Almanaque No 11

As saídas do tratamento nos CAPS ad

Maria Wilma S. de Faria e Ana Regina Machado

Considerações iniciais

As saídas do tratamento no Centro de Atenção Psicossocial Álcool/Drogas – CAPS ad podem ser pensadas a partir das diferentes lógicas que permeiam a política de saúde na área de álcool e drogas, a saber: a reforma psiquiátrica, a redução de danos e a clínica. Inúmeras, então, são as perguntas que podemos elaborar sobre essas saídas. Quando se conclui a passagem de um paciente pelo CAPS ad? A partir de que lógica poderemos construir o encerramento, ainda que temporário, de uma passagem pelo CAPS ad? A saída do CAPS ad coincide com o fim de uma proposta de tratamento? O que deve ocorrer no serviço para que a saída se apresente como possibilidade?

Pretendemos, inicialmente, neste texto, problematizar as saídas do CAPS ad, a partir das diferentes lógicas que permeiam a atenção ofertada nesses serviços. Em um segundo momento, a partir da experiência clínica do Centro Mineiro de Toxicomania-CMT (um CAPS ad) e dos referenciais teóricos que a norteiam, trabalharemos os momentos de saída do serviço, articulando-os com os de entrada e seus impasses. Nesse percurso, tentaremos desenvolver respostas, ainda que parciais, às inúmeras perguntas que o tema suscita.

As diferentes lógicas no CAPS ad: diferentes orientações sobre as saídas do tratamento?

Antes de apresentarmos nossas formulações sobre as saídas do tratamento nos CAPS ad, parece-nos pertinente compreendermos as diferentes funções que esses serviços podem assumir para as pessoas que os frequentam.

Sabemos que se trata de um espaço destinado ao tratamento de pessoas dependentes ou em uso prejudicial de álcool e outras drogas. Na maioria das vezes, o que se coloca como demanda, nesse serviço, é o sofrimento intenso de um sujeito ou de seus acompanhantes devido ao uso das substâncias, a demanda primeira é interromper o consumo. Tal como Zenoni preconiza:

[…] a instituição existe para acolher, colocar o sujeito à distância, assisti-lo. A instituição existe como uma resposta social a fenômenos clínicos de alguns estados de psicose, de passagens ao ato, de depauperamento físico e uso excessivo de drogas (ZENONI, 2000,p.14)

Enfim, muitas vezes, torna-se necessário o recurso à instituição para se lidar com modalidades de gozo que fazem retorno no corpo e empurram o sujeito ao agir. Dessa forma, estabelece-se, para a instituição, uma função social, que não é incompatível com sua função clínica.

Na perspectiva da política de saúde, que também é uma resposta social ao fenômeno da dependência de drogas, o CAPS ad tem como uma de suas funções contribuir, no plano individual e no coletivo, para a redução dos danos e prejuízos associados ao consumo dessas substâncias. A perspectiva da redução de danos se faz presente no serviço, relativizando sua função e os objetivos de suas práticas, que deixam de corresponder, exclusivamente, à promoção da abstinência ou à interrupção do consumo. Trata-se de uma proposta ousada, ainda polêmica, mas que permite a pergunta: o que é possível em cada caso que se apresenta?

Ainda na perspectiva da política de saúde, os princípios e as diretrizes da reforma psiquiátrica devem estar presentes nos CAPS ad, traduzindo-se em formas de atenção que não segreguem os usuários, que contribuam para sua inserção ou reinserção social. A proposta, então, é oferecer cuidados em redes de atenção, que viabilizem a retomada dos diversos laços sociais, que, em algum momento e por algum motivo, foram comprometidos.

Além disso, ainda dentro da proposta da política, espera-se que, no CAPS ad, aconteça um trabalho clínico. Fala-se sobre uma clínica ampliada ou em uma clínica reinventada. Em uma instituição que tem a psicanálise como referência teórica, a dimensão clínica se coloca desde a entrada no serviço. Não cabe aqui ofertar a psicanálise para todos os que chegam ao serviço, mesmo porque um paciente não busca uma análise ao se endereçar a um CAPS. No entanto, podemos colher efeitos que a presença e o encontro com psicanalistas podem causar sobre cada um que se endereça ao serviço e também no modo de esse serviço funcionar. Receber o caso em sua unicidade é prioritário, não temos um modelo pronto, um “pacote” a ser apresentado a todos. É somente a partir de uma escuta atenta e cuidadosa e de intervenções que retornem sob o sujeito, que saídas podem ser construídas.

