Almanaque No 12

Editorial

Márcia Mezêncio

Em texto publicado na rubrica Trilhamento desta edição do Almanaque on-line, Hebe Tizio problematiza a articulação entre autoridade e limite, lembrando-nos de que se deve “saber que tanto o autoritarismo, como o ‘deixar fazer sem limite’ são as duas faces do pior, ou seja, de um funcionamento superegoico”. Ela afirma ainda que

os corpos sofrem, assim, pela emergência de um gozo não regulado. Por isso, as políticas repressivas são caracterizadas pelo ódio ao gozo, e a psicanálise sabe que, se o gozo é atacado diretamente, produz-se a transferência negativa, em termos atuais, instaura-se a violência.

Reconhecemos aí o paradoxo entre a normatização generalizada e a crise das normas e interrogamos de que maneira a orientação “mais longe do inconsciente, mais perto dos corpos” pode-nos servir de guia para tratar essas novas formas de o corpo apresentar-se.

Esta edição apresenta elaborações, ecos e tentativas de respostas a essa questão. Assim, a Entrevista, com Sérgio Laia, em torno do tema do corpo sob transferência, nos conduz pela rigorosa orientação do VI ENAPOL. Orientação que se reconhece nos trabalhos de Bernardo Micherif e Andrea Eulálio Ferreira, Margaret Couto e Tereza Facury, produzidos nos núcleos de pesquisa do Instituto e publicados na rubrica Incursões.

Sérgio Laia nos esclarece sobre as dificuldades que o discurso analítico encontra no mundo contemporâneo, sendo objeto de uma transferência negativa, mas defende que a crise atual deve ser tomada como oportunidade de reafirmar sua incidência sobre o corpo e a pertinência do tratamento que oferece ao gozo no corpo — “eco de um dizer”. Sua reflexão sobre a agitação dos corpos dos jovens — agitação do real — a propósito das recentes manifestações no país, parece-nos muitíssimo oportuna e instigante: por um lado, diz que “parece possível sustentar que a ‘agitação do real’ é uma ‘agitação dos corpos’, e que, quando há ‘crise das normas’, os corpos se agitam”. O que o levou à questão: o sintoma “social” corporificado por essas manifestações não pode ser lido como “acontecimento de corpo”?

Bernardo nos apresenta uma reflexão sobre a exceção e a regra, a partir do pensamento de Giorgio Agamben, Carl Schmitt e Michel Foucault, tomando a questão de que, “se a psicanálise estabelece sua prática pelo modo como aborda o caso excepcional, esse movimento, contudo, leva a um questionamento inevitável: como pensar a exceção na abordagem da lógica de funcionamento de uma instituição?” Percorre, com Agamben, as contradições da “premissa de que, se a lei tem lacunas, o direito não as admite”, e busca tirar as consequências para a prática do psicanalista nas instituições do campo do Direito e das políticas de segurança.

Ao abordar o tema da incidência dos discursos sobre o corpo da criança, Andrea, Margaret e Tereza visam a “investigar como, na atualidade, o discurso da ciência, segundo a lógica do discurso universitário e do discurso do capitalista, busca regular as relações dos sujeitos crianças e seus corpos” e demonstrar “que o discurso analítico é o que possibilitará que esses sujeitos produzam um saber sobre o real do seu corpo”. As autoras nos oferecem ainda uma reflexão sobre o fenômeno contemporâneo da medicalização das crianças, que identificam como uma nova técnica disciplinar com o objetivo de controle dos corpos.

Reservamos a rubrica Encontros para a apresentação, pelos próprios autores, de trabalhos produzidos na Universidade, e que, a seu modo, dialogam e contribuem para a investigação em curso no Instituto.

A tese de Cristiana Ferreira, Apresentação de pacientes: dispositivo e discursos, interroga a incidência do dispositivo de apresentação de pacientes sobre o paciente psicótico, ressaltando o fato de que

o dispositivo da apresentação favorece a presentificação do real de gozo, gozo que receberá de cada discurso um tratamento diferente, visto que cada discurso implica precisamente uma forma própria de operar com o real, a apresentação de pacientes, em última instância, revela os recursos e limites de cada discurso para lidar com o real em jogo na loucura.

Paula Pimenta nos apresenta sua tese sobre um tema que tem estado atualmente em pauta, no Brasil e no mundo: as polêmicas propostas de regulamentação dos tratamentos oferecidos aos autistas, especialmente na França. Com o título O objeto autístico e sua função no tratamento psicanalítico do autismo, a tese persegue uma questão eminentemente clínica: qual a função dos objetos para o autista e qual o uso que deles se pode fazer no tratamento? A tese os reconhece como essenciais para o tratamento dos autistas, considerando-os a partir da concepção lacaniana de objeto, em sua função fundamental para a construção do corpo, ou para supri-la quando ela não ocorreu, como sucede nos casos de autismo.

Fechamos a edição com dois trabalhos produzidos por alunos do Curso de Psicanálise. Adauto Clemente apresenta algumas elaborações teóricas sobre a melancolia e a mania, desde a concepção freudiana da melancolia como “perda do objeto” à ideia inovadora de Lacan a respeito da “falta do objeto”. Fernando Linhares propõe-se a interrogar a posição do analista na experiência com a psicose, investigar as possibilidades de seu manejo e oferecer algumas orientações clínicas embasadas na teoria psicanalítica.

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