Almanaque No 10

Apontamentos acerca da transferência

Alex Keine de Almeida Sebastião

A transferência foi tomada por Lacan como um dos conceitos fundamentais da psicanálise. Enquanto a importância da transferência sempre foi reconhecida ao longo da história da psicanálise, seu significado foi objeto de controvérsias entre linhas teóricas diversas. Há autores que defendem um conceito restrito de transferência, enquanto outros tendem a fazê-la coincidir com o próprio tratamento psicanalítico. Um repertório das teorias da transferência formuladas a partir da obra de Freud pode ser encontrado em “Le problème du transfert” (1952/1975), de Daniel Lagache. Lacan observa que o referido trabalho evidencia a parcialidade dos debates em torno da transferência, bem como a predominância de sua abordagem mais discutível, em que é tomada como “a sucessão ou a soma dos sentimentos positivos ou negativos que o paciente vota a seu analista” (LACAN, 1958/1998, p.608).

É de se observar, entretanto, que não se trata exclusivamente de construir um conceito teórico da transferência, mas também de delinear o seu manejo. Na verdade, o “manejo da transferência é idêntico à noção dela” (LACAN, 1958/1998, p.609). Ou seja, sustentar uma determinada noção de transferência implica já o modo de manejá-la, revelando um posicionamento do analista frente à prática da psicanálise. Se a psicanálise é marcada por uma relação de mão dupla entre teoria e prática, isso se torna muito mais evidente no que concerne ao conceito de transferência. Como nota Lacan, “este conceito é determinado pela função que tem numa práxis. Este conceito dirige o modo de tratar os pacientes. Inversamente, o modo de tratá-los comanda o conceito” (LACAN, 1964/1998, p.120).

Para Lacan, “a transferência é um fenômeno em que estão incluídos, juntos, o sujeito e o psicanalista”. Por consequência, não faria sentido distinguir a transferência, atribuída ao analisante, e a contratransferência, atribuída ao analista. Nesse sentido, “aquilo que se nos apresenta […] como contratransferência, normal ou não, não tem, realmente, qualquer razão de ser especialmente qualificada como tal. Trata-se aí apenas de um efeito irredutível da situação de transferência, simplesmente, por si mesma” (LACAN, 1961/1992, p.194).

Dizer que a transferência inclui tanto o sujeito quanto o analista não implica que eles aí estejam incluídos do mesmo modo. A assimetria se faz evidente. Lacan utiliza a expressão “disparidade subjetiva” e esclarece: “entendo com isso que a posição dos dois sujeitos em presença não é de modo algum equivalente” (LACAN, 1961/1992, p.197). Ainda assim, a transferência se estabelece a partir do encontro do desejo do sujeito em análise com o desejo do analista. Na base da transferência, Lacan aponta para o desejo do analista. A presença fundamental do desejo do analista na transferência se faz sob duas perspectivas. Da perspectiva do próprio analista, o que se chama desejo do analista é algo que se produziu nele a partir da experiência de seu próprio inconsciente, como resultado de “uma mutação na economia de seu desejo” (LACAN, 1961/1992, p.187). O analista é “possuído por um desejo mais forte que os desejos que poderiam estar em causa, a saber, de chegar às vias de fato com seu paciente, de tomá-lo nos braços ou atirá-lo pela janela” (LACAN, 1961/1992, p.187). Da perspectiva do analisante, o desejo do analista aparece como o desejo do Outro, sob o modo da interrogação “O que ele quer?”. As duas perspectivas estão diretamente conectadas, visto que a presença do desejo do analista como resultado de sua própria análise é condição indispensável para que o analisante possa interrogar-se sobre o que quer o analista, ou seja, sobre o desejo do Outro.

A análise busca permitir a emergência do desejo do sujeito. Considerando que “o desejo do homem é o desejo do Outro” (LACAN, 1964/1998, p.223), o analisante deverá passar pela questão do desejo do Outro, enquanto condição constitutiva de seu próprio desejo. A assunção pelo analista do lugar desse Outro requer que ele seja capaz de deixar fora da cena seu desejo enquanto sujeito, criando uma certa vacância nesse lugar e remetendo o analisante a seu próprio desejo. É justamente o desejo do analista que permite essa operação.