Desenvolver propostas de tratamento nos CAPS ad, considerando a interface entre essas lógicas, torna-se um desafio a ser enfrentado. Embora tenhamos diretrizes claras em relação à forma de funcionamento desses serviços, percebemos que cada serviço tem um modo de fazer diferente do de outro, priorizando uns mais a clínica, outros mais a reinserção social, outros as urgências, outros a redução de danos. Não há um único modo de fazer. Quando pensamos em CAPS, um convite à invenção de práticas de atenção, um apelo à singularidade de cada caso, bem como um direcionamento do tratamento são pontos que precisam ser pensados, na medida em que os sujeitos não são iguais, bem como as relações que estabelecem com o uso de álcool e outras drogas.

Se considerarmos que é na interface dessas três lógicas que os tratamentos nos CAPS ad se desenvolvem, é também a partir delas que poderemos pensar as saídas do tratamento nesses serviços. Dessa forma, tais saídas comportariam: sob a lógica da redução de danos, o estabelecimento de um padrão de consumo de drogas menos prejudicial à saúde; sob a lógica da reforma psiquiátrica, o reestabelecimento de laços sociais, a inserção em uma rede de cuidados; e sob a lógica da clínica, a retificação do sujeito frente ao gozo, buscando outras formas de satisfação que incluam a divisão subjetiva.

Redimensionando os momentos da entrada e construindo saídas

A experiência do Centro Mineiro de Toxicomania aponta que parece ser imprescindível, ao falarmos sobre “saídas”, considerarmos a questão da “entrada”. Esta poderá acontecer de inúmeras maneiras, apresentando diversos aspectos: o real do corpo e seu limite aos excessos; a devastação e a errância; o mal-estar colocado no campo do outro social; o insuportável da angústia de viver com e sem as drogas e o álcool; o rompimento com os laços sociais, tais como emprego, família, escola; a busca de um convívio moderado com a substância. Enfim, toda uma gama de apresentações pode tornar-se presente.

Parece indispensável, no momento de entrada, não se ter pressa. O que cada um está buscando? Pergunta primeira que não deve ser desprezada. Aqui, a questão do tempo se coloca. “Dilatar” o tempo de entrada, escutar, precisar com cuidado o que é possível e o que é necessário.

Muitas entradas e saídas poderão acontecer via intervenção no corpo. Recursos como o leito de desintoxicação ou a intervenção médica podem fazer todo um diferencial. Fazer um “semblant” de internação, através do leito de desintoxicação e repouso, ou mesmo a “internação domiciliar consentida”, pactuada com o usuário e seus familiares, via transferência, pode funcionar como um ponto de basta a uma posição até então não imaginada. Aqui, a “suposição de saber”, endereçada ao outro da instituição, pode ser um instrumento valioso para se operar clinicamente na condução de um caso.

Em relação à atenção que a instituição oferece, alguma tensão faz-se necessária. A porta “entreaberta” pode ser uma estratégia: não se oferece demais, não se escancara a porta, ofertando tudo para o outro, como se soubéssemos o que é o bem para alguém, mas também não se fecha a porta, deixa-se um espaço para que o sujeito possa querer adentrar. O fato de um paciente ter demandado, inúmeras vezes, uma ajuda e não ter correspondido a um “ideal” esperado pela equipe não nos autoriza a dificultar uma nova tentativa. Assim, um novo tempo para um sujeito poderá advir, ainda mais que nessa clínica o ir e vir se faz constante.

Alguma aposta deve estar presente, por exemplo, quando se oferta a permanência-dia, visando a uma retificação da posição do sujeito com o seu fazer. A permanência-dia não se deve constituir apenas como um espaço de assistência ou de uma certa acomodação que pode até favorecer uma moderação na relação com a droga. Mais do que isso, é importante que, nesse espaço, ocorra uma escuta, o acompanhamento dos casos. Pois estar simplesmente na instituição não se constitui em si um tratamento, não basta um paciente ficar todo o dia na unidade, se isso não retorna sobre ele, se não se consegue extrair disso algum efeito. Portanto, um cálculo temporal deve também nortear a passagem pela instituição. A dimensão da saída deve ser pensada desde a entrada, evitando a cronificação nesse espaço. Introduzir essa dimensão parece necessário para viabilizar a construção de saídas do tratamento ou da instituição. Recentemente, em uma reunião diária, conduzida por uma técnica do CMT, quando estavam presentes 40 pacientes, essa dimensão foi problematizada, a partir da seguinte pergunta: o que cada paciente estava fazendo para não precisar estar mais no CMT? Dessa forma, o momento de saída da instituição foi antecipado, cada um foi interpelado a dizer sobre o que desejava em relação à própria vida, para além daquilo que a instituição ofertava. Sabemos que, muitas vezes, a saída da instituição é significada como algo da ordem da punição, da perda de uma atenção. Todo um trabalho é necessário para que a saída possa ser possível. Sabemos o quanto é difícil reatar laços familiares, construir novos vínculos sociais, modificar a relação com a droga e retificar a posição diante do gozo.

