Almanaque No 13

Função tóxica na clínica da psicose: remédio e/ou ruína?

Fabián Naparstek

Sérgio de Mattos: Estamos aqui, hoje, no Freud Cidadão, instituição de saúde mental de Belo Horizonte, dando continuidade às atividades do Ateliê de Pesquisa Psicanalítica desenvolvidas neste semestre. O Ateliê vem pesquisando o tema psicose e toxicomanias, e, hoje, contaremos com a presença de Fabián Naparstek, que vem trabalhando muito cuidadosamente essa questão nos últimos anos. Passo a palavra a Fabián, e, a seguir, abriremos espaço para perguntas.

Fabián Naparstek: Vocês estão fazendo uma investigação em torno das toxicomanias e das psicoses. Vou falar a respeito de alguns pontos que venho trabalhando, especialmente sobre as elaborações que fiz em meu livro. O primeiro ponto, importante para as discussões atuais no campo freudiano, é que a tese da ruptura com o falo não serve para pensarmos as psicoses, pois, nesse caso, a ruptura é anterior e estrutural. A esse respeito, podemos nos remeter aos casos inclassificáveis e à noção de psicose ordinária, pois ela nos traz novas perspectivas para a clínica e abre caminhos para pensarmos as psicoses, não como uma ruptura, mas como modos de enlaces e desenlaces com o Outro. Essa maneira de pensar é um bom modo de entendermos as toxicomanias: como enlaces e desenlaces com o Outro, mesmo que, em alguns casos, a partir mesmo da droga. Em alguns casos, a própria droga pode ser uma maneira de enlaçar-se ao Outro. A partir da teoria dos “inclassificáveis”, nós devemos repensar as psicoses e as toxicomanias, principalmente a partir do último Lacan.

Outro ponto que trabalhei em minha tese de doutorado, em Paris, é a diferença entre a paranoia e a esquizofrenia. Pude perceber, através dessa investigação, duas maneiras diferentes, dentro das psicoses, de uso da droga. A partir da ideia de Miller, que ele próprio retira de Lacan, sabemos que o paranoico localiza o gozo no Outro, que o gozo vem do Outro. No caso da esquizofrenia, o gozo localiza-se ou retorna no corpo. Isso permite diferenciar duas maneiras de retorno do gozo e, portanto, duas maneiras de responder a esse retorno. Se o retorno do gozo vem do Outro, encontramos, em alguns pacientes paranoicos, o uso da droga como uma resposta que está atrelada ao significante. Por outro lado, muitas vezes, a droga é usada como uma maneira de pacificar, de acalmar o corpo, como um remédio corporal. Éric Laurent também faz referência a esses casos e não só se refere ao uso da droga, mas às toxicomanias de um modo geral.

Acompanhei um caso de um menino que vem ao hospital apresentando um quadro de mania que persistia há 10 dias. Ele não parava de caminhar pela rua, sem comer, sem tomar banho, e foi encaminhado ao serviço de toxicomania, porque dizia ser um toxicômano, mas, quando o psicólogo pergunta o que ele consumia, ele responde que não consumia nada: “Não uso nada”. O menino não consumia nenhuma substância. Então, ele explica que andava pela rua sem parar, não sabia há quanto tempo. Ele avistou um cartaz que dizia “toxicomania”, e, para ele, foi o mesmo que concluir “eu sou toxicômano“. Nesse momento, ele se identificou com o significante toxicomania, e isso serviu para que o menino saísse do quadro de mania. Recomendei, em supervisão, que o psicólogo o aceitasse como um toxicômano, pois ele havia tomado um significante da época atual que poderia frear a mania. Anos depois, disseram-me que ele se havia transformado em um ex-toxicômano e que ajudava os novos toxicômanos, apesar de nunca ter consumido nada.

Essa foi uma maneira que ele encontrou de “frear o Outro” ao se identificar ao significante toxicomania. Em Buenos Aires, durante uma época, havia uma discussão em que se pensava que deveríamos “desindentificar” o toxicômano de “ser um toxicômano”. Essa é uma discussão que merece prudência, pois, em muitos casos, uma identificação ao “ser toxicômano” pode ser uma resposta subjetiva que o sujeito encontra para responder a uma invasão de gozo que vem do campo do Outro.

