Almanaque No 22

Para além do encanto pelas palavras, a indisciplina dos professores

VIRGÍNIA CARVALHO / BRUNA SIMÕES DE ALBUQUERQUE / ANA LYDIA SANTIAGO

Imagens: Área de Serviço

CURA - Circuito Urbano de Arte

Belo Horizonte

A “VI Manhã de Trabalhos do CIEN Brasil” propõe pensarmos sobre “o que colocamos em jogo quando falamos”. Tal convite encontra eco na indicação de Laurent, de que cabe aos Laboratórios do CIEN testemunhar o corte que produzem ao buscar reintroduzir a dimensão psíquica nos lugares em que foi eliminada. Ele lembra que, se em um primeiro momento de seu ensino, em 1953, Lacan privilegia o “dom da palavra”, posteriormente, em 1973, evidencia o “gozo do blá-blá-blá”. Nesse deslocamento, fica evidente que “não há necessidade de dar a palavra, porque o ser falante tagarela como a aranha tece seu fio e goza disso, sem necessidade de ninguém e sem poder parar” (LAURENT, 2017, p. 40). A ideia de abrir espaço para a palavra – muito em voga na contemporaneidade – pode servir como mais uma oferta de gozo, reforçada pelo apoio nas “palavras especializadas”.

A psicanálise se separa dessa “psicoterapia de massa” quando faz uma aposta na Conversação, também uma prática da palavra que serve para tratar o que não vai bem e que é formulado por meio das queixas (SANTIAGO, 2011). A Conversação é uma metodologia de orientação psicanalítica que se refere a uma aposta: não há sucesso garantido. Laurent destaca que a primeira aposta que se faz nessa prática é a de “saber que, quando falamos, deixamos de ficar aliviados” (2017, p. 42). Uma Conversação ocorre quando há um corte que promove um desajustamento das identificações nas quais os sujeitos se encontram alojados. Nesse sentido, a associação livre coletivizada que se propõe no dispositivo não equivale a uma roda livre para “dar um suplemento de alma ao mundo técnico” (LAURENT, 2017, p. 47).

 

Uma despatologização através da Conversação

 

“Docentes doentes: deixe-os falar!” foi o nome dado ao Laboratório do CIEN que surgiu a partir da observação de um professor, em uma Conversação, de que os docentes estão todos doentes e que ninguém os deixa falar sobre suas questões. É uma contradição em termos, já que costumam se queixar muito sobre sua atividade docente. Trata-se, portanto, de uma aposta para que um corte nesse gozo do blá-blá-blá seja produzido, promovendo uma posição diferente da vitimização.

Nesse blá-blá-blá, escutamos que os docentes adoecem pela indisciplina dos alunos. Assim, o Laboratório tomou o tema da indisciplina, trazido por um grupo de educadores como ponto de partida para uma Conversação. Traziam muitas queixas, com vozes alteradas, rostos enrubescidos e pernas inquietas. Levaram casos de alunos indisciplinados e deixaram claro como essas crianças e jovens afetavam seus corpos. O corte que se buscou nessa falação adveio da pergunta proposta pela animadora: “alguém aqui já foi indisciplinado?”

Tal corte se constituiu como abertura para um segundo tempo nessa Conversação, o de uma implicação subjetiva no problema coletivo. Começaram a se lembrar de momentos em que foram indisciplinados e experimentaram um certo “gosto por fazer algo errado”. A revelação da professora de que, na infância, fora encaminhada à direção para “aquietar a periquita” surpreendeu. Ao mesmo tempo, revelou o quanto a indisciplina tem a ver com esse “fogo” que cada um tem no corpo. Abriram-se para a dimensão pulsional, chegaram à constatação de que “nem sempre a indisciplina é para chamar a atenção” e concluíram que “é preciso ler a indisciplina como algo que não está bem enquadrado” e “é impossível ter o controle de tudo”. Olharam para a indisciplina incluindo-se nela, o que fez uma diferença em sua maneira de lidar com isso que escapa ao controle disciplinar dos corpos. Ficaram interessados em ouvir seus alunos no que é indisciplinável: o desejo. Após a Conversação, duas das professoras que haviam levado casos de seus alunos nos procuraram. Uma delas disse que o aluno melhorou sensivelmente. A outra afirmou que seu aluno ainda deixava seu corpo atormentado e nos pediu auxílio para que ela pudesse dar um tratamento às suas questões subjetivas.