Nesse ponto, parece ser de fundamental importância apontar a dimensão do desejo colocada também no campo da equipe que assiste. O espaço de discussão dos casos para conseguir lidar com o real do gozo, da morte, dos limites e embaraços torna possível a construção do caso clínico. Uma equipe deve operar o menos rígida e prescritivamente possível, para que a posição superegoica não produza ressonâncias.

Saídas possíveis no cotidiano de um CAPS ad

M., de 54 anos, foi encaminhado por um hospital geral, onde esteve, por 60 dias, internado, em decorrência do uso intenso do álcool. Traz em seu corpo o que lhe restou: “uma caldinha do pâncreas”. Acredita que consegue sobreviver com esse resto, desde que não retorne ao consumo. Do ponto de vista clínico e da desintoxicação, temos um sujeito recuperado, abstêmio há meses. Foi aceito no CAPS, medicado para uma ansiedade constante e por um tempo acompanhado em um trabalho de escuta. Isso se fez necessário, pois, para além da perda vivida no corpo, consentir em perder o álcool, que sempre o acompanhou, mostrava-se demasiadamente doloroso.

S., paciente de 35 anos, psicótico, morador de rua desde os 15, consegue fazer um bom uso da instituição. Em situações de crise, sabe onde ser acolhido. O álcool entra como uma forma de apaziguamento frente às vozes que o invadem. Quando em excessiva quantidade, toma a cena do caso. Mantém a abstinência por algum tempo, mas ela não parece ser a meta a se alcançar. Nesse caso, as saídas são sempre temporárias, não se fala sobre término de tratamento.

A., adolescente de 15 anos, nos procurou fazendo uso excessivo de maconha, droga que lhe permitia lidar com o feminino via identificação a uma gangue MMM (Mulheres, Magrelas, Malvadas). Realizou um percurso na instituição, onde questões referentes às dificuldades com o sexual e com a relação “grudada” à mãe puderam-lhe retornar, por meio de um trabalho de escuta. A resposta que ela encontrava nas atuações, ao invés de separá-la da mãe, fazia com que ficasse ainda mais presa à identificação “mulher má”, forma como até então essa mãe era apresentada. No período de cinco meses, A. pôde construir “o se fazer mulher” de uma outra maneira.

Podemos pensar também em saídas quando acontece uma regulação do gozo desmedido, ao qual o sujeito estava entregue; quando uma nova orientação calcada no desejo se anuncia; quando a droga e o álcool caem, e um novo sintoma se produz; quando até mesmo o sujeito se contenta com alguns efeitos terapêuticos alcançados. Essas podem ser consideradas boas saídas. Mas temos também saídas por abandono. Aquelas em que o sujeito não consente em abrir mão das substâncias e continua em seu desvario. Mesmo assim, podemos perceber que, se, de alguma forma, o técnico ou mesmo a instituição conseguem inscrever-se para o paciente como um Outro, um êxtimo, a quem se possa endereçar a qualquer momento, talvez a “função CAPS” não tenha deixado de se cumprir.

Considerações finais

Nos CAPS ad, podemos pensar as diferentes saídas do tratamento a partir das diferentes lógicas: redução de danos, reforma psiquiátrica e clínica. Também podemos esperar por uma coincidência, uma convergência dessas três lógicas, em algumas saídas. Quando isso não acontece, um tensionamento entre as três lógicas poderá ocorrer, de maneira a favorecer a construção de uma saída possível. Sabemos que algo deve ser construído nos serviços, ainda que esse algo não corresponda ao ideal de uma equipe, o que não deixa de ser profícuo. Entendemos que não há primazia de uma lógica sobre a outra e acreditamos que é somente nessa interface, na tessitura construída nesses dispositivos, que, para cada sujeito, o CAPS poderá ter uma função.

Referência bibliográfica

ZENONI, A. Qual instituição para o sujeito psicótico? In: Revista Abrecampos, Ano 1, nº 0. Belo Horizonte: FHEMIG, 2000. p 12-31.

Maria Wilma S. de Faria e Ana Regina Machado

Ana Regina Machado - Psicóloga, especialista em Saúde Mental, mestre em Saúde Pública. Coordenadora do Núcleo de Redes de Atenção à Saúde da Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais. E-mail: anarmachado@uol.com.br. Maria Wilma S. de Faria - Psicóloga, psicanalista, especialista em Saúde Mental, terapeuta do CAPS ad Centro Mineiro de Toxicomania/FHEMIG. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Responsável pela Rede TyA Brasil. E-mail: mwilma62@gmail.com.

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