Almanaque No 17

“Bons rolês e tudo o que for bom”: a gente não quer só comida

Raquel Guimarães e Virginia Carvalho
ÉDER OLIVEIRA

ÉDER OLIVEIRA

“A favela pede paz, mas a guerra nunca vai acabar…”, enuncia Juca, que vivencia em seu território um intenso e mortífero conflito que não cessa desde 2013. Trata-se de uma tensão entre dois grupos do tráfico, Bahia e Barriga, que se tornaram rivais por disputas que os integrantes não conseguem precisar o início.

 

Juca faz parte do Bahia, grupo constituído por jovens de 15 a 20 anos que agem de modo impulsivo e violento, sem demonstrar cálculo em suas ações que, em geral, são direcionadas ao outro grupo. Esses jovens vinham realizando frequentes enfrentamentos à gangue do Barriga. Para tanto, iam ao território inimigo, com armas em punho, ameaçando e convocando para o confronto. Em seguida, corriam para seu território aguardando o ataque rival.

 

“Estamos marcados para morrer”: o encontro fortuito com a morte

 

Uma proposta de trabalho com a gangue do Bahia se colocou a partir da perturbação que experimentaram esses jovens diante da notícia de que um de seus colegas havia contraído o vírus HIV. Tal diagnóstico se deu no momento em que o jovem foi ferido e hospitalizado após uma troca de tiros. Frente a esse diagnóstico, os jovens do Bahia se agitaram receando também ter o vírus, em função das parceiras em comum, e anunciaram: “Se a gente também tiver contaminado, vamos botar pra quebrar, já que estamos marcados pra morrer”.

 

A morte, presentificada no conflito que eles nomeiam “guerra”, não era questão para o grupo até o momento. Mas a notícia de que um dos integrantes havia contraído um vírus que poderia matá-lo traz para a cena o medo de morrer. A partir disso, tem-se o convite para a conversação.

 

Segundo Ana Lydia Santiago (2011, p. 97),

 

a conversação é uma prática da palavra para tratar as manifestações indesejadas que produzem insucessos e fracassos. Busca-se uma mutação do falar livremente sobre os problemas. O ponto de partida para as conversações é “o que não vai bem”, formulado por meio das queixas. A aposta da conversação é passar da queixa – que paralisa a ação [..] e produz identificações indesejáveis […] – a um outro uso da palavra em que a queixa toma a forma de uma questão e a questão, a forma de uma resposta: invenções inéditas.

 

Para tanto, a primeira pergunta, colocada aos jovens pela enfermeira, foi: “O que lhes tira o sono?”. Respondem dizendo da guerra, da polícia e dos “alemão”. Juca anuncia seu medo de que os irmãos e outros colegas morram por causa da guerra: “poucos da minha época estão vivos hoje, a maioria ou morreu, ou está presa”.

 

Os efeitos do primeiro encontro foram observados por um dos jovens, que disse que, após o encontro, só coisas boas aconteceram, sem mais troca de tiros entre os grupos.

 

A partir disso, um segundo momento é proposto. Frente à oferta da palavra, a demanda que surge dos adolescentes é a de que ali se falasse sobre o direito ao lazer, sobre o que a cidade oferece para eles se divertirem.

 

Atividades circenses realizadas por jovens abriram o terceiro encontro. Na conversação, em que foi lançada a pergunta sobre o que seria diversão para eles, algumas falas se destacaram: “Eles são bons de circo e nós somos bons de tiro. Se levar eles lá para fora, iremos dar aula de tiro”; “A erva (maconha) e as mulheres trazem tranquilidade; com a erva e as meninas nós ficamos suave”; “É necessário ter polícia para controlar, a polícia é quem mantém o controle”. Um dos jovens disse que a polícia evita uma guerra maior: “A polícia vem pra nos controlar, sem eles aqui todos vão andar armados, vai ter gente andando de bazuca”, e completa: “Se não fosse a polícia, a favela não existiria”.

