Almanaque No 17

Comentário

Fernanda Otoni B-Brisset
FOTO: FREDERICO BANDEIRA

FOTO: FREDERICO BANDEIRA

O relatório de Lilany traz orientações preciosas que articulam a clínica da toxicomania hoje e o que ela distingue como o campo político das adições. A distinção entre toxicomania e adição é um trabalho de investigação que a rede TyA tem feito e que nós acompanhamos.

Localizar as adições como um campo político me fez pensar que quando Lacan toma a política como um efeito de discurso, ele extrai dessa formulação que o inconsciente é a política. O inconsciente, como discurso do Outro, é um dos efeitos da copulação da linguagem com o corpo. Esse encontro contingente guarda um mistério – o do corpo falante – e determina uma política – a política do gozo. Ao marcar o corpo, o significante, num mesmo golpe, o mortifica e recorta na carne o vivo que anima o psiquismo. Esse encontro produz gozo e define sua orientação. Uma orientação para o gozo é uma das consequências desse encontro do significante com o corpo. Assim, entendo que o inconsciente é a política, o que se verificava mais claramente sob a lógica do inconsciente transferencial, na aproximação mesmo do inconsciente com o discurso do mestre, o lugar de agente dado ao S1.

Todavia, será que o inconsciente é a política ainda hoje, quando evidenciamos na clínica certa mutação no campo simbólico, face ao inconsciente real? Eu guardava essa questão comigo. Como atualizar a leitura dessa assertiva lacaniana com a derrocada dos mestres? Destacar as adições como um campo político parece se abrir a essa investigação. A política continua sendo um efeito de discurso, mas hoje o discurso capitalista é o que buzina nos nossos ouvidos. O direito ao gozo surge como uma marca do cidadão moderno. Os meios de comunicação, a favor desse discurso, ensejam o consumo dos objetos através de uma linguagem não articulada, palavras iterativas, imagens espetaculares, sem apelo à interpretação, mas que ressoam no corpo. Isto parece apontar que os significantes em circulação produzidos pelo discurso capitalista, sem apoio no sentido, se infiltram como um real no corpo, de forma rígida, determinando os modos aditivos do gozo. Na última lição do Seminário Orientação Lacaniana destacou-se  que “o lugar do simbólico não é o espírito, mas o corpo”. Não seria no campo das adições que verificamos que o inconsciente real é a política? Todos adictos, cada um com sua droga, em terra onde o Outro não existe! Um discurso (capitalista), um inconsciente (real), uma política do gozo (aditivo).

Seguindo esta pista – o campo político da adição na era do parlêtre, numa leitura cruzada com o texto do Miller, em direção à adolescência -, vemos como as drogas e as imagens, hoje, participam da construção da adolescência de forma preponderante. O filme Gangues de Hollywwod destacado por Lilany, a partir de um caso real, é exemplar.

O filme, como na vida real, mostra como a eclosão do real do sexual desorganiza o sentido e soluções montadas na infância. O púbere não reconhece mais o corpo próprio, nem o Outro familiar é uma referência suficiente para restabelecer sua unidade. É um momento onde se nota uma desamarração, desentrincação… uma soltura das amarras do gozo estabelecidas na infância a exigir uma reconfiguração. A tendência ao agir se instala.

Miller, não gosta da expressão “desenvolvimento da personalidade”, mas a utiliza para destacar que esse momento é um tempo de indefinição, de impasse, embaraço, à espera de uma  amarração do gozo que foi desinstalado na saída da infância. Dirá quando o narcisismo se reconfigura e que, de Freud a Lacan, a saída da infância é um momento onde, nessa sala de espera de um novo laço, dentre os objetos de desejo, o corpo do Outro surge de forma privilegiada, passando a jogar sua partida na economia do gozo.

Freud, em “A psicologia do escolar”, mostra como o adulto aí era tomado como modelo que poderia servir nessa reconfiguração. Prevalecia em Freud uma aposta de que a criança desorientada pelo despertar da adolescência poderia retomar a estrada principal a partir do encontro marcante com um Outro de fora, no caso, um adulto.

Porém, os tempos são outros. É para dizer dessa nova era que Miller, lendo Robert Epstein, vai sublinhar que os adolescentes, na história, foram considerados como adultos, viviam entre eles e podiam tomá-los como “modelos”. Contudo, agora, “fazemos adolescentes viver entre eles, isolados dos adultos, numa cultura que lhes é própria, suscetíveis a modas e entusiasmos”.