Uma importante contribuição lacaniana ao conceito de transferência é a noção de sujeito suposto saber. Segundo Lacan: “A transferência é impensável, a não ser tomando-se partida do sujeito suposto saber” (LACAN, 1964/1998, p.239). Além do laço propriamente libidinal que envolve analisante e analista, há um laço epistêmico que marca a relação entre eles. Ao lado da questão “o que ele quer?”, estaria a convicção “ele sabe”, em que ao analista seria atribuído pelo analisante o papel de sujeito suposto saber. O que ele seria suposto saber? Segundo Lacan, “pura e simplesmente, a significação”. Qual significação? A significação da fala, dos sintomas, enfim, do próprio ser do analisante.

Como nota Jacques-Alain Miller, “o sujeito suposto saber só intervém na teoria de Lacan em uma data relativamente tardia, pelos anos de 1964-1965” (MILLER, 1984a/1999, p.56). Ele destaca que Lacan atribuía ao sujeito suposto saber o papel de pivô da transferência. Sobre o sentido comumente dado à expressão, Miller afirma: “Pensou-se que o analisante começa supondo que o analista está de posse do saber que lhe concerne, e progressivamente descobre que não é assim, mas que a análise se estabelece sobre a base dessa suposição” (MILLER, 1984a/1999, p.56-57). Mas, na verdade, não é bem isso, aponta Miller:

“Sujeito suposto saber não é de modo algum, como se imagina, que o psicanalisante, aquele que vem pedir uma psicanálise, imagine que o psicanalista sabe tudo. […] Pode até desconfiar de seu psicanalista e, em vez de supô-lo tão sábio, colocar sua capacidade em dúvida” (MILLER, 1984a/1999, p.69).

Na origem do sujeito suposto saber, está o convite que se faz ao paciente para dizer tudo o que lhe vem à mente, o convite a se entregar à associação livre. Seria algo que se liga menos à pessoa do analista e mais ao dispositivo do tratamento. Isso que se diz sempre quer dizer alguma coisa, mesmo que não saibamos o quê.

Por outro lado, o próprio analista faz parte do dispositivo do tratamento, e ele o faz, oferecendo-se para ocupar o lugar de sujeito suposto saber. A suposição do saber no analista só ocorre na medida em que o analisante está em busca da verdade sobre si mesmo, sobre seu desejo. Como observa Miller,

“[…] o ouvinte, sua resposta, seu aval, sua interpretação decidem o sentido do que é dito e, ainda mais […], a própria identidade de quem fala. A esse respeito, existe o que Lacan não vacila em chamar de um poder, o poder do analista sobre o sentido” (MILLER, 1984b/1999, p.73).

Esse poder invoca uma responsabilidade correlata do analista que é a de se pautar pelo silêncio e de não se “precipitar a satisfazer a demanda do paciente, que é a demanda de: quem sou? qual é meu desejo? que quero de verdade?” (MILLER, 1984b/1999, p.73).

Importante destacar que oferecer-se para ocupar o lugar de sujeito suposto saber não é o mesmo que identificar-se com esse lugar. A análise progressiva da transferência deve desembocar na descoberta do que Lacan designa no título mesmo de um de seus escritos: “O engano do sujeito suposto saber” (1967/2003). É então fundamental a presença do desejo do analista, na medida em que ele é desejo de “não se identificar com o Outro, de respeitar o que Freud em sua linguagem chama de individualidade do paciente, não ser um ideal, um modelo, um educador, e sim deixar espaço para a emergência do desejo do paciente” (MILLER, 1984b/1999, p.89).