 

Considerando que o primeiro instante da conversação é o de nomeação das queixas, localizou-se que o grupo se queixava de não saber como se divertir e que a “guerra” lhes tirava o sono. Nas falas, os jovens indicaram a adrenalina de se ter uma arma na mão, de fugir da polícia, de atacar o grupo rival. Falaram da identificação com a “quebrada” e do modo como circulam e se apropriam das ruas e becos, geralmente a partir de delimitações no território que a rivalidade com o outro grupo impõe.

 

“A gente não fica tranquilo depois de matar”: o mal-estar da “guerra”

 

Um novo encontro e a apresentação da “quebrada” fizeram-se importantes. Falaram sobre a violência gerada pela guerra e também sobre o impacto do conflito nas famílias, na comunidade e em suas vidas. Ao desenharem sua “quebrada”, duas frases se escrevem: “Paz na favela” e “A guerra nunca acaba”. Afirmaram que não é fácil estar em guerra, ter que matar o outro, mesmo sendo rivais. Localizam que não é só adrenalina e diversão e que estão permanentemente sobre tensão, com medo de serem surpreendidos pelo grupo rival e perderem suas vidas. Desvela-se um mal-estar na conversação, que é encerrada com a fala dos jovens de que não tem como a guerra acabar, pois isso está para além deles.

 

Anunciavam, com a angústia experimentada por se darem conta do lado mortífero da “guerra”, uma tentativa de passar da queixa inicial sobre a diversão a um questionamento sobre a guerra, em que estivessem incluídos. Demandavam diversão, mas as conversações indicavam um ponto de fixação na guerra que parecia dar contorno e sentido à vida dos jovens que dela participavam, ofertando um lugar na comunidade e, até mesmo, um modo de vida.

 

“Mil grau”: prescindir da guerra

 

O quinto encontro aconteceu em um lugar fora do território, permitindo ao grupo circular por outros espaços da cidade que pudessem ofertar diversão. Na chegada ao local programado, os jovens se mostraram animados para jogar futebol. Dois deles não jogaram por estarem com o movimento de uma das pernas comprometido por balas alojadas no corpo, demonstrando incômodo com a pouca mobilidade. O jogo de futebol foi repleto de provocações, mas sem conflitos. Os jovens relataram terem se divertido muito.

Após o jogo, foram em busca de mais diversão. Entraram por uma trilha seguindo o caminho que levava às quedas d’água. As brincadeiras giraram em torno do cotidiano da guerra. Fizeram muita algazarra correndo e gritando: “cuidado com os alemão”; “olha a polícia”. No retorno à quadra, os jovens se reuniram para a conversação, ratificando o que os interessava: “queremos bons rolês e tudo o que for bom; paz no coração e dinheiro”.

 

Os acontecimentos da “guerra” atravessaram os encontros. A polícia vinha se fazendo mais presente, com muitas prisões e apreensões de drogas, prejudicando as vendas do tráfico. Uma decisão foi tomada pelas lideranças de ambas as gangues Barriga e Bahia: era preciso pôr fim à guerra.

 

Na conversação que se sucedeu a essa decisão, os jovens solicitaram assistir a um filme escolhido por eles. Durante a exibição, se agitaram nos momentos em que era retratada a guerra entre duas gangues do Rio de Janeiro. A cena final do filme mostra o momento em que um dos personagens decide não dar continuidade aos confrontos, selando um acordo de paz com o rival. Os jovens se mostraram revoltados, dizendo não concordar com tal atitude do personagem.

 

Após o encontro, vão ao baile funk do bairro vizinho com armas e coletes à prova de balas, sugerindo uma rivalidade com o grupo que organizava o evento. Foram expulsos do baile pelas lideranças da gangue do local.

 

Esse episódio coloca em questão o movimento do grupo, que parecia insistir na guerra, indicando que ela tinha função, servindo como engrenagem que regula a relação com a comunidade, com os outros jovens. O que indicam eles ao se lançarem na guerra ao mesmo tempo em que demandam diversão?

