Almanaque No 16

O sintoma na encruzilhada dos caminhos: um caso extremo de recusa

Pierre Naveau

Pierre Naveau

Propomos aqui apresentar o caso de um jovem de 15 anos, Adrien, que decidiu persistir numa posição de recusa radical. Seu sintoma é ser, inteiramente, recusa. Ele faz de si mesmo o signo de que há algo que não funciona neste mundo, que o mundo vai mal.

 

I Joyce o sintoma

 A fim de abordar esse caso extremo utilizando um vocabulário renovado, escolhemos tomar como referência o ultimíssimo ensino de Lacan e passar pela leitura e comentário de dois de seus textos que foram publicados por Jacques-Alain Miller com o mesmo título: “Joyce o sintoma”. De fato, esses dois textos evidenciam mais particularmente duas noções inéditas: portemanteau[1] e escabeau[2]. Parece-me ainda mais importante utilizá-las na medida em que esses dois termos do discurso corrente nos remetem a dois instrumentos que têm, cada um, sua utilidade.

 

O portemanteau

Tomemos como ponto de partida a definição de sintoma dada por Lacan em seu Seminário RSI, por ocasião de sua aula de 18 de fevereiro de 1975. Lacan destaca que “o sintoma reflete no real, o fato de que algo não funciona, onde? – não no real certamente, ele esclarece, mas no campo do real” (1975, p. 105). Lacan faz alusão, me parece, à distinção que ele introduziu entre os três campos do real, do simbólico e do imaginário, que se entrecruzam em um nó específico – o nó borromeano. Ele indica, então, que há “coerência” (Ibid., p. 106), como ele diz, entre o sintoma e o inconsciente. A esse respeito, ele argumenta que o sintoma se define pela “maneira como cada um goza do inconsciente, na medida em que o inconsciente o determina” (Idem). É, portanto, notável que Lacan, em sua conferência de 16 de junho de 1975, venha a afirmar que, paradoxalmente, Joyce, o sintoma, é também Joyce enquanto “desabonado do inconsciente” (LACAN, 1975, p. 1610). Joyce é um sintoma, na medida em que o vínculo entre o sintoma e o inconsciente é rompido. O sintoma está, no caso de Joyce, desconectado do inconsciente. Portanto, uma questão se coloca: do que Joyce goza? Para responder a essa questão, Lacan não nos remete ao início da vida de Joyce, isto é, ao seu livro inaugural, no qual ele narra sua vida, Retrato do artista. Ele convida seus ouvintes a ler a sua última obra, Finnegans Wake. Cada palavra, ou quase, ele insiste, é um pun[3]. Um pun muito particular, ele esclarece. Muitas palavras não são jokes, chistes, mas o que Lewis Carroll chama em inglês de portmanteau, isto é, “mots-valises[4]” ou “palavras-portemanteaux”. O termo portmanteau aparece, na escrita de Lewis Carroll, no capitulo VI de Through the LookingGlass, quando Alice pede a Humpty Dumpty que ele lhe explique o poema que ela não entende, e que se intitula Jabberwocky (CARROLL, 2010, p. 246). Humpty Dumpty ensina a Alice que uma palavra-portemanteau é uma palavra que contém várias significações, de fato várias palavras. Por exemplo, slictueux significa “flexível, ativo e untuoso” e flivoreux quer dizer “frívolo e infeliz” (Ibid., p. 247-248). Nesse fragmento de frase, que se encontra no início do sétimo capítulo de Finnegans Wake e que concerne o personagem de Shem: “também Shem em pessoa, Doctateur, pegou a recompensa” (JOYCE, 1997, p. 269), fica claro que a palavra doctateur contém, ao mesmo tempo, as palavras “docte, docteur e dictateur”[5]. Podemos, portanto, dizer do poema de Lewis Carroll o que Lacan diz de Finnegans Wake: “leiam as páginas de Finnegans Wake, sem tentar entender. Pode-se ler isso. Se pode-se ler isso (…) é porque sentimos a presença do gozo daquele que escreveu isso” (LACAN, 2007, p. 160). Segundo Lacan, o gozo de Joyce deve ser relacionado, portanto, não ao duplo sentido do joke (chiste), mas às múltiplas significações do pun. Joyce goza do uso que ele faz da palavra-portemanteau.  É, quando ele escreve, sua maneira de gozar da linguagem. Joyce recusa o equívoco da língua que ataria, como no chiste, o laço com o Outro. Joyce diz Lacan “se proíbe de jogar com os equívocos que mexeriam com o inconsciente de qualquer um” (Ibid., 162). Apesar de seus dois nomes fazerem ressoar o riso da alegria, há um abismo entre Joyce e Freud. Desse ponto de vista, Joyce é sintoma, se faz sintoma, porque o que ele escreve não se endereça ao inconsciente do Outro, “não… Concerne em nada”, esclarece Lacan (Ibid., 161), o leitor. “Não há qualquer chance”, acrescenta Lacan, de que o que ele escreve “retenha algo do nosso inconsciente” (Ibid). O laço com o Outro se desfaz. Não se trata de criar um sentido, mas de destruí-lo, de aniquilá-lo. A língua inglesa, como observa Lacan, é, para Joyce, “a língua dos invasores, dos opressores” (Ibid., 162). É uma língua imposta. É por isso que há, para ele, esse gozo destrutivo que consiste em despedaçar a carne de uma língua. O que conta não é o sentido e sim o gozo, esse gozo, diz Lacan, “é a única coisa de seu texto que nós podemos alcançar” (Ibid, p. 163). É, de fato, o que toca o leitor de Finnegans Wake. Ele fica estupefato. O sintoma que Joyce constitui na cultura é rebelde ao sentido. Ele encarna a opacidade, essa estrutura de linguagem que apresenta a particularidade de ser, segundo a definição de Lacan, um real que exclui o sentido (LACAN, 1975-76, p. 20 e p. 34). É por isso que um tal sintoma se situa nesse limite, que é o de um caso extremo. Lacan faz, então, entrar em cena o termo escabelo, quando ele diz que Joyce “reservou (para Finnegans Wake) a função de ser o seu escabelo” (LACAN, 2007, p. 160-161). Assim, Finnegans Wake é o escabelo no qual Joyce se empoleirou mantendo-se à beira do ininteligível! Nessa perspectiva, que se abriu para ele do alto de seu escabelo, seu nome, como ele havia predito, lhe sobreviveu. Como diz Lacan em seu Seminário sobre Joyce, este quebrou o Nome-do-Pai e escolheu o Nome contra o Pai. Ele rejeitou o Pai e preferiu o Nome ao Pai (LACAN, 2007). Ele recusou ser tolo do pai (être la dupe du père).

