Cao Guimaraes

Almanaque No 21

Ponto de loucura na era do parlêtre

VICTORIA HORNE REINOSO
Cao Guimaraes

Cao Guimaraes

Loucura e psicose

 

Se, muitas vezes, a psicose pode ser identificada como loucura e a loucura se revelar da ordem da psicose, esses dois termos, que são utilizados frequentemente um em lugar do outro, pertencem a registros diferentes, que não se recobrem completamente.

 

A psicose, herdada da psiquiatria clássica do século XIX, retomada e reformulada por Freud, é uma categoria clínica, uma classe nosográfica que permite ordenar um diagnóstico. Com Lacan, ela foi inicialmente erigida como estrutura, tendo em seu centro a foraclusão do Nome-do-Pai, para, mais tarde, no seu último ensino, acrescentar a esses marcos estruturais aqueles da clínica borromeana.

 

A loucura é transestrutural. É um termo antigo que pertence à língua comum e variou segundo as épocas. Apesar de uma grande latitude na utilização da palavra loucura em inúmeros contextos sem que ela nos remeta forçosamente à doença mental, ela designa, de maneira mais restrita, as múltiplas formas de perder a razão, de estar fora das normas sociais, fora da realidade, de delirar, de sair da linha, diriam os autores antigos…

 

A cada época, seus loucos, sua forma de conceber, de descrever e de tratar a loucura. Sábios que detêm uma certa verdade, marginais que encarnam o objeto dejeto, homens livres, perigosos, violentos, criminosos, delirantes… É sempre, no entanto, um traço do excesso, do transbordamento de um limite, que os estigmatiza.

 

Os dois termos, loucura e psicose, têm relação com uma “norma”, com uma categoria do “normal”, da qual todos dois viriam encarnar o além, o patológico, o a-normal.

 

Se Freud descobriu o inconsciente com as histéricas e inventou a psicanálise a partir da neurose, Lacan entrou na psicanálise pelas psicoses e pelo seu encontro com Aimée. À frente do seu tempo, ele nos conduziu a uma pós-modernidade na qual a psicose se tornou, pouco a pouco, um paradigma da subjetividade contemporânea. Não que todo mundo seja psicótico, ainda que ele tenha dito que “todo mundo é louco” (LACAN, 2010, p. 31), mas a perda de consistência da figura do pai e do Outro, a depreciação dos discursos estabelecidos pelos sujeitos individualmente e pela sociedade em geral, vão no sentido de uma subjetividade na qual os modos tradicionais de manter os equilíbrios precários dos enodamentos dos parlêtres cedem lugar a soluções não padronizadas, bricolagens, a invenções sob medida e singulares de realizar a estrutura.

 

O que Lacan soube iniciar e aquilo em que continuamos a trabalhar, apoiando-nos na orientação de Jacques-Alain Miller, é uma reviravolta da psicanálise que, de agora em diante, tem a ver com uma civilização exposta à subversão inevitável da noção de ”normalidade”. Uma vez que esta última é tão atacada em nossa contemporaneidade, como então pensar a loucura?

 

Abordamos essa questão a partir de duas proposições de Lacan, emblemáticas de duas viradas maiores em seu ensino, e nas quais o termo loucura não poderia ser substituído pelo termo psicose. De fato, sua utilização comporta um pequeno deslocamento e passa então a apreender outra coisa, uma outra vertente do termo. Trata-se de “todas as mulheres são loucas” (LACAN, 2001, p. 538) e de “todo mundo é louco” (LACAN, 2010, p. 31).

 

A partir daí, podemos tentar esclarecer o paradoxo do termo loucura que, mesmo ao designar a loucura no sentido psicótico ou paroxístico, pode igualmente visar esse ponto de loucura inerente ao parlêtre na nossa civilização.

 

De “todas as mulheres são loucas” a “todo mundo é louco”

 

Essas duas proposições, longe de se contradizerem, articulam-se e se sucedem logicamente. Efetivamente, Lacan precisou passar pelo remanejamento do seu ensino nos anos setenta ao abordar os impasses do feminino a partir do gozo e ao desenvolver o para-além do Édipo, para chegar à foraclusão generalizada. Com a elaboração das fórmulas da sexuação e a concepção da sexualidade feminina como não respondendo completamente à lógica fálica, Lacan produz uma inversