juventude ou adesão às visões individualistas do mundo. O radar social não apontava nenhuma possibilidade de um movimento de massas movido pela solidariedade na cidade mais rica e com maior centro de consumo da América Latina.

O movimento secundarista apresentou sinais contrários aos da leitura convencional. Os jovens revelam que têm opiniões diferentes, muita vontade de se fazer ouvidos e pretendem fazer valer seus desejos e direitos, entre eles, o de estudar. Ao se posicionarem como “senhores” de suas escolhas, eles acabam por despertar muitos de sonhos adormecidos.

O Almanaque entrevistou, via WhatsApp (o canal de comunicação da juventude), algumas lideranças dos secundaristas paulistas que participaram do movimento que atraiu atenção mundial. O objetivo das conversas com esses jovens foi apostar que eles podem transmitir à sociedade uma forma particular (deles) de “se virar” com a violência e verificar como é possível construir soluções que indicam um novo modo de fazer política, que abre mão, inclusive, dos grandes lideres.

 

 

Qual é a história do movimento, de onde ele parte?

 

Fernanda Freitas, 17 anos. Escola Estadual Diadema (Primeira a ser ocupada).

ULTIMO DIA OCUPACAO

A história surge por conta do projeto de reorganização escolar, que previa fechar 94 escolas, além de demitir professores e fechar também períodos. Recebemos a noticia em setembro e, desde então, nossa mobilização começou a fim de barrar a reestruturação.

Vinicius Viana, 18 anos, Sorocaba. Conclui ensino médio na Escola Técnica Rubens de Faria e Souza e é diretor do Grêmio da União Sorocabana dos Estudantes Secundaristas.

para entrevista

O movimento secundarista sempre esteve ativo, sempre foi uma luta intensa dos estudantes, e a UBES mostra isso com toda sua jornada de mais de 70 anos de história… Soubemos da reorganização e logo começamos a fazer nossos atos contra esse tipo de atitude autoritária, vinda do governo estadual de São Paulo.  As ocupações em Sorocaba começaram em novembro, na escola Lauro Sanchez, a primeira ocupada na cidade. As ocupações partiram dos estudantes, com apoio da USES (União Sorocabana dos Estudantes Secundaristas), entidade de representação máxima dos estudantes secundaristas de Sorocaba. Como o MC Guimé já diz em uma de suas músicas, “a rua é nossa, e eu sempre fui dela”.         O movimento estudantil sempre ocupou as praças e ruas, e, dessa vez, mostramos coragem ocupando as escolas.

Jaqueline Luiza dos Santos, 17 anos, ex-aluna do terceiro ano da Escola Ezequiel Machado Nascimento, cursa hoje a Faculdade de Sorocaba

jaqueline 2

O movimento secundarista que ocorreu em São Paulo em novembro e dezembro de 2015 foi basicamente criado pela revolta dos estudantes de todas as escolas públicas de São Paulo. Em relação à reorganização mais “desorganizada” que já vimos, o governador Geraldo Alkmin mexeu numa ferida séria ao tomar tamanha decisão de uma forma nada democrática, e fez com que os estudantes se rebelassem contra isso, unindo forças para barrar a reorganização e mostrar para a sociedade que o movimento só estava adormecido.

 

Como o movimento se organiza e se sustenta/mantém? (como escolheram as lideranças, como elaboraram cartilhas, como convocam reuniões, qual a importância dos meio digitais)

Fernanda – Durante o processo de mobilização contra a reorganização, sentimos a natural necessidade de nos unir. Dessa forma surgiu o Comando das Escolas em Luta, que consiste em um grupo autônomo de estudantes, e surgiu no período de ocupações que vem nos ajudando para que a ideia de luta seja unificada.

Esse grupo Comando das Escolas em luta é forma do por quem? Quem formou? Como foi escolhido? Quem faz parte dele? Pois você disse que fazem parte dele, então entendo que é um grupo à parte

Dentro de nosso movimento não há lideranças, definitivamente. Aliás, isso foi algo que, durante o processo, prezamos sempre em ressaltar. O que aconteceu foi que, divididas as funções, alguns ficaram responsáveis por conversar com a mídia e, devido a isso, ficaram mais expostos, o que pode ter dado a entender que lideravam o grupo, mas isso não acontece, não temos hierarquia. Ainda não temos cartilha do próprio Comando (Comando das Escolas em Luta), mas é uma ideia futura. Convocamos reuniões mensais pela nossa página do Facebook, que carrega o mesmo nome, e lá divulgamos o evento, para que possa alcançar mais estudantes. Local e horário das reuniões são sempre decididos na reunião anterior, e assim seguimos. O meio digital nos ajuda a alcançar pessoas distantes e a propagar notícias; tem ajudado muito.

Vinicius – Aqui em Sorocaba conseguimos mandar alguns alunos ocupados para as assembleias gerais de São Paulo, mas fizemos muitas reuniões com os ocupantes aqui em Sorocaba mesmo.

A adesão tão grande dos estudantes é um reflexo da insatisfação com o governo do PSDB, da insatisfação com o sucateamento da educação.