 

O escabelo

No texto publicado em Outros escritos, que tem igualmente o título de “Joyce o sintoma”, Lacan (2003) destaca o termo escabelo. A palavra escabelo aparece no Retrato do artista, quando Joyce conta que seu pai falou com ele de uma maneira incompreensível no momento em que, precisamente, ele estava assentado em um escabelo: “Stephen estava assentado em um escabelo, ao lado de seu pai, prestando atenção ao seu longo e incoerente monólogo” (JOYCE, 1992, p. 118, tradução nossa). Lacan indica que a arte de Joyce é o resultado, o efeito do orgulho que o levou a subir em seu escabelo de artista e a escrever como ele escreveu.       É nesse sentido que Joyce não é um santo. Pois, diz Lacan, só há santo se quisermos escapar dessa posição extrema (LACAN, 2003, p. 562). O santo é, ele esclarece, aquele que escolhe a escapada (to escape quer dizer, em inglês, “escapar a”) e que se castra de seu escabelo, do escabelo de seu orgulho (Idem). Lacan evoca, a esse respeito, “a castração do escabelo”, o que ele chama a “escabeaustration[6]” (Ibidem, p. 563). O pecado de Joyce, o sin que Lacan acentuou, não é a concupiscência, como o próprio Joyce tende a dizê-lo em seu Retrato do artista, mas o orgulho. Joyce quis se tornar o mestre da língua inglesa com o intuito de destruí-la. O dizer de Joyce, que rejeitou a psicanálise, se diferencia do dizer de Freud e do dizer de Lacan, que se viram, um e outro, às voltas com o desejo do analista. Lacan evoca o dizer de Joyce quando ele afirma que “Joyce queria não ter nada, exceto o escabelo do dizer magistral” (Idem), isto é, de um dizer de mestre. Lá onde o histérico é escravo da linguagem que, tal como uma cisalha, recorta seu corpo, Joyce escolheu ser o mestre dela, para torcê-la a ponto de quebrá-la. Ele não quis que o que ele escrevesse fosse compreendido, ele se manteve à beira do incompreensível. Como Lacan destaca, “à beira do incompreensível é (nesse caso extremo) o escabelo do qual nos mostramos mestre” (Ibidem, p. 566). Para caracterizar a posição de “não-santo” de Joyce, Lacan inventa, assim, a palavra-portemanteau artgueilleusement[7]. Joyce, diz Lacan, escabote[8] através de sua arte. Ele escamoteia a castração do escabelo. Como? Graças a seu savoir faire. Ele tem um saber fazer com a matéria sonora das palavras que o singulariza. Lacan inventa o verbo escaboter: ele “é o primeiro, ele chega até mesmo a dizer, a saber escaboter[9] muito bem por ter levado o escabelo a um grau de consistência lógica onde ele o mantém” (Ibidem, p. 565). Finalmente, a tese de Lacan é a de que um certo gozo da opacidade desperta: “Só há despertar, de Wake, afirma ele, através desse gozo” (Ibidem, 566). Desse ponto de vista, Lacan, aliás, faz uma aproximação entre Joyce e ele mesmo (Idem).

