Almanaque No 18

Grandeza e miséria de um nome

YVES DEPELSENAIRE

O patronímico desse sujeito condensa toda sua neurose. Alguma coisa como uma “falsa ascensão”[i], a combinação de um nome plebeu e um aristocrático, ao mesmo tempo, como é nos célebres (Giscard D’Estaing e Galouzeaus de Villepin).

 

Marca de uma distorção da verdade, índice de um erro no registro do bem-dizer, o memorial de uma infâmia, aos olhos da história. Fonte de vergonha, por longo tempo ele foi reduzido pelo sujeito a sua primeira parte, tipo de letra encarnada, não consentida, contrastante, estranha, com sua distinção de linguagem e costumes.

 

Sobriamente elegante, pensativo, cortês, culto, trata-se de um homem na casa dos quarenta, oficial sênior em uma instituição internacional. Ele decide empreender uma análise por arrastar um rancor amargo após uma ruptura sentimental que retorna depois de muitos anos e, porque em sua função, era confrontado por conflitos difíceis com seu país de origem, que o incomodavam.

 

O sucesso profissional desse único homem, entre os irmãos, pela dolorosa exigência parental de estar à altura de seu nome o exclui precocemente das brincadeiras com sua três irmãs para permanecer em sua mesa de estudos. Ele conserva, entretanto, as lembranças alegres de seus primeiros anos passados em um país africano no qual seu pai, diplomata, recebeu o título de administrador colonial após a repressão sangrenta de revoltas. Onde ele foi frequentemente confiado a uma babá cuja afeição contrastava com a frieza maternal. Agora, ele verifica que a história colonial não é sem relação à origem da fortuna da família, que remonta ao tempo do comércio trilateral dos mercadores de escravos entre a França, a África e as Antilhas.

 

Ao se conscientizar de tudo isso durante a adolescência, o sujeito, habitado por uma nostalgia da África, entra em conflito com seu pai e toma horror das aclamações contínuas da nobreza de seu nome próprio, adquirido alhures. Por um longo tempo ele se apresentará usando somente a parte plebeia de seu nome, em que o paradoxo faz ressoar, de modo poderoso, a dimensão de cruz e de impostura. Não escapa, de modo algum, a esse analisante, que seu pai não é mais que um elo, na cadeia de um discurso, como sugere Lacan, quando evoca, no Seminário 2[ii], a herança do pai, como seus pecados:

 

Estou condenado a reproduzi-los porque é preciso que eu retome o discurso que ele me legou, não só porque sou filho dele, mas porque não se para a cadeia do discurso, e porque estou justamente encarregado de transmiti-lo em sua forma aberrante a outrem. Tenho de colocar a outrem o problema de uma situação vital onde existem todas as probabilidades que ele também venha a tropeçar, de forma que este discurso efetua um pequeno circuito no qual se acham presos uma família inteira, um bando inteiro, uma nação inteira ou a metade do globo (p. 118).

 

O sujeito, de fato, acusa menos seu pai de sua participação na administração colonial de que sua falta de reflexão sobre isso e do estilo de enunciação de suas certezas. É desse discurso que ele tenta se separar, esse de seu pai, certamente, mas também o de um bando – a aristocracia, um campo –, a contrarrevolução da Vendée[iii], uma nação que possui um passado colonial mal assumido. Presumivelmente, uma culpa do pai mais diretamente em relação ao prazer sexual está correlacionado a essas condições. Pois é ao preço de sintomas que tornam complicada e até condenam ao fracasso sua vida amorosa.

 

A mulher amada é para ele como Mary Poppins voando com seu guarda-chuva, cena que o levou às lágrimas durante sua primeira ida ao cinema. Nos compromissos arrastados por muitos anos, e, de repente, a quebra das promessas, escolhidas no modelo austero da mãe, que culminaram em relações, pelo contrário, ele se sente obrigado a terminar logo que a mulher esboça sua demanda ou que um compromisso pudesse se estabelecer, isto é, logo que se aproxima a perspectiva de se tornar pai. Ser o último de uma “falsa ascensão” é a maneira como paga a dívida que herdou com seu próprio nome, a neurose por meio da qual ele protesta, como Lacan diz sobre o Homem dos Ratos. Sem pagamento em direito comercial, o protesto é também o ato por meio do qual essa falha é contatada pelas autoridades judiciais. Daí o simulacro de reedição da dívida que constitui para esse analisante o sacrifício de seu desejo de paternidade.

 

Tendo rapidamente desenvolvido em sua análise as coordenadas de sua história, ele sonha, então, em se desvencilhar dela para obter o direito de um outro sobrenome. Ele se vale, para tal, da figura de um antigo vinicultor da linhagem materna – que era uma fonte de vergonha por um momento em que ainda isso era socialmente uma desonra –, que cometeu suicídio, o que não trouxe muitas contribuições.

 

Uma sepultura lhe foi negada no cemitério da cidade, de modo que foi enterrado em um bosque de uma comunidade vizinha. Em sua infância, o analisante acompanhava, às vezes, seu avô materno em uma caminhada melancólica, durante a qual arrancava as ervas daninhas que invadiam o túmulo. É o nome da comunidade onde se situa esse túmulo anônimo, marcado por uma simples cruz, que ele sonha carregar.

 

Em apoio a um desejo do qual ele se sente despossuído, ele faz um Nome do Pai surpreendente, nome do pai deserdado, a imagem do túmulo do ancestral arruinado, exilado, sem carregar culpa de qualquer má conduta. A vinha de que derivou seu sustento tinha sido destruída pela filoxera.

 

O que dizer dessa nova Nominação? Processo de inocência? Mortificação decidida? Ele não trabalhava em análise essa solução imaginária e, a princípio, eu, erroneamente, me preocupei um pouco. Se ele renuncia a ela, é, de fato, que através dela, ele pode perceber de um novo modo seu nome odiado. A parte aristocrática do nome designa um lugar chamado exatamente como o pseudônimo que ele visava. Ele é reduzido a um nome comum, de uma comunidade qualquer, precisamente. Em seu sobrenome reduzido a qualquer significante, de repente deixa então de ressoar o pecado que a herança pesou sobre os seus ombros. O alívio dos sintomas advém; a tensão que viveu em suas relações com a família, e também em sua vida profissional, se dissolve e se descola de seu ressentimento tenaz em relação às mulheres. Em relação à paternidade, é um desejo que não parece proibido; a questão, em todo caso, agora está aberta para ele.

 

[i] Tradução livre da expressão original “Faux de la Haute Levée”.

[ii] LACAN, J. (1954–55) O seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

[iii] Relativa a região francesa Vedée.

 

YVES DEPELSENAIRE

Tradução: Lilany Pacheco Revisão: Juliana Sander

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