Jacqueline – O movimento é muito bem organizado, eu diria. As lideranças são escolhidas de forma democrática e bem pensadas, as cartilhas sempre são criadas por pessoas envolvidas que têm experiência com Photoshop e programas de edição, sempre procurando atingir o publico alvo, que, no caso, seriam os estudantes.      As reuniões sempre são convocadas pelas bancada do movimento, ou seja, presidentes, secretários, etc. E o meio digital é extremamente importante, pois a juventude atual está sempre conectada nas redes, como Twiter, Facebook e diversas outras redes sociais. Sendo assim, a importância é enorme, pois lá podemos dar mais visibilidade ao movimento.

O que significa o ato de ocupar as escolas, as ruas?

Fernanda – Acredito que, quando ultrapassarmos as linhas de nossas casas e o conforto todo, mostramos que nos importamos com a causa e queremos ver mudanças. Claro que eu não gostaria que fosse necessário ir às ruas para protestar por algo que é nosso por direito, mas como infelizmente temos que fazer, acho justo.

Vinicius – Ocupar os espaços públicos é um dever de toda sociedade, seja por mais cultura, educação… O movimento sempre buscou por educação, tivemos conquistas recentes muito importantes, como a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), com 10% do PIB e 75% dos royalties do pré-sal destinados à educação.

Jacqueline – Para mim, o ato de ocupar ruas e escolas significa mostrar a força da juventude e a revolta com diversas decisões tomadas de formas nada democráticas. Também significa unificar cada vez mais pessoas que cultivam o mesmo pensamento, o mesmo sentimento de revolução e de não comodismo com a situação atual de nossa educação, saúde, etc. Vai muito além de apenas sair e fazer barulho, como uma parte da sociedade infelizmente vê. Nós estamos atrás de mudanças, focando na melhoria e no bem-estar de toda a sociedade.

 

O que pretende o movimento e o que conquistou?

Fernanda – O movimento, desde o ano passado, tem conseguido alcançar muitos estudantes. Revertemos o processo de reorganização, mesmo que temporariamente, e agora nosso objetivo é continuar a formação do “Comando das escolas em luta”; lutar dentro das escolas, como grêmios, e relatar nossa luta nas outras escolas, a fim de incentivar mais jovens para a luta. Estamos também estudando a corrupção que está envolvendo as merendas. Portanto, este ano vai ser de muita luta.

Vinicius – No ano passado tivemos, talvez, uma das maiores vitórias, que foi barrar a reorganização. Conseguimos fazer com que ela não fosse realizada de imediato e que tivéssemos mais um ano para “dialogar”, como o próprio governador disse.

Queremos uma escola livre de opressões, com mais cultura, democracia, esportes, eleições diretas para diretor; queremos uma escola com a cara da juventude, que não sirva apenas para nos transformar em massa de manobra; queremos que a escola forme seres humanos pensantes e críticos, que saibam os seus direitos.

Jacqueline – O movimento pretende crescer cada vez mais e mostrar para a juventude que podemos sim fazer a diferença se nos unirmos. A conquista com as ocupações de dezembro foi incrível e emocionante, pois além de barrarmos o tamanho retrocesso que seria a reorganização, nós derrubamos o Secretário da Educação, Herman Voorwald. Em Sorocaba, também conquistamos a primeira Diretoria de Ensino ocupada no Brasil, trazendo assim ainda mais força para o movimento e para as ocupações.

 O que está por vir?

Vinicius – A nossa luta é diária, é passando de sala em sala, nos reunindo em praças, convocando assembleias com os estudantes e usando das redes sociais (como a página da USES no Facebook) para alertar e conscientizar a população.

Jacqueline – Esperamos que em 2016 possamos abrir esse canal de diálogo com o governador e que o que ele falou seja de fato cumprido, para que os estudantes, pais, professores e toda a comunidade possam dizer o tipo de reorganização que querem, para criar, de forma democrática, um projeto. Os estudantes não vão aceitar atitudes ditatoriais. Nós sabemos o que queremos, e o primeiro passo é sermos ouvidos. Não vamos calar nossa voz.

Muita coisa ainda está por vir, mas isso todo mundo verá futuramente. Posso te garantir que o movimento cresce cada dia mais.

 

Para além de barrar os abusos de poder e da burocracia governamental, quais as propostas do movimento para a educação no Brasil?

Fernanda – As nossas propostas são muito amplas, na verdade. No geral, queremos uma escola com o sistema diferente, mudar a educação de dentro para fora, por isso vamos lutar, unidos, em cada escola. Queremos que mais recursos sejam investidos na educação, professores mais bem pagos e menos alunos por sala. Uma democracia maior dentro das escolas, a participação ativa de alunos e de pais. E estaremos lutando aos poucos por cada causa. Um processo longo e demorado, mas do qual veremos resultados positivos em breve.

Jacqueline – As propostas são bem abrangentes, desde melhorias na educação em sala até melhorias no formato de ensino da rede pública. Queremos trazer maior diversidade de esportes para dentro das escolas e a discussão da diversidade de gênero, que já devia estar sendo discutida em sala há muito tempo. Tudo o que mais desejamos é deixar a escola com “a cara” do estudante, um lugar agradável para se estudar e aprender.