Em outros casos, pode ser diferente. Um esquizofrênico pode consumir a droga para diminuir os pensamentos. Já relatei, em outro momento, o caso de um menino que usava cocaína para que o seu órgão sexual não se excitasse. Ele tentava driblar esse efeito de excitação de seu corpo e usava a droga para isso e somente isso, sem ligação significante. Isso abre um campo de investigação importante para entendermos os diferentes usos que o psicótico, principalmente o esquizofrênico e o paranoico, pode fazer da droga, diferentes modos de resposta à invasão de gozo.

Outro ponto importante para investigarmos é o diálogo que temos empreendido atualmente com a psiquiatria. Comumente se diz que a toxicomania esconde, “tampa”, a estrutura subjetiva. É muito comum que, em muitas clínicas, psicanalistas e psiquiatras falem de “limpar” a toxicomania, através da abstinência, para encontrar a estrutura subjetiva, com a ideia de que, se cessar a droga, vai aparecer a estrutura.Tenho uma posição muito diferente. No grupo TYA, do qual faço parte, e em minha tese de doutorado, não trabalhamos a partir dessa perspectiva. Penso que é preciso fazer um diagnóstico da função que a droga tem para cada sujeito, que é o que possibilita localizar um diagnóstico estrutural. Isso certamente não é fácil, nem rápido, mas a função que a droga tem para um sujeito permite localizar a estrutura e o diagnóstico de estrutura também. Ainda mais, penso que, para cessar a droga e levar o sujeito à abstinência, é preciso muito cuidado e prudência, pois, se fazemos cessar a droga, podemos nos deparar com o desencadeamento de uma psicose. Quando um sujeito busca a droga, ele procura uma solução. Uma solução que pode ser equivocada, mas é a que ele encontra. O que o analista precisa entender é que é preciso prudência para diagnosticar a função da droga para aquele sujeito e pensar o que seria melhor para ele. Se vamos fazer cessar essa solução, é preciso encontrar outra que possa tomar o lugar da droga, e que o sujeito mesmo vai ter que inventar.

A minha tese central é a de que a droga tem uma função singular para cada sujeito. É uma tese a partir do último Lacan, que considera esses usos particulares de cada sujeito como um uso sintomático da droga. Pensando, portanto, o conceito de sintoma a partir do último ensino de Lacan é que o primeiro diagnóstico que temos que fazer quando escutamos um sujeito toxicômano é precisamente a partir da determinação da função da droga para esse sujeito.

É um trabalho a mais, principalmente, nos hospitais e nas clínicas, porque isso nos permite pensar que não há nada mais diferente de um toxicômano do que outro toxicômano, o que vai contra toda uma cultura da saúde mental que considera que um toxicômano é igual a outro. Muitas clínicas e hospitais estão ancorados na ideia do consumo. É muito comum encontrar, em algumas comunidades terapêuticas, a separação do toxicômano que consome cocaína daquele que consome maconha ou álcool. O consumo de heroína não é habitual no Brasil e na Argentina, mas, na Europa, são separados, também, aqueles que consomem heroína. Nós pensamos que uma pessoa que consome cocaína pode consumi-la de uma maneira totalmente diferente de outra pessoa que consome a mesma droga.

Uma clínica tem que trabalhar a partir da diferença de cada sujeito. É muito comum, nas comunidades terapêuticas, que todos os pacientes sejam convocados a fazer as atividades propostas: eles tem que fazer esporte, literatura, grupo de leitura, de reflexão, etc. Em uma ocasião, perguntei à coordenadora de um grupo por que motivo ela esperava que o paciente viesse até o seu grupo, o que ela queria alcançar com esse paciente singular. Ela se queixava de que havia um paciente que ia ao grupo de reflexão e não queria refletir. Então, se não queria refletir, era preciso dizer ao paciente que ele teria que ir embora. Eu disse que, para esse paciente, podia ser muito bom se ele ficasse no grupo escutando a reflexão dos outros, e que não havia nenhuma contraindicação para deixá-lo participar.

