Almanaque No 10

Editorial

Márcia Mezêncio

Almanaque on-line chega ao número 10. A publicação virtual do IPSM-MG segue fiel aos objetivos e diretrizes que presidiram sua concepção e mantém sua orientação de recolher a produção dos diversos espaços de trabalho da instituição. Estão contemplados, nesta edição, as investigações promovidas por seus núcleos de pesquisa, o esforço de transmissão das Lições Introdutórias, a interlocução com colegas da EOL em atividades promovidas também em parceria com a EBP-MG, bem como uma amostra dos trabalhos produzidos pelos alunos do curso de formação.

Começaremos o segundo semestre, alinhando o tema de pesquisa da Seção Clínica ao tema de trabalho do XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. Retomaremos a questão do fracasso em psicanálise, modalizando-a a partir da discussão sobre o feminino e a feminização do mundo. Nossa conversa com Marcelo Veras, Diretor Geral do XIX EBCF, trata dos pontos de encontro — ainda que fracassados — entre essas temáticas e também sinaliza direções que nos levarão a Salvador em novembro. Vocês poderão lê-la na seçãoEntrevista.

Os dois artigos que compõem a rubrica Trilhamentos buscam cernir alguns aspectos desse tema, a partir de leituras de Freud e autores pós-freudianos em percurso rigoroso e instigante proposto por suas autoras. Feminilidade e corpo, o feminino e a histeria, fracasso da função do falo para definir a verdadeira feminilidade ou dar conta do impasse da não relação sexual. “Entre sombras e semblantes, as mulheres se inventam”, diz-nos Silvia Tendlarz, argumentando que, não existindo uma essência feminina, a mulher se vê diante de um mal-entendido. As figuras do feminino seriam, então, respostas para o fracasso das saídas para a feminilidade? Já Graciela Bessa nos propõe uma leitura sobre o narcisismo e sua incidência sobre o corpo da histérica e nos oferece uma interessante discussão sobre o corpo e a imagem corporal na clínica com mulheres, afirmando que a histeria traz em si um questionamento sobre o feminino. Ao observar que essa imagem corporal sempre vacila, ressalta “que a identificação imaginária do corpo feminino, numa mulher, justamente por não existir o significante que defina o ser sexuado da mulher, é frágil e precária. Ela é experimentada como um artifício, um substituto”.

Em Incursões,trazemos o vivo das investigações e aplicações da psicanálise. O tema do fracasso em psicanálise animou o trabalho dos núcleos de pesquisa durante o primeiro semestre. Encontramos aqui suas declinações em textos assinados por Suzana Faleiro Barroso, Maria José Gontijo Salum e Márcia Mezêncio. No primeiro, no campo da psicanálise com crianças, a autora discute a possibilidade do laço social, não a partir dos ideais, mas da pulsão. No segundo, encontramos a relação, na contemporaneidade, entre uma nova modalidade de aparecimento do ideal — o ideal de bem-estar — e o fracasso desse ideal diante da insistência da pulsão. Os paradigmas contemporâneos de avaliação e controle são questionados, no terceiro artigo, que aborda, no contexto de uma política dita de defesa social, que responde aos protocolos da gestão e da ordem, a afirmação de que a psicanálise pode responder sem renunciar aos seus instrumentos e à sua orientação pelo singular.

Luís Tudanca e Simone Souto nos oferecem suas contribuições emEncontros.

A intervenção de Tudanca foi pronunciada em atividade extraordinária do Núcleo de Psicanálise e Direito, que recebeu esse colega da EOL para uma discussão sobre a política pensada a partir da psicanálise ou, ainda, da política da psicanálise que o autor chama de “uma política do sintoma”. Destaca que uma política do sintoma aponta para uma intervenção “impolítica” do psicanalista sobre o sintoma social, uma intervenção indireta, de lado, por um meio-dizer. Ao esclarecer a categoria do impolítico, vamo-nos aproximar novamente do tema do feminino, pois ele afirma que “o impolítico é o que aponta ao não-todo sustentado na lógica feminina, que é por outro lado a lógica com a qual Lacan pensa a posição do analista, mais do lado da lógica feminina, quer dizer, do não-todo, que do lado da lógica masculina, que aponta ao todo.”

A apresentação de Simone teve lugar nas Lições introdutórias sobre o tema da angústia, que ela aborda a partir dos mecanismos de formação dos sintomas na neurose obsessiva, em cuidadoso retorno a Freud, como convém ao propósito das lições. Convida à frequentação dos textos referenciais sobre o tema, bem como ao espaço de introdução às questões fundamentais da psicanálise.

Finalmente, De uma nova geração apresenta dois trabalhos de alunos do Curso de Psicanálise, produzidos ao final do ano de 2011 e que, mais uma vez, vêm demonstrar a vitalidade de sua transmissão.

Seguimos com o propósito de proporcionar aos nossos leitores textos que contemplem teoria e prática, conceitos fundamentais e aplicação, reflexão e formalização. O espaço está aberto à colaboração daqueles que se sentirem provocados a dele participar.

Boa leitura!

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