 

O que fez tantos jovens aderirem ao movimento?

Fernanda – Não é difícil entender a mobilização de tantos jovens desde o ano passado. O projeto de reorganização queria fechar nossas escolas, ótimas escolas, aliás, e a ameaça real motivou a luta de cada aluno. Perder além da escola, mas a chance de ver mais estudantes estudando nelas nos deu vontade de lutar cada vez mais. Muitas pessoas sairiam prejudicadas. Somos jovens diferentes, orientação sexual diferente, de cores diferentes e vidas diferentes também, mas nos unimos pela mesma causa, causa que fez esquecermos as diferenças e lutar contra o governo.

Jacqueline – Como eu havia citado acima, o que fez esses jovens aderirem ao movimento foi a revolta e a falta de voz dentro de suas escolas, dentro da sociedade, dentro do padrão em que vivemos hoje.

 

Quem são esses jovens?

Jacqueline – Esses jovens são nada mais nada menos que estudantes que achavam que não tinham voz influente nenhuma em seu meio estudantil, mas nós tratamos de mostrar para eles que eu, todos eles, temos voz SIM, e somos capazes de fazer a mudança em união.

 

Qual é a sua história nesse movimento? Como se envolveu? O que faz hoje nas ocupações? Qual a importância dele para você?

Fernanda – Minha experiência como militante começou ano passado mesmo. Eu já havia apoiado a greve dos professores, mas pude participar mais ativamente dessa luta contra a reorganização. Desde o início, quando havíamos recebido a notícia do projeto, eu já me reuni com alguns estudantes da minha escola e pensamos em o que fazer para não deixar nosso ensino médio fechar (melhor ensino médio da cidade de Diadema). Primeiro, começamos organizando pequenos atos no centro da cidade para chamar a população para essa causa, depois seguimos até a Câmara dos Vereadores de Diadema, onde pedimos o espaço para participar de uma plenária. Chegando à plenária, conseguimos o apoio dos vereadores para que eles nos representassem futuramente. Não dando resultado, pensamos em fazer um abaixo-assinado. Com muita luta, conseguimos 10 mil assinaturas contra a reorganização em Diadema. Fizemos também o abaixo assinado on-line e conseguimos quase quatro mil. Levamos essas assinaturas até a ALESP (Assembleia Legislativa de São Paulo), na última audiência que teve sobre o assunto, e conseguimos entregar nas mãos do secretário Herman (secretario de educação naquele período). Ele assinou, mas também não obtivemos resposta. Passados quase dois meses de protestos e idas à Vara da Infância e Juventude estudando o caso, vimos que nada tinha dado resultado. Daí que surgiu a ideia da ocupação. Então, minha participação vem de muito antes, tenho lutado contra esse projeto antes das ocupações. Algumas pessoas não sabiam que, antes de ocuparmos, havíamos lutado de outras formas.

Posso dizer que esse processo me fez crescer muito como pessoa, eu amadureci e aprendi muito, me sinto mais politizada e mais humana, entendo causas como o feminismo graças a várias conversas e atividades culturais que tivemos sobre isso dentro das ocupações. Submeter-me a riscos e encarar com toda a seriedade me fez perceber que não podemos julgar ninguém pela idade. Eu tive que ter muita responsabilidade, era porta-voz e mídia dentro da minha ocupação, então não podia brincar com isso, o que me fez ter ainda mais compromisso com a causa. O amadurecimento foi inevitável, carrego as lembranças e a luta eternamente. Esse fato histórico mudou minha vida.

Vinicius – Minha história no movimento estudantil completa dois anos. Conheci o movimento no Congresso da União Paulista dos Estudantes Secundaristas em 2014, e desde então venho lutando por uma nova educação. O que mais me motiva é saber que há tantas pessoas indignadas com as mesmas coisas que eu, que anseiam por uma sociedade justa, onde o professor seja valorizado e que os resquícios da ditadura militar sejam deixados para trás. Onde o estudante não leve bala de borracha ou gás lacrimogênio, onde a juventude negra e periférica possa viver sem medo da PM, possa usufruir dos espaços de sua cidade. As ocupações surgiram como algo novo para a grande maioria das pessoas que, independente da participação ou não do movimento, nunca tinham vivenciado algo do tipo.

Jacqueline – Eu nunca havia participado de nenhum movimento estudantil, me envolvi profundamente no movimento durante as ocupações, me interessei e quis fazer parte cada dia mais. A importância é extrema. Eu me sinto em casa quando estou com o pessoal do movimento estudantil e com todas as pessoas que ocuparam comigo; somos uma família. E minha vida teve diversas mudanças desde então. Tenho uma visão mais ampla de tudo: política, gênero, cultura, tudo ficou muito mais claro e nítido desde então, e eu nunca me senti tão feliz e realizada na minha vida. Meu lugar é dentro do movimento, lutando por educação, lutando pelos jovens, lutando pela união.

Almanaque Online © 2006-2019