 

A vontade de morrer de um jovem

 O jovem, cujo caso eu proponho evocar aqui, é, como Joyce, um sintoma. Como é que esse sintoma se manifesta? É a essa questão que temos de responder, nos apoiando nas noções inéditas que acabaram de ser expostas.

 

A dita “tentativa de suicídio”

Adrien tem quinze anos. Ele ficou hospitalizado por um ano, em um hospital psiquiátrico, porque fez o que ele chama de “uma tentativa de suicídio”. Eu o encontrei, uma única vez, por ocasião de uma apresentação de enfermos que aconteceu em um hospital-dia para adolescentes. O que Adrien chama de “sua tentativa de suicídio” é, na verdade, algo singular. Ele tinha estocado os medicamentos no armário de seu quarto. Soulian e Prozac. Sua mãe percebeu isso quando o ajudava a arrumar o quarto. Ele os tinha escondido na caixa onde sua mãe guardava sua flauta transversa. Ele tinha decidido se suicidar. Sua mãe descobriu os medicamentos estocados dois dias antes da data que ele tinha escolhido para passar ao ato. A caixa onde sua mãe guarda a flauta tem um fundo falso. Ela teve a ideia de levantar o fundo. Se ela não tivesse pensado nisso, não teria encontrado os medicamentos que ele tinha escondido. Faltou pouco para que ela não tivesse feito isso. Adrien insistiu sobre o caráter contingente do incidente. Se sua mãe não tivesse descoberto os medicamentos, dois dias depois ele teria tomado uma garrafa de água e os teria engolido. Ele pensou em suicidar-se dessa forma quando esteve em um hospital psiquiátrico. Uma adolescente tinha tomado medicamentos. Vinte e cinco, ela contou. Foi por isso que ele escolheu dobrar a dose e estocar cinquenta. Assim, acrescentou, ele tinha certeza de que morreria. Ele pensava ter chegado a esse ponto extremo, que é o da certeza de morrer. Ele apostava, portanto, nessa certeza. Ele tinha feito disso uma aposta. Certamente, como Lacan chegou a dizer, a única coisa de que temos certeza é de que vamos morrer. Mas Adrien queria ser o mestre da certeza de morrer. Estocar os medicamentos em quantidade suficiente significava para ele tornar-se mestre dessa certeza.