É comum haver no decurso de uma análise variações na economia da transferência tomada em seus dois vieses: o libidinal e o epistêmico. Em primeiro plano, está ora o analista como sujeito suposto saber, ora o analista como objeto libidinal. Na prática, o analista é um só, mas, dependendo do analisante e do momento que ele vive, a combinação entre a busca de amor e a busca de saber se apresentará de modo distinto. Miller aponta para uma variação no ensino de Lacan no que concerne a essa questão. Se, inicialmente, tinha-se o sujeito suposto saber como pivô da transferência, no último Lacan, tem-se a transferência como pivô do sujeito suposto saber, ou seja, “o que faz existir o inconsciente como saber é o amor” (MILLER, 2005, p.18). Em outras palavras, sem o investimento libidinal do analista pelo analisante, não se pode falar em transferência, tampouco se pode produzir a suposição de saber.

Há análises em que, já de início, observa-se uma emergência da transferência em seu viés epistêmico. A inflação do sujeito suposto saber corresponde a uma preeminência da interpretação e da busca pelo sentido como sendo a chave que permitirá o acesso do sujeito à sua verdade mais íntima, ao seu desejo. É como se ali se tratasse somente de uma decifração ou de uma pesquisa cujo termo garantiria a conquista da verdade do sujeito e a solução de seus sintomas. Com o decurso do tratamento, por vezes, ocorre uma deflação do sentido e surge a possibilidade de se reservar um lugar para o sem sentido ou para algo que não se sabe, nem se saberá. Tem-se, então, o reconhecimento de um papel maior à transferência em seu viés libidinal. É porque o analisante investe o analista como objeto libidinal que seu inconsciente se atualiza ali, na sessão de análise. E ainda que o significado de muita coisa possa escapar a ambos, essa atualização do inconsciente e o tratamento que lhe é dado pelo analista geram efeitos.

Pode-se traçar um paralelo entre essas análises em que a busca pelo significado assume inicialmente um papel predominante e a evolução da técnica psicanalítica, descrita por Freud, no Capítulo III de “Além do princípio de prazer”. Inicialmente, a psicanálise era, sobretudo, uma arte interpretativa. Visava-se a descobrir representações inconscientes e torná-las conscientes. Visto que, em muitos casos, isso era insuficiente para produzir a cura, a análise passou a cuidar não só da rememoração, mas também da repetição do material reprimido. O trabalho do analista envolve não só buscar o sentido oculto na fala do analisante, mas também manejar a neurose de transferência e a atuação do analisante, tomado pela compulsão à repetição. Na verdade, desde o relato do tratamento de Anna O. por Breuer, sabemos que o desafio maior que se apresenta ao analista não está no trabalho interpretativo, e sim no manejo da transferência como investimento libidinal do analista pelo analisante. Mais do que escutar, o analista deve estar preparado para suportar ser objeto do amor e do ódio que lhe poderá dirigir o analisante. É somente o percurso efetuado em sua análise pessoal que possibilitará ao analista não se precipitar nos desfiladeiros da transferência, manejando-a de modo a fazer o analisante deparar-se com a questão em jogo no seu desejo.

Referências bibliográficas:

LACAN, Jacques. (1958) “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. p.591-652.

______. (1961) O Seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

______. (1964) O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

______. (1967) “O engano do sujeito suposto saber”, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p.329-340.

LAGACHE, Daniel. (1952) La teoria de la transferencia. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 1975.

MILLER, Jacques-Alain. (1984a) “A transferência de Freud a Lacan”, In: Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. p.55-71.

______. (1984b) “A transferência: o sujeito suposto saber”, In: Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. p.72-89.

______. “Uma fantasia”, Opção Lacaniana, São Paulo: Eólia, n.42, 2005, p.7-18.

i Este trabalho começou a ser produzido ao término da Unidade I – O tratamento psicanalítico – do Curso de Psicanálise do IPSM-MG, ministrada por Helenice de Castro e Lilany Pacheco, no segundo semestre de 2010. Agradeço a Sérgio Laia pela orientação.

Alex Keine de Almeida Sebastião

Mestre em Filosofia, aluno do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais. E-mail: keine74@uol.com.br.

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