 

A oferta da palavra a esses jovens nas conversações colocou-se no sentido de que eles localizassem a tensão e o medo provocados pelo conflito das gangues. O ponto de partida desse trabalho foi a angústia do grupo frente ao real da morte que irrompe, não da “guerra”, mas do HIV contraído por um dos integrantes. Nesse sentido, as intervenções, nos encontros, visavam a marcar um estranhamento à banalização da “guerra”. Os efeitos puderam ser recolhidos somente a posteriori, com o cessar fogo e com a necessidade de que algo se reconfigurasse no modo como eles vinham se movimentando na vida.

 

As conversações puderam ser concluídas com uma solicitação feita pelos jovens. Pediram a organização de uma partida de futebol contra os integrantes do grupo do Barriga. O jogo contou com um número significativo de jovens de ambas as gangues em uma calorosa disputa. Saíram dizendo que havia sido “mil grau”, muito bom. Atualmente pedem que outras partidas aconteçam. A guerra cessou.

 

“Eles são bons de circo, a gente é bom de tiro”

 

Na carta a Einstein, Freud (1932/1996) se dedica a trabalhar a questão “Por que a guerra?”, indicando, para tanto, que o desejo de aderir à guerra é efeito da pulsão de morte, impulso destrutivo que se apresenta no campo limítrofe entre o psíquico e o somático, demandando satisfação. A guerra, segundo o Freud de “Reflexões para os tempos de guerra e morte”, de 1915, altera a relação dos homens para com a morte. Ela passa a não ser mais “um acontecimento fortuito” (p. 301), pois “o acúmulo de mortes põe um termo à impressão de acaso” (p. 301).

 

Faria (2013) lembra que, no Brasil, morrem mais jovens por ano nas guerras entre gangues do que nos países em guerra. Segundo sua pesquisa, esses jovens, em um momento vítimas e, em outro, agressores, são “levados pelo tráfico, pela conquista de território […], pelo prestígio, pela menina” (p. 12). Para ela, “o tênue limite que separa os `jovens da esquina’ ou as ‘galeras’ das ‘gangues’ se desfaz frente à ameaça de um terceiro, alguém da comunidade, uma turma de bairro vizinho e, em especial, a polícia” (p. 21). Nesses momentos de enfrentamento e ameaças, quando o sentimento de grupo se reforça, emergem as gangues: “O que, de início, era apenas turma, acaba se tornando grupo de conflito, com seus primeiros líderes e suas próprias regras de convivência” (p. 21).

 

Mas teriam as “guerras” entre gangues o mesmo estatuto que o das guerras entre os países? Se, nestas últimas, é possível identificar uma inscrição simbólica, essa outra “guerra”, feita pelos jovens, apresenta muito mais uma vertente de gozo, pela via da transgressão.

 

Freud (1915/1996) sustentava para Einstein que lutar contra a guerra seria contrapor à pulsão de morte seu antagonista, Eros. Ou seja, favorecer o estreitamento dos laços sociais atuaria contra a guerra. Para ele, o amor e a identificação seriam duas maneiras de promover tal estreitamento.

 

Miller (2015), ao comentar sobre a participação dos adolescentes no Estado Islâmico, nos lembra que, para Lacan, as identificações são determinadas pelo desejo do Outro, mas não satisfazem a pulsão. Perguntando-se sobre o motivo pelo qual as cenas de decapitação dissipadas pelo Estado Islâmico atrairia tantos recrutas, Miller interroga se não seria essa uma tentativa de uma nova aliança entre identificação e pulsão.

 

No relato do confronto entre Bahia e Barriga, chama atenção, mais do que as questões próprias da “guerra”, o modo jocoso como os jovens do Bahia se colocavam nela. A ideia da morte em função dos conflitos entre as gangues era certa e esperada, fora do acaso, como indica Freud, ao descrever a situação de guerra entre os países. No entanto, o diagnóstico do HIV coloca em cena a contingência e a necessidade de um rearranjo.