 

A rivalidade com o irmão

Adrien tem um irmão mais velho, Damien. Ele não se dá bem com seu irmão. Este é um ótimo aluno, bem sucedido. A pior nota do irmão é sua melhor nota. É por isso que Adrien se considera um fracassado. Eu pergunto se ele reconhece em si uma qualidade. Ele responde que não tem nenhuma. Eu arrisco então e digo que, ouvindo-o dizer o que se passa com ele, percebe-se imediatamente que ele é um rapaz inteligente. Ele retruca rapidamente: “De jeito nenhum, eu não sou inteligente”. Mostro, então, que ele não aceita que as pessoas reconheçam nele alguma qualidade. Ele diz que se ele faz um julgamento tão severo de si mesmo é porque ele se compara com seu irmão. Aliás, um colega um dia lhe disse: “Você é realmente um idiota!” Ele viu pelo seu olhar e pelo tom de sua voz que esse colega realmente pensava o que dizia. De fato, Adrien pensa que ele é um cretino. Ele poderia ter dito: Eu sou um tolo ou Eu sou um imbecil, ou ainda Eu sou um idiota. Mas Adrien gosta de dizer Eu sou um cretino (Je suis um crétin), porque, como ele mesmo explica, Adrien rima com crétin (“Adrien le crétin, ça consonne”).

 

Seu pai e sua mãe não gostam dele

Seu pai é engenheiro. Sua mãe é jurista. Adrien diz, de forma surpreendente, que eles são cool. Eu pergunto: “Seu pai gosta de você?” “Não!”, ele me responde. Seu pai e ele nunca se beijam, nem para se cumprimentar nem para se despedir. Eu pergunto se alguma vez seu pai o abraçou. Ele também responde que não. Ele não conversa muito com o pai. Se ele faz uma pergunta, o pai logo se irrita. Adrien diz que não gosta de sua mãe. Eu pergunto se ela fica preocupada com o que acontece com ele. Ele me responde que não. “Ela fica transtornada?” “Não!” “Ela fica assustada?” “Não!” “Sua mãe lia histórias quando você era pequeno?” Qual não foi minha surpresa quando ele me respondeu que ela lia para ele e para o irmão o Código Civil! Foi então que Adrien disse uma coisa impressionante. Sua mãe, que é jurista, lhe disse: “Quando você tiver dezoito anos, você será livre para se matar.” Em outros termos, ela lhe dá a entender que, quando ele tiver dezoito anos, será responsável por seus atos. Sua mãe estará livre dessa responsabilidade. Estupefato, saiu do fundo do meu coração e eu gritei: “Sua mãe é completamente louca!”. Mas Adrien, no auge da entrevista, perde a paciência. Ele diz: “Eu não estou nem aí, nem para a minha mãe nem para o meu pai. Eu sou obcecado pela morte. Eu só penso nisso!”. Ao tomar como axioma a escolha de identificação com a certeza da morte, Adrien é então levado a evocar o pensamento da morte. Há para ele uma relação entre o eixo de sua existência, que é aquele da vontade de morrer, e o pensamento da morte. A única coisa que o separa da passagem ao ato é o pensamento. Seus pais lhe são indiferentes, ele afirmou, porque ele pensa constantemente não neles, mas na morte. É essa indiferença que ele projeta neles ao pronunciar essas palavras desiludidas: “Eles me ignoram completamente. Eles não estão nem aí para o que está acontecendo comigo”. Ele chegou até mesmo a dizer que pensou em matá-los, que tem esse poder. Uma noite, ele se levantou e foi até a cozinha, pegou uma faca na gaveta e a colocou de volta. “Eu pensei, naquele momento, declarou ele, que poderia degolá-los.”

 

Ser o mestre

Esse jogo com Adrien exige muita prudência e habilidade. Ele diz: “Eu quero morrer”. Eu lhe mostro que temos o direito de não concordar com ele. Ele responde que, se temos o direito de não concordar, não temos, entretanto, o direito de impedi-lo de se matar. Eu tomo partido e digo que isso pode ser discutido. “Se não nos opusermos a essa intenção, podemos ser acusados de não-assistência à pessoa em perigo. Que ele seja maior ou menor pouco importa. O que importa é que a responsabilidade de cada um é colocada em questão, a partir do momento em que ele declara sua recusa de viver e sua vontade de morrer. Quando ele afirma: ’Eu tenho o direito de me matar se eu quiser’ e insiste no que ele considera como seu direito mais íntimo, ele dá a entender que ele é o mestre de sua vida e de sua morte, que ele tem, de um certo modo, um direito soberano de vida e morte sobre ele, e, portanto, sobre seu próprio corpo.” Meu sentimento é, de fato, que é através de sua vontade de morrer que Adrien quer vencer o obstáculo, que pode fazer dele um mestre. Ele diz ser o mestre de sua vida e de sua morte, mas ele parece acreditar que só será o mestre se ousar enfrentar a morte, se ele se matar. Ele será, então, o assassinado, o morto, o cadáver. Ele terá se tornado, portanto, equivalente ao Um do traço que se conta. Adrien, com essa vontade, se identifica, então, à certeza do traço, da marca irredutível que se escreve. É, precisamente, a definição que Lacan dá do mestre, segundo Hegel, em seu Seminário 16 (LACAN, 2008). O mestre é aquele que se identifica ao traço do Um. Ser o mestre é se imobilizar, é se fazer um. Ele dá a impressão de que, se ele não se mantiver nessa posição extrema, nesse lugar de uma experiência limite, então nada se sustenta, nada é certo, nada vale.

