Almanaque No 16

Da solução do sintoma ao sinthoma como solução

Leandro Marques Santos

 

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O sintoma é o mal do qual o sujeito quer se livrar, e, portanto, é aquilo que o leva a falar a um analista sob a forma de uma demanda. Jésus Santiago, no testemunho de seu passe, fala sobre sua demanda de análise após a morte de seu pai: “sou tomado por intensa angústia, e pela ideia atormentadora de que poderia vir a ficar deprimido e doente como ele. Eis o que me impulsiona para o meu primeiro tratamento analítico” (SANTIAGO, 2013, p. 89).

Segundo Freud, os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do paciente. No caso de Jésus Santiago, o pensamento atormentador da possibilidade de ficar deprimido e doente como o pai tem relação direta com sua missão de salvá-lo, encarnada pelo seu nome próprio.

Na neurose obsessiva, os sintomas surgem pelos pensamentos invasores, impulsos dentro de si mesmo, ritos obrigatórios. Essas manifestações, que fogem ao controle do sujeito, geram a ele perturbações e sofrimento. Isso fez com que Freud a nomeasse de “doença louca” (FREUD, 1915-1916, p. 267).

Uma das pacientes de Freud, citada na Conferência XVII (1915 – 1916), que cometia repetidamente o ato de chamar a empregada próximo a uma mesa, cuja toalha estava manchada de vermelho, de acordo com Freud, repetia esse ato no intuito de corrigir a falha do marido na noite de núpcias.

Portanto, qual seria a função do sintoma?

O sintoma é uma consequência do encontro do sujeito com a castração (SANTIAGO, 2015, p. 163). Ele é “signo da falha da relação sexual” (SKRIABINE, 2013, p. 19), o que seria um outro nome da castração, sendo sua função a de um substituto, uma espécie de suplência à falta da relação sexual que o significante falha em escrever, ou seja, a linguagem não dá conta dessa relação, portanto, o surgimento do sintoma.

 

Porque ele se forma assim?

Freud nos ensina que o sintoma é fruto de um conflito entre a necessidade de satisfação da libido e as proibições internas e externas, ou do ego e da realidade, encontrado pela libido na busca de satisfação. Essas proibições fazem com que a libido, que possui um “caráter fundamentalmente imutável” (FREUD, 1916, p. 362), invista em forma de catexia, em tempos anteriores, nas fixações de satisfações que eram obtidas na infância, passando assim a operar através do sistema inconsciente. O ego, então, opositor a essas realizações, passa a persegui-la e compeli-la a escolher uma forma de expressão da própria oposição. Assim, cito Freud: “o sintoma emerge como um derivado múltiplas-vezes-distorcido da realização de desejo libinal inconsciente, uma peça de ambiguidade engenhosamente escolhida, com dois significados em completa contradição mútua” (FREUD, 1915-1916, p. 362-363).

O sintoma então age repetindo a forma infantil de satisfação, porém de maneira deformada devido à censura do ego, provocando sofrimento ao sujeito que reclama dele sem perceber que também se satisfaz ali. Como nos revela Santiago ao falar sobre seu “esquartejamento”, “um suplício sofrido pela ação de forças antagônicas”, posto em cena pela análise na qual ele se valia da “inocência do menino” para não saber sobre seu “aprisionamento no gozo sacrificial” (SANTIAGO, 2013, p. 93).

Santiago relata o esforço nocivo que fazia para tentar dissolver as identificações com o ideal viril, “identificação da criança-orifício com a virilidade da mãe”. Revela que “exatamente nesse ponto, o amor se transfigurava em sintoma. Em detrimento do amor, prevaleciam as repetições com a satisfação escópica promovida pela fantasia” (SANTIAGO, 2015, p. 166).

Freud, ao descrever sobre a regressão da libido às fixações de satisfação da infância, toca num ponto fundamental, que é o da fantasia, e a compara à realidade vivida por cada sujeito, com base no que cada um traz em relação às histórias de sua infância, sem se importar, a princípio, se os fatos são ou não verídicos, uma vez que foram criadas pelo sujeito neurótico e, por isso, têm o valor de verdade: “no mundo das neuroses, a realidade psíquica é a realidade decisiva” FREUD (1915-1916, p. 370). Como podemos ver na contribuição dada por Santiago em seu passe, “a fantasia se origina da relação da criança com a mãe viril”.                    Na adolescência, isso inverte: “de objeto-orifício passei a me identificar com o objeto-olhar da mãe. Assim, ao me identificar com ela, eu me virilizava; virilizado me sacrificava” (SANTIAGO, 2015, p. 166).

O ponto de fixação provoca sempre uma repetição por parte do sujeito, evidenciando que há algo no sintoma que resiste à decifração (SOUTO, 2003, p. 11).

Santiago, ao falar das repetições com a satisfação escópica promovida pela fantasia, afirma que “tais repetições se mostravam refratárias às interpretações e construções que buscavam elucidar o impasse amoroso… da identificação da criança-orifício com a virilidade da mãe” (SANTIAGO, 2015, p. 166).