 

Se inicialmente os Bahia respondem, como grupo, pela vertente do “somos bons de tiro”, a dificuldade que revelam e pela qual pedem ajuda é a de fazerem parte do “circo”. Esses jovens, em seu “despertar dos sonhos” (Lacan, 1974/2003), querem se divertir, mas não sabem como fazê-lo. Conversando sobre a guerra, percebem que ela não é divertida, é mortífera. E pedem auxílio para encontrar na cidade lugares em que possam fazer “bons rolês” e encontrar “tudo mais que for bom”.

 

No jogo de futebol proposto por eles, os jovens do Bahia parecem ter encontrado um novo lugar para recolocar suas “armas” fálicas. Consentem com o fim da guerra depois do jogo, que deu lugar às provocações, fazendo borda ao conflito. Para Freud,

 

alguém que está crescendo deixa de brincar, renunciando claramente ao ganho de prazer que a brincadeira lhe trazia. Mas quem conhece a vida psíquica das pessoas sabe que nada é mais difícil do que renunciar a um prazer que um dia foi conhecido. No fundo, não poderíamos renunciar a nada, apenas trocamos uma coisa por outra; o que parece ser uma renúncia é, na verdade, uma formação substitutiva ou um sucedâneo (1908/2015, p. 55).

 

Em uma conversação, lidamos com a demanda do Outro e a do sujeito. Nesse caso, a demanda do Outro era a paz na favela. Considerava-se essa “guerra” como um sintoma. No entanto, dar voz aos jovens que vinham perdendo o sono com a possibilidade de morrerem de outro modo, que não nessa “guerra”, permitiu a localização do impasse deles em relação a ela. A dimensão mortífera da “guerra” se apresenta e eles se perguntam sobre como sair dela, dando lugar à pulsão. Foi possível se deslocarem da “guerra da favela”, rumo à pergunta sobre como fazer para se divertirem. O jogo de futebol entre as gangues parece ter entrado, nesse caso, como a invenção inédita desses jovens, através das conversações. Não como uma solução pret-à-porter pela via educativa ou sublimatória, mas como recurso para responderem aos impasses experimentados em suas construções adolescentes. Após o jogo, a paz até pode ser mantida na favela, mas não sem dar lugar à guerra pulsional de cada um.

 

[1] Texto elaborado a partir da conversação realizada no Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Criança (CIEN) de Minas Gerais. O tema foi “a favela pede paz, mas a guerra nunca vai acabar: o que fazer com os jovens que enunciam essa frase?”.

 

 

BILBIOGRAFIA

 

FARIA, L. F. Tribos urbanas: os efeitos do abalo do Nome do Pai no contexto da violência juvenil (2013). Tese de doutorado apresentada ao programa de pós-graduação em Teoria Psicanalítica da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte: UFMG.

 

FREUD, S. Reflexões para os tempos de guerra e morte (1915). In: Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996

 

______. Por que a guerra? (1932) In: Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

______. O poeta e o fantasiar (1908). In: Obras Incompletas de Sigmund Freud, Arte, Literatura e os Artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

 

LACADÉE, P. A passagem ao ato nos adolescentes. In: Asephallus. Revista Eletrônica do Núcleo Sephora. Volume 2, número 4, maio a outubro de 2007.

 

LACAN, J. Prefácio a “O despertar da primavera” (1974). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003.

 

MILLER, J-A. “Em direção à adolescência”. Intervenção de encerramento da 3ª Jornada do Instituto da Criança. 2015. Disponível em http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia. Acesso em 20 mai. 2016.

 

Raquel Guimarães e Virginia Carvalho

Raquel Guimarães Lara. Psicanalista, graduada em psicologia pela PUC-Minas, especialista em Psicanálise pela Universidade FUMEC. Atua com políticas públicas de prevenção à violência e criminalidade. E-mail: raquelguima@yahoo.com.br - Virginia Carvalho. Psicanalista, coordenadora do CIEN Minas, doutoranda e mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG, especialista em Psicologia Clínica pela PUC-MG. Professora do curso de Psicologia da Educação da PUC-MG e integrante do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psicanálise e Educação (FAE/UFMG). E-mail: vivscarvalho@yahoo.com.br

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