 

O escabelo do orgulho

Eu lhe pergunto se, de vez em quando, ele tem o sentimento de que alguém o aprecia, gosta dele. Ele responde que não. Visivelmente, o desejo do Outro lhe causa horror. A única coisa que ele pôde dizer a esse respeito foi que, nesse hospital-dia, ele é um “paciente especial”. Não poderíamos argumentar que nesse eu sou um paciente especial” aparece uma ponta de orgulho? Não poderíamos arriscar em dizer que Adrien se empoleirou no alto do escabelo de seu “Eu quero morrer e nada pode me impedir”? Adrien, com o seu Eu quero morrer, para retomar a palavra de Lacan, escabote, pois ele não demonstra nenhuma aflição, nenhum pesar, nenhum desespero, nenhum abandono. Ele privilegia uma intenção, uma decisão, uma vontade pura. Ele escolheu o nada ao invés do ser. Ele tropeça no ato. O que lhe falta é o ato. Em seu caso, não se trata da morte como ato falho, mas da morte como ato faltante. Se podemos dizer dessa forma, isso lhe falta terrivelmente. É, aliás, nessa perspectiva do ato a ser realizado que ele encontra seu único ponto de apoio. Não sem uma ponta de desafio, como se ele quisesse me dar uma rasteira, ele não pôde deixar de dizer, no fim da entrevista, que ele sabia agora como proceder para se matar.

 

O desinteresse pela língua

O Eu quero morrer é, então, para Adrien, uma ideia fixa. Ela está parafusada em sua mente. Eu arrisquei tudo e lhe perguntei se ele não gostaria de mudar essa ideia fixa. Esta, triste, poderia ser desparafusada, e uma outra, mais alegre, poderia ser parafusada no seu lugar. Esse meu modo de falar não o fez rir. O tom de comédia não lhe convém, destoa, é dissonante. Eu então lhe perguntei se ele se sentia deprimido. Ele ficou com raiva. Ele não está deprimido, explicou ele, ele é um suicida, não é a mesma coisa. Ele colocou os pontos nos is: a única coisa que o interessa é o suicídio. Ele decidiu se matar, é tudo. Ele é fascinado pelo vazio, é assim. Quando ele tinha sete anos, pensou em se jogar pela janela. No momento de concluir a entrevista, eu perguntei: “Você escreve?”. Ele me respondeu que, uma vez, ele escreveu uma história, um esboço de um romance, ele explicou. Uma mulher é estuprada. Uma criança nasce desse estupro. Um menino, talvez. Quando cresce, essa criança mata sua mãe. Esse foi o cenário que ele conseguiu articular. A relação sexual é um estupro. E a relação entre a criança e sua mãe só pode passar por um assassinato. Que significação dar a essa sequência trágica? A única coisa que pode ser dita é que essa história curta dá a entender que é somente na morte que a criança não é separada da mãe. Essa ficção, reduzida a sua expressão mais curta, não seria uma tentativa desesperada e vã de escrever o que não pode se escrever – a relação sexual? Em todo caso, o que se escuta no que Adrien conta do que ele escreveu é que ele não tem nenhum gosto pela língua enquanto tal. Ser o Mestre, para Adrien, é não ser, como Humpty Dumpty acredita ter-se tornado, o mestre das palavras. As palavras não são nada e nada fazem por ele. As histórias não lhe dizem nada. Adrien está longe, muito longe do jogo das palavras. Cada criança tem seu mundo. Adrien tem o seu. Nesse mundo, a palavra-portemanteau, que intriga tanto Alice e apaixona Deleuze (2011), não convém. Mas se fosse preciso arriscar a inventar uma nova palavra-portemanteau para caracterizar a posição subjetiva de Adrien, talvez possamos propor a seguinte: horsgueilleusement, que faria ressoar o orgulho de estar fora de, isto é, ao mesmo tempo, o orgulho e o fora de, o fora do mundo, do discurso, do laço social. A esse respeito, Adrien está só. O grito de Adrien, se pudermos falar assim, é: “Acabou a tagarelice!”. Já se falou muito, Humpty Dumpty significa isso com uma palavra insólita: Impenetrabilidade. É desse ponto extremo do muro da impenetrabilidade que Adrien se aproxima. A única saída possível é então a passagem ao ato.