 

O “professor tarado”: não varrer o resto para debaixo do tapete[1]

 

 

Em uma outra experiência de Conversação, a produção desse corte somente foi possível a partir do momento em que os animadores se propuseram a ir mais além do encanto pelo “dom da palavra”. Trata-se de uma intervenção realizada com uma turma tida como o “resto” da escola, em que se encontravam os piores e mais indisciplinados alunos do 7º ano. Eram alunos que desrespeitavam os professores, gritavam o tempo todo e mantinham a sala imunda: “nossa sala é um lixo”, diziam. Esses jovens queixavam-se de serem desrespeitados e não escutados por seus professores, que, sem medir as palavras, entravam na sala “dando bronca”. Eles “descontam problemas pessoais nos alunos, não ouvem e falam xingando”.

As primeiras sessões de Conversação produziram efeitos visíveis: alunos que, no discurso dos professores, eram “analfabetos”, passaram a escrever; “futuros bandidos” demonstraram interesse por línguas estrangeiras e elencaram desejos por profissões. Os alunos que, antes, expressavam com seus corpos o que era dito a respeito deles pela direção – “essa sala é o resto que não coube, juntou só o pior” –, ao tomar a palavra, puderam se separar disso, deixar de responder e atuar como restos. A partir de um deslocamento inicial em relação a essa identificação, se puseram, literalmente, a limpar a sala diante dos animadores. Usando vassouras e pás, varreram o lixo, encenando uma evidente mudança de posição. Um encanto! O ambiente ficou lindo, agradável aos olhos de todos e favorável ao processo escolar.

No entanto, esse lixo tinha sido varrido, sim, mas para debaixo do tapete! Foi o que se evidenciou no momento da supervisão dessa Conversação. A equipe de animadores acreditou, por um momento, que tudo estava resolvido: os alunos trataram a sujeira com a limpeza, usando da maquiagem estética, lançando mão da ordem para a captação da beleza sensível, que é um semblante importante da civilização. Porém, esse tratamento tinha sido apenas uma encenação que interpretava e questionava, ao mesmo tempo, a forma como os adultos daquela instituição tratavam o “lixo”. Eles o escondiam, não queriam saber do que não devia aparecer; dissimulavam o que não davam conta de falar; ignoravam as denúncias dos alunos, dizendo que iam ver, mas não faziam nada a respeito. Assim, a limpeza da sala realizada no final de uma sessão de Conversação podia ser tomada tanto como um passo dado pelos alunos na direção de preparar o terreno para falar como uma forma de interrogar os animadores da Conversação sobre a relação deles com a palavra. Um aluno afirma: “Desde que vocês estão vindo, a sala está bem melhor, mais quieta”. Outra aluna complementa: “Depois que vocês forem embora, vai acabar o respeito e continuar tudo a mesma bosta de sempre”. Assim, explicita-se a necessidade de ir além da faxina.

Os animadores da Conversação tiveram que dar um passo a mais, a despeito da sublimidade da organização da sala de aula. Além do encanto, retomaram a conversa propondo novamente aos alunos o tema do “lixo”, do resto que insistia e que se mostrava evidente nos palavrões falados por eles. Apenas nesse momento puderam escutar e abordar o que os alunos já haviam dito na primeira Conversação: a existência de um “professor tarado”, que encostava com desrespeito nas meninas. Uma aluna relata: “O cabelo da menina é grande, foi passando a mão no cabelo dela e chegou no peito dela, passou a mão no peito dela”. Pela primeira vez, explicita-se o motivo da tanta gritaria: “Com os outros professores, a gente chega na mesa deles, conversa. Com ele não: a gente fica gritando do nosso lugar, a gente prefere gritar do que chegar perto dele; tomamos nojo da cara dele”. As alunas ficam gritando do fundo da sala para se protegerem, para ele não se aproximar. Uma vez que a escola não as escuta sobre esse ponto, restava-lhes o grito!