Lilany, nessa direção, enfatiza o que considero uma das teses do relatório: Na atualidade constata-se que em lugar da escolha de um objeto articulado ao quadro da realidade erótica representada pela fantasia, o que se destaca é a prevalência de um gozo autista, da iteração da pulsão e sua vocação aditiva.  Evidência clínica que verifica que o gozo habita o corpo próprio. Os destinos da pulsão, hoje, em muitos casos seguem bem instaladas nesse curto-circuito, um circuito que não passa pelo Outro e faz do corpo próprio um Outro corpo para o sujeito.

Vejamos o filme. A princípio, não há adultos nele. Tem algo que ali se passa que testemunha esse deserto do adulto entre os jovens. Começa com um menino sem jeito, com um corpo que parece escapar de si. É excluído dos grupos. Até o encontro com uma menina. Não é o apelo erótico que aí faz o laço, mas o convite a extrair dos adultos os seus gadgets. Primeiro os carros largados, depois as casas esvaziadas de modelos famosas. Visitam seus closets, experimentam a transformação do corpo próprio num outro corpo e saem de lá vestidos delas. Imagens e mais imagens. Postam fotos e mais fotos de si nas redes sociais. Fazem bazar com os objetos, parecem populares. Acumulam malas, usam e espalham os objetos pela casa, e se acham: são muitos os espelhos. Interessante é que junto à montagem dos corpos com os objetos desses modelos famosos, os  adolescentes vivem uma rotina atravessada por imagens e objetos, e ainda as drogas.

Jésus Santiago considera que “mesmo na experiência do espelho, pode surgir o momento em que a crença na imagem contida no espelho enfraquece-se e abala-se e por efeito torna-se alvo de perturbação no corpo.” Esta perturbação, esse resíduo desalojado do espelho, no caso da gangue de Hollywood, parece que era tratada com Louboutin, anestesiando esse pedaço. Assim, os jovens, compulsivamente, retornam várias vezes às mesmas casas, usam a casa como se fosse extensão deles, a cada vez que a celebridade viaja. Eles são elas. E o impressionante do filme é que nenhum adulto sente falta de nada que foi roubado. A gangue segue sustentando a unidade do corpo nessa amarração entre objetos e imagens, e Louboutin, compulsivamente. Até que uma câmara de TV captura a imagem da gangue, por acaso, e o adulto entre em cena na forma da polícia. A montagem de corpo cai da cena, de forma singular para cada um.

Miller nos convida a estudar a forma lógica da imiscuição, hoje. E é aí que uma pergunta do relatório pode nos orientar. Até que ponto a adesão ao campo das imagens e seus objetos virtuais, na era do outro que não existe, para alguns casos, denota um esforço para encontrar um ponto de amarração para o gozo? Lilany sugere que nossa clínica parece confirmar que pela adição aos objetos e imagens ofertados pelo discurso capitalista se faz uma amarração hoje, monta-se um tamborete sobre o qual um corpo se sustenta sem passar pela mensagem do Outro.

Será que na clínica do parlêtre – a clínica com adolescentes a demonstra como nenhuma outra -, certa imiscuição se passa na parceria com o campo político da adição? Poderíamos encontrar a lógica da imiscuição do adulto no púbere, não mais como mensagem como Lacan destaca no caso de Gide, mas um adulto imiscuído através do consumo de sua imagem e objetos, servindo de cabide para fazer um corpo no laço social?

Não seria uma saída como a de Gide, mas, em muitos casos, parece ser uma solução para o impasse, ainda que frouxa, uma orientação para a amarração do gozo. A lógica da imiscuição do adulto joga sua partida, com vigor, mas  perguntaria se o adulto-modelo,  hoje, também se imiscui  através de imagens e objetos e não só por sua mensagem?

Um modelo biruta, né?  Modelo século XXI.

[1] Comentários ao relatório: Drogas e imagens – novas adições, de Lilany Pacheco apresentado na XVI conversação do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais

Fernanda Otoni B-Brisset

Fernanda Otoni B-Brisset. Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), Membro da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). E-mail:fernanda.otonibb@gmail.com

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