 

O sintoma seria, portanto, a realização da fantasia?

“Lacan nos esclarece que o sintoma é aquilo que envelopa a fantasia, o gozo que a fantasia comporta… aquilo que da fantasia pode aparecer sob a forma significante” (MACHADO, 2004, p. 2). Como no caso de Santiago, ao assumir a forma do “boneco-de-verdade”: “O sujeito se apega a esta forma fálica que o representa para o Outro” (SANTIAGO, 2013, p. 91).

Sendo assim, a realização da fantasia pela via do sintoma é a realização do gozo, e Lacan chama de sintoma a incidência do gozo sobre o corpo. Portanto, o sintoma vai além da fantasia, comportando gozo e fantasia, sendo o gozo inapreensível pelo significante. Santiago, no percurso de sua análise, reencontra o que ele chama de “a dimensão mortífera do objeto, que aparece inicialmente velado pelo investimento libidinal no corpo próprio via o brilho do boneco-de-verdade” (SANTIAGO, 2013, p. 92).

 

O Nome-do-Pai é um sintoma?

Lacan destitui o Nome-do-Pai rebaixando-o a um tipo de sinthoma, ou seja, o Nome-do-Pai seria igual ao sinthoma (JIMENEZ, 2005). Tal como o quarto nó, que amarra os três registros – real, simbólico e imaginário –, conforme demonstrado por Lacan ao referir-se a Joyce no Seminário 23 (LACAN, 1976).

Miller, na abertura da Conversação II de Arcachon, sustenta que um sintoma pode assumir a função de Nome-do-Pai e afirma que “o Nome-do-Pai, ele próprio, não é nada mais que um sintoma” (MILLER, 1997, p. 106).

Porém, Lacan não deixa de ressaltar a importância desse quarto elemento do nó borromeano, afirmando que o pai é esse quarto elemento… esse quarto elemento sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do imaginário e do real. Mas há um outro modo de chamá-lo… eu o revisto hoje com o que é conveniente chamar de sinthoma (LACAN, 1976, p. 163).

 

Há solução para o sintoma?

O sintoma pode ser interpretado, e assim podemos dizer que há solução para o sintoma. No entanto, para o sinthoma não há interpretação, permanecendo um resto inominável. Portanto, “o sintoma é curável; o sinthoma não” (JIMENEZ, 2005).

Jésus Santiago demonstra em seu testemunho que o “boneco-de-verdade”, que encobre um “gozo mortífero”, é dissolvido pela sentença “negue teus heróis”, extraída de um sonho de final de análise (SANTIAGO, 2013, p. 95). Portanto, “no lugar da oferenda em sacrifício ao Outro, há o gozo traumático, considerando-se que sua consistência é o vazio próprio da montagem pulsional” (SANTIAGO, 2015, p. 169).

No percurso de uma análise opera-se a queda dos significantes, e, com isso, uma redução do gozo e também dos sofrimentos provocados pelos sintomas próprios de cada ser falante. No entanto, o inconsciente não se esgota, ou seja, permanece um resto, e nesse resto podemos encontrar uma solução (SOUTO, 2003, p. 11).

Para chegar a esse ponto, é preciso servir-se do pai na medida em que, numa análise, se articula com os significantes causadores de gozo e se descobre os objetos da fantasia. É servindo-se do pai que o sujeito neurótico tem a chance de sair da posição fantasmática que o coloca como objeto de gozo do Outro para inventar um novo modo de gozo. Essa invenção pode ser chamada de parceiro-sintoma, como nos esclarece Miller: “a relação do parceiro supõe que o Outro torna-se o sintoma do falasser, isto é, torna-se seu meio de gozo” (MILLER, 1998, p. 104).

Marcus André Vieira, em seu testemunho de final de análise, conta como foi essencial servir-se do pai para poder dispensá-lo quando fabrica o nome “mordidavida” para dar lugar ao gozo que não cabe em corpo nenhum, o gozo não apreendido pela fantasia, um gozo além do pai (VIEIRA, 2013, p.101).

 

Dispensar o pai é fazer do sintoma um parceiro?

Inventado e sustentado pelo passante Marcus André Vieira em seu testemunho, o nome “mordidavida”, que estabelece a parceria sintomática entre o falasser e seu sinthoma, só foi possível porque Marcus André se serviu da “mão mordida” do pai para poder dispensá-lo e ir além. Seu pai possuía 53 cães, e, portanto, tinha as mãos sempre machucadas por separar as lutas entre eles, numa violência disfarçada, como nos afirma Marcus. Este, então, encontra um lugar para o pai ao afirmar que “a mão mordida deu-lhe lugar… o do louco” (VIEIRA, 2013, p.102).