A última supervisão foi crucial para os animadores não adotarem a mesma estratégia dos docentes da instituição. Temiam ser denunciados ao falar do problema, expulsos da escola ou sofrer a ação da polícia. “Proibir o fazer, permitir o falar”. Tal orientação, dada pela supervisora, já era conhecida, mas, naquela circunstância, parecia impraticável. Na “entrevista devolutiva”, contudo, ao mencionarem o problema dos alunos do 7º ano, produziu-se, de imediato, um corte temporal: todos já sabiam, insistiam em deixar escondido debaixo do tapete, e o professor, naquele momento, responsabilizando-se, assume sua fraqueza e pede indicação para se tratar.

As duas experiências ensinam que falar numa Conversação, para além do blá-blá-blá, é um esforço de dizer algo sobre o ineducável da pulsão, sobre o ponto em que a sexualidade faz furo no real. Incluir o intraduzível do gozo, o “fogo do corpo” que se mostra por meio da indisciplina e da falta de respeito, permitiu, em cada uma das experiências, reintroduzir a dimensão psíquica em jogo nessa fronteira entre o anímico e o somático. Dimensão esta que o campo da educação tenta eliminar calando – ainda que pelo falatório. A Conversação se mostra, assim, uma operação de palavra capaz de criar um espaço radical, em que o irreconciliável pode ganhar lugar e em que se pode tocar naquilo que é da ordem do impossível de tudo dizer.

 

 

REFERÊNCIAS

 

LAURENT, E. (2017). “Retomar a definição do projeto do CIEN e examinar sua situação atual”. Brown, N.; Macedo, L.; Lyra, R. In: Trauma, Solidão e Laço na Infância e na adolescência. BH: EBP.

 

SANTIAGO, A. L. (2011). “Entre a saúde mental e a educação: abordagem clínica e pedagógica de sintomas na escola nomeados por dificuldades de aprendizagem e distúrbios de comportamento” In: Santiago, A. L; Campos, R. H. de F (org). Educação de crianças e jovens na contemporaneidade: pesquisa sobre sintomas na escola e subjetividade. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas.

[1] As Conversações com a turma em questão foram animadas por Libéria Neves, Ana Carolina Ribeiro e Bruna Albuquerque, com supervisão de Ana Lydia Santiago.

VIRGÍNIA CARVALHO / BRUNA SIMÕES DE ALBUQUERQUE / ANA LYDIA SANTIAGO

VIRGÍNIA CARVALHO Psicanalista, mestre e doutoranda em Estudos Psicanalíticos (UFMG), professora substituta da UFMG e pesquisadora do NIPSE da FaE-UFMG. Responsável pelo Laboratório “Docentes doentes: deixe-os falar!”, do CIEN. vivscarvalho@yahoo.com.br BRUNA SIMÕES DE ALBUQUERQUE Psicanalista, mestre em Psicopatologia e Estudos Psicanalíticos (Université de Strasbourg), doutoranda em Conhecimento e Inclusão Social em Educação (FaE-UFMG), pesquisadora do NIPSE. bruquerque@gmail.com ANA LYDIA SANTIAGO Psicanalista, AME da EBP e da AMP. DEA do Campo Freudiano/Universidade de Paris VIII. Doutora em Psicologia Clínica/USP. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação: conhecimento e inclusão social da FaE-UFMG. Coordenadora do NIPSE. analydia.ebp@gmail.com As Conversações com a turma em questão foram animadas por Libéria Neves, Ana Carolina Ribeiro e Bruna Albuquerque, com supervisão de Ana Lydia Santiago.

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