E o último ponto é uma discussão que diz respeito à época atual. Em minha tese de doutorado, afirmei que há uma relação muito estreita entre a época atual e as psicoses, mas não podemos dizer simplesmente que a época atual está maluca. Não se trata disso. O que quero dizer é que há uma relação estrutural entre a época atual e as psicoses e, ao mesmo tempo, há um empuxo ao consumo como um único modo de se fazer frente ao mal-estar da cultura, ao mal-estar da civilização. Seria interessante fazer uma investigação dessa relação entre a época atual e a toxicomania, principalmente quando pensamos na ideia já difundida por Ernesto Sinatra de que somos todos toxicômanos, somos todos consumidores. Assim, teremos que fazer uma diferenciação entre a época dos consumidores e o que pensamos que é a toxicomania enquanto tal.

Adriana de Vitta: Temos nos ocupado do seu texto e das suas elaborações, no Freud Cidadão, para pensarmos a direção do tratamento dos pacientes que frequentam a instituição. Temos nos apoiado no diagnóstico da função da droga para cada sujeito, como premissa básica no tratamento, o que também permite localizar o diagnóstico estrutural, como você nos esclarece. Temos trabalhado com sujeitos esquizofrênicos, que fazem uso excessivo de alguma substância, e nos chama a atenção a precariedade das soluções que encontram. Como um paciente cujas soluções são tão fugazes que já chegamos a denominá-las de “castelos de areia”. Isso causa muita angústia na equipe, que, com seus ideais de resposta ao tratamento, acaba por se cansar e, muitas vezes, até contribui para esse desenlace. O que temos pensado, basicamente, é que a relação da droga com o sexual deve ser algo priorizado em nossa escuta. O sexual, interrogando o corpo, provocando esse corpo, leva esse sujeito ao consumo. Como dar lugar para que esse sujeito fale desse incômodo, tirando o olho da regulação e focando naquilo que é tóxico para ele próprio? Sérgio de Mattos nos trouxe uma questão importante, que é a possibilidade de concentrarmos nossas intervenções a partir da escuta do delírio e daquilo que o sujeito traz como solução para a vida, o que fica um pouco de lado quando a equipe entra com seus ideais normalizadores. Queria saber sua opinião sobre isso.

Fabián Naparstek: Efetivamente, na esquizofrenia, a solução é sempre muito fugaz e, comumente, dura muito pouco tempo. É uma coisa muito difícil de encontrar, na esquizofrenia, uma solução que servirá para toda a vida. É preciso fazer um trabalho contínuo e, em muitos casos, nós utilizamos, na esquizofrenia, especialmente, uma terapia de substituição. Não é uma política de substituição, mas devemos observar que, em certos casos de esquizofrenia, há certas drogas que são usadas com um objetivo específico, por exemplo, é muito habitual que alguns esquizofrênicos consumam maconha para frear o pensamento. Em alguns casos, nós, psiquiatras, damos ao esquizofrênico uma medicação que pode ser melhor que a maconha. Se o sujeito encontrou essa solução, que seja ela. Na esquizofrenia, a solução será sempre uma solução temporária, e eu sempre digo que “dura o quanto dura”. Enquanto dura, dura, e quando acabou, acabou.

Camila Nuic: Quando você diz que é preciso distinguir “Todos somos toxicômanos”, que é quase um axioma da nossa época atual, da toxicomania enquanto tal, fiquei pensando se esta última efetivamente existiria. Essa seria minha primeira questão, e a segunda diz respeito ao uso maníaco de uma droga. Nesse caso citado por Adriana, esse sujeito, um esquizofrênico, faz uso maníaco do crack. Em outros casos, o uso é mais localizado, não é compulsivo, como observamos em alguns casos de neuroses.

Fabián Naparstek: Eu falei, em outro momento, de uma ideia que é também trabalhada por Éric Laurent, ao fazer referência a um termo da psiquiatria: monomanias. Éric Laurent fala de monotoxicomanias, termo que busca marcar formas localizadas de consumo. Este não seria um consumo de qualquer coisa, de qualquer substância, em qualquer momento. É um consumo localizado que, efetivamente, em algumas psicoses, não se liga ao delírio ou a um uso em particular, como anestésico para o corpo, e isso funciona somente com uma só droga. Por exemplo, um rapaz que consumia uma medicação que era um derivado de morfina. Esse rapaz sofreu um acidente de carro, teve um trauma muito grande e teve que passar por uma longa cirurgia. No momento posterior à cirurgia, os médicos prescreviam morfina para alívio da dor ou uma medicação que continha morfina. Depois de toda essa experiência, vimos que esse rapaz se transformou em um monotoxicômano desse mesmo medicamento. Somente desse medicamento, pois ele não consumia cocaína, nem crack, nem maconha. Era como se o rapaz estivesse, a todo o tempo, com o trauma presente, como se não houvesse uma maneira de elaborar o trauma, então, seguia consumindo o mesmo medicamento contra a dor do trauma. Esse rapaz havia desenvolvido uma monomania, uma mania de consumir muito esse medicamento, mas somente esse. Um consumo localizado.

A segunda pergunta, sobre a “toxicomania enquanto tal”, a verdadeira toxicomania, acho que isso não existe. A toxicomania começa na cultura, no momento em que a ciência descobre a síndrome da abstinência. É um momento pontual da história do consumo das drogas. O homem consome drogas há milhares de anos e não havia a toxicomania. Quando a ciência descobre a síndrome de abstinência, a ciência chama isso de toxicomania. Em nome da ciência, no momento em que se fala da toxicomania, começam a existir muitos toxicômanos. Como na época atual, em que muitos têm ataques de pânico, que é uma enfermidade nomeada por Freud como neurose de angústia, e, agora, todo mundo fala de ataque de pânico. E, assim, para todos que vão aos hospitais com sintomas de aceleração e excitação, o médico fala de ataque de pânico. É a ciência que inventa um nome, mas, em nome da ciência, o sujeito mesmo se identifica ao nome de toxicômano, e, assim, ele se diferencia. É o mesmo que eu afirmei sobre a função da droga para cada sujeito. Uma coisa é o nome que a ciência confere a uma determinada prática, e outra coisa é a maneira que cada sujeito tem de ligar-se a essa droga. Nas psicoses, é muito comum encontrar, nas monomanias, uma forma de resolver um trauma, uma maneira de se ligar ao Outro.

Helena Greco: Se considerarmos o último Lacan e a ideia de engates e desengates com o Outro, até que ponto essa tese da ruptura com o falo ainda é válida para pensarmos tanto a toxicomania na neurose quanto na psicose, e como poderíamos pensar esse uso maníaco em relação às psicoses ordinárias?

Fabián Naparstek: As psicoses ordinárias têm, como diz Miller, duas caras, dois aspectos. As psicoses ordinárias são muito mais delicadas que as psicoses extraordinárias, muito mais frágeis, mas, ao mesmo tempo, são muito mais elásticas, mais flexíveis. Há um provérbio francês que escutamos também na Argentina que pode ser útil aqui. Existem aquelas árvores que são muito grandes, muito fortes, que precisam ser golpeadas com um instrumento para parti-las ao meio. O que é diferente da cana-de-açúcar, por exemplo, que é muito frágil, de forma que, quando bate um vento, ela cai, mas, no outro dia, ela se levanta normalmente, pois ela é muito mais flexível.

A ideia de Miller é que as psicoses ordinárias têm muito mais flexibilidade. Tem a possibilidade de desenganchar e, ao mesmo tempo, no outro dia, se reenganchar. As psicoses ordinárias apresentam características que, por sua estrutura, não podemos falar de ruptura, como diz Lacan, não há um antes e um depois do desencadeamento. O Lacan, da primeira época, pensava que o momento do desencadeamento marcava a vida do sujeito com um antes e um depois. No caso das psicoses ordinárias, há momentos diferentes que podem se envolver. É muito mais flexível, nesse sentido, e mostra que algumas toxicomanias têm essa flexibilidade, que o terapeuta deve saber utilizar, para orientar o tratamento. É importante considerar o termo mania, pois a Rede do Campo Freudiano o conserva. Primeiramente, é um termo que vem da psiquiatria clássica, mas a ideia de Freud, assim como a de Lacan, é que a mania é uma ruptura com o Outro. Seja uma mania porque o sujeito consumiu uma droga, seja uma mania por um episódio maníaco. O que foi nomeado como episódio maníaco é o momento em que se pode romper com o Outro.

Então, quando falamos de algum episódio ou de uma monomania, pensamos que não se trata de uma ruptura total com o Outro. Há uma prática, um consumo excessivo da droga, mas dentro de certos limites que marcam esse consumo. Isso não é mesmo que falarmos da mania como uma ruptura total com o Outro. A monomania tem essa característica, há um excesso, mas ela tem uma forma limitada.

Falei, em Belo Horizonte, na XVII Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção MG, da festa totêmica como um exercício limitado. É uma mania, mas que dura um tempo preciso. Acontece no momento em que há um excesso que vem do outro e, ao mesmo tempo, é o outro mesmo que organiza esse excesso. Penso que, em certos sujeitos, há um excesso, mas que está dentro de certo limite, que se permite regular. Portanto, acho que, em algumas psicoses ordinárias, há um excesso, mas, ao mesmo tempo, ele é limitado. Não é um consumo de tudo, é uma limitação de um excesso, que é diferente da toxicomania, que quer tomar qualquer coisa a qualquer momento.

Sérgio de Mattos: Fiquei pensando em um caso acompanhado por você de um homem que se travestia diante do espelho e que, ao fazer isso, usava cocaína. Você comenta que, nesse caso, a função da droga era fazer desaparecer o pênis, minimizar o tamanho do pênis, de tal modo que ele se sentia menos incomodado em possuí-lo. Trata-se de uma função muito precisa da droga, mas você levanta outra questão: esse sujeito, que já consegue regular seu mal-estar com o órgão através da cocaína e dessa prática que você denomina “empuxo-à-mulher”, comenta que sentia que estava traindo sua própria mulher ao se travestir diante do espelho e quer contar a ela sobre sua prática.Você desencoraja-o e diz para ele que isso é da ordem de sua privacidade, de sua intimidade. Minha questão: parece que, nesse momento, você opera a partir de alguns índices do delírio dele em torno do “empuxo-à-mulher”. Você localiza que esse “empuxo-à-mulher” e a droga formam o arranjo que ele faz para apaziguar o mal-estar, o gozo invasivo. Parece que a intervenção só é possível porque você sabe que, se ele publica, se ele revela para a esposa essa solução, isso vai provavelmente se desarranjar. É um cálculo, você evita isso. Temos discutido, aqui no Ateliê, sobre o valor de localizarmos esses indíces no delírio de um sujeito que, se, por um lado, permitiriam entender a função da droga, por outro lado, nos dariam a possibilidade de não operar somente regulando o consumo, mas também moderando um certo modo de o sujeito lidar com aquilo que é da ordem do delírio, e que isso seria uma intervenção possível e desejável na maioria dos casos.

Fabián Naparstek: A neurose é uma maneira de localização do gozo. Uma maneira neurótica, mas uma maneira. O recalque indica que o gozo tem que estar escondido em algum lugar e que a lei funciona em outro lugar. A neurose separa a lei do gozo, então, só se pode gozar de uma maneira localizada, mas, ao mesmo tempo, de uma maneira escondida. O que Freud descobriu é que todo mundo goza, mas o neurótico goza na obscuridade, em lugares escondidos.

A diferença em relação às psicoses é que, nesse caso, o gozo invade por todos os lados, não há um lugar para o gozo e há uma invasão. Se o psicótico pode fazer uma pequena localização de gozo na intimidade, acho que é preciso preservar. Temos que encontrar um lugar no qual preservar o gozo, uma intimidade do gozo. Efetivamente, minha intervenção foi na direção de preservar a intimidade do gozo. Além do que, esse paciente estava em um momento em que não podia parar de consumir cocaína e que estava encontrando uma maneira de frear o consumo e, ao mesmo tempo, uma maneira de localizar o gozo. Bem, ele passou de uma situação em que consumia todos os dias sem parar, desaparecia de sua casa, de sua mulher, de sua família, para poder começar a fazer uma prática muito específica que é a de travestir-se para se transformar em uma mulher. Uma maneira muito localizada. Travestia-se sozinho, em frente ao espelho, e poderia manter isso dentro de uma intimidade.

A intimidade é uma maneira de preservar a localização do gozo. A definição de intimidade é essa: um gozo localizado. Quando não existe mais a intimidade, o gozo começa a aparecer por todos os lados, e isso é próprio da época atual. O reality show é uma maneira de ir de encontro à intimidade. A importância não é tanto o pudor, senão uma espécie de localização. O sujeito pode localizar o gozo em um momento, em um lugar específico. Por isso, muitos fenômenos das psicoses não têm a ver com a intimidade. Pelo contrário, o que há é uma perda de intimidade, e os problemas com vizinhos são muito comuns, por exemplo, nos paranoicos, que os transformam em perseguidores, como se não houvesse uma intimidade, assim como o fenômeno de telepatia, como se não pudesse ter uma intimidade com o próprio pensamento. Todos esses são fenômenos próprios da psicose. Se o sujeito não encontra uma solução para localizar o gozo, isso é problemático, porque é ao mesmo tempo em que se localiza o gozo, que se torna possível ao sujeito se ligar ao Outro. Quando o sujeito consegue localizar o gozo em algum lugar, é que pode, em outro lugar, falar com o outro.

Se o gozo aparece por todos os lados, é impossível falar com o outro. Esse homem mostra muito bem como, por um lado, é possível ter um gozo localizado e, em outro lugar, poder ter uma relação com essa esposa. Isso é muito importante, porque a intimidade é uma maneira de dizer não a essa esposa. Há algo que não, há algo que sim. É uma maneira de manter esse laço com o Outro e ao mesmo tempo de manter uma localização de gozo. Acho que isso é como uma regra: se há uma maneira de localizar a intimidade, há, ao mesmo tempo, uma maneira de se relacionar com o outro, que não é Outro, que sabe tudo, do qual é preciso desligar-se.

Letícia Soares: Quando começamos a pensar na proposta de pesquisa deste Ateliê, nos lembramos muito de uma demanda frequente da comunidade, principalmente dos planos de saúde, que é a procura por grupos específicos de tratamento para toxicômanos. A questão era saber, principalmente, em quais dispositivos a instituição se apoiaria para tratar a toxicomania. Nós recuamos, a princípio, frente a essa proposta de grupos de conversa para toxicômanos, apoiando-nos um pouco na ideia de deslocarmos o significante toxicômano. Gostaria de ouvir sua opinião sobre isso e como uma instituição, orientada pela psicanálise, poderia fazer uso desse dispositivo.

Fabián Naparstek: Podem-se fazer todos os grupos possíveis, o grupo não é o problema. O problema é como se usa o grupo na instituição. Pode-se atender um grupo que fala da toxicomania, atender a família ou o que seja. O problema é como cada sujeito vai fazer uso desse grupo. Para que propósito vai um sujeito a um grupo? Se há um diagnóstico da posição subjetiva, pode-se pensar a partir daí por que o sujeito se liga a um grupo ou não. Se for ao grupo, com que propósito ele vai? Isso é o mais importante. O grupo pode ser um dispositivo que pode funcionar para alguns sim, mas para outros não, e, no momento em que o sujeito entra no grupo, é muito importante saber o que se quer desse sujeito nesse grupo, seja qual grupo for.

Dei um exemplo anteriormente de um menino que se mantinha num grupo em silêncio, e eu falava com o coordenador que, para esse sujeito, era muito importante que ele fosse ao grupo somente para escutar, que isso era muito bom para ele e que, a partir daí, ele poderia fazer uma elaboração de seu problema e de sua posição entre outros toxicômanos. Era uma solução para ele ir a esse grupo, e quando o coordenador “puxava” para que ele falasse, o problema surgia. Falei para o coordenador que aquele paciente não estava no grupo para falar. O problema não é tanto que tipo de grupo é, senão como cada sujeito vai participar do grupo que existe.

(1) Este texto é uma transcrição do seminário proferido por Fabián Naparstek em maio de 2013, com algumas modificações que não alteram o sentido do que foi dito, para conferir ao leitor uma melhor compreensão. Trata-se de uma publicação autorizada pelo autor, sem a sua revisão. Responsáveis pelo Ateliê: Adriana de Vitta, Camila Nuic, Letícia Soares, Marisa de Vitta, Sérgio de Mattos (coordenador). E-mail: freudcidadao@gmail.com.

Fabián Naparstek

Psicanalista, membro da EOL e AMP. E-mail: fabiannaparstek@hotmail.com.

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