Se considerarmos que o Nome-do-Pai é um sintoma e que sempre haverá um resto, um real inapreensível, podemos concluir que dispensar o pai é fazer parceria com o sinthoma como um modo de gozar que o sujeito inventa.

Trata-se de uma invenção, pois mesmo num final de análise não é possível chegar ao significante S1, à verdade sobre o gozo. O falasser chega ao limite de saber pela via significante, o S1 “foi apenas um choque do significante com o corpo” (SILVA, 2015, p. 174).

A invenção do sinthoma não surge do nada, ela dispensa o pai pelo fato dele ter-se servido. Portanto, podemos dizer que o sinthoma já estava presente no sintoma e que a análise seria o processo de lapidação, no qual o sinthoma surge, ao final, como algo aparentemente novo, mas que sempre esteve lá, encoberto pelos significantes mestres (MACHADO, 2004).

No final de uma análise, conforme é possível constatarmos nos relatos de passe, há um resto que não se ultrapassa, portanto temos que viver com ele. Por mais longe que o sujeito leve sua análise, por mais que se reduza o gozo, restará o sinthoma como modo de gozo.

Utilizando-se da famosa frase de Lacan, “não há relação sexual”, Miller ensina que “o falasser, como ser sexuado, faz parceria, não no nível do significante puro, mas no nível do gozo, e essa ligação é sempre sintomática” (MILLER, 1998, p. 106).

 

E como fazer com o parceiro-sinthoma?

Se as possibilidades pela via significante estão esgotadas, não há como saber sobre o que fazer com o resto de gozo, ou seja, não se sabe antes de fazer, trata-se de um saber-fazer que se dá em ato, sem significado, que não está dirigido ao Outro. “Trata-se de um saber que só se sabe ao fazer, depois de feito… um saber que só é sabido em ato” (MACHADO, 2004).

Jésus Santiago afirma que “o amor pressupõe viver o vazio da pulsão sem o recurso da fantasia” e relata que, no final, foi necessário dissolver a miragem fálica para poder “construir-se como objeto a serviço do vazio próprio da pulsão” (SANTIAGO, 2015, p. 168).

A via de entrada numa análise é também a via de saída, que vai da solução do sintoma ao sinthoma como solução. No percurso de uma análise, que se envereda pelas redes simbólicas que determinam o sujeito, as soluções pela via do sentido, daquilo que é interpretável, se reduzem ao resto inominável, ao real do sinthoma, que se transforma em parceiro. Portanto, o sintoma não se soluciona, mas é a própria solução parceiro-sinthoma.

 

 

Bibliografia:

FREUD, S. (1916) “O sentido dos sintomas”, In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Vol. XVI, Conferências introdutórias sobre psicanálise (parte III), Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FREUD, S. (1916) “Os caminhos da formação dos sintomas”, In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Vol.XVI, Conferências introdutórias sobre psicanálise (parte III), Rio de Janeiro: Imago, 1976.

JIMENEZ, S. Sinthoma e fantasia fundamental, Latusa Digital, Rio de Janeiro – EBP-RJ, n. 12, 2005.

LACAN, J. O Seminário. Livro 23: o sinthoma. (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

MACHADO, M. R. O. “Qual a relação entre sintoma e sinthoma?” – Cadernos de psicanálise: SPCRJ, Rio de Janeiro, n. 23, V. 20, 2004.

MILLER, J.-A. “O osso de uma análise”. Seminário proferido no VIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e II Congresso da Escola Brasileira de Psicanálise. Bahia: Biblioteca Agente, 1998.

MILLER, J.-A. et al. (1997). Os casos raros, inclassificáveis da clínica psicanalítica. A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998.

SANTIAGO, B. A. L. “O falo como semblante: Rumo ao final de análise”, Curinga: Trauma nos corpos, violência nas cidades. Belo Horizonte: EBP-MG, n. 39, 2015.

SANTIAGO, J. “Da rigidez fálica ao objeto móbil”, Curinga: Trauma nos corpos, violência nas cidades. Belo Horizonte: EBP-MG, n. 39, 2015.

SANTIAGO, J. “O nome, o oco e a fonação”, Opção Lacaniana, n. 67, Dezembro 2013.

SKRIABINE, P. “Do sintoma ao sinthoma”, Revista de Psicanálise: @gente Digital, Salvador, n. 8, 2013.

SILVA, F. R. “O destino do falo no final da análise”, Curinga: Trauma nos corpos, violência nas cidades. Belo Horizonte: EBP-MG, n. 39, 2015.

SOUTO, O. S. “Como a psicanálise cura”, In: Curinga: como a psicanálise cura. Belo Horizonte: EBP-MG, n. 19, novembro 2003.

VIEIRA, A. M. “Como morder o mar”, Opção Lacaniana, n. 67, dezembro 2013.

Leandro Marques Santos

Leandro Marques Santos – Formado no Curso de Psicanálise pelo Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, Psicanalista, Pós-graduado em Gestão Financeira na PUC-MG. E-mail: leandromarquesbh2@gmail.com.

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