 

Para concluir

O sintoma ao qual Adrien então se identificou é um: Eu quero morrer. Esse Eu quero morrer é a fórmula geral da pulsão de morte e nos remete à posição que Aristóteles dá como exemplo da Proposição Universal Afirmativa (PUA): “Todo homem é mortal”. Lacan (2003, p. 450) observa – essa PUA joga todo homem nas contas da morte, inscreve todo homem sob o traço da mortificação. Como Lacan indica, então, a morte é, desde então, possível. Para Adrien, trata-se exatamente de fazê-la passar da modalidade do possível à modalidade do necessário. Podemos dizer de Adrien o que Lacan diz de Moritz no seu prefácio do Despertar da primavera, de Wedekind: ele é “um não-tolo” (Ibidem, p. 559). Adrien aspira, de fato, como Moritz, levar a cabo o ato que barra o significante, que recusa a vida, nega a palavra e faz objeção ao laço social. Ele prioriza o ser-para-a-morte ao invés do ser-para-o-sexo (LACAN, 2003, p. 362–363). A fantasia é impossível. O desejo se esvanece. O sintoma de Adrien, em sua radicalidade, está assim desconectado do inconsciente. Afinal, podemos falar de Adrien como Lacan fala de Joyce – ele é desabonado do inconsciente. E encontramos em Adrien o que encontramos em Joyce – a recusa do inconsciente e a recusa desse pesadelo que é a história.          O ponto comum entre Adrien e Joyce, guardadas as devidas proporções, é o fato de se situar num ponto extremo. Desse ponto de vista, o sintoma de Adrien é inanalisável. Adrien quer se fazer ilegível. Trata-se, para ele, de escapar a toda leitura possível, e, para sempre, apagar-se totalmente.

 

Tradução: Cristina Vidigal e Maria Bernadete Carvalho

Revisão: Márcia Bandeira

 

Bibliografia

 CARROLL, L. Através do espelho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

DELEUZE G. Lógica do sentido. São Paulo: Ed.Perspectiva, 2011.

LACAN, J. Le Seminaire, livre XXII, “RSI” in Ornicar? N. 4. Paris: Lyse, 1975.

LACAN, J. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007 (Seminário proferido em 1975-1976).

LACAN, J. “Joyce o sintoma”. In: O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007 (Conferência proferida em 16 de junho de 1975).

LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

LACAN, J. “Joyce, o sintoma”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

LACAN, J. “Prefácio a O despertar de primavera”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

 

 

[1] NT: peça de madeira ou de metal fixada na parede, que serve para pendurar roupas, casacos e outros objetos.

[2] NT: pequena escada com poucos degraus. Em português “escabelo”, que tem o mesmo sentido, mas tem um uso restrito em nossa cultura.

[3] NT: Pun: do inglês, trocadilho, jogo de palavras

[4] NT: Mot-valise: palavra composta por pedaços não significantes de duas ou várias palavras.

[5] NT: douto, doutor e ditador.

[6] NT: Palavra formada por escabeau + castração.

[7] Palavra formada por “art” (arte) + “orgueilleusement”, (orgulhosamente). Traduzido em “Outros escritos” como “orgulhartosamente”.

[8] Aqui Lacan joga com “escamoter” e “escabeau” e faz um novo “mot-valise”.

[9] Traduzido em “Outros escritos” para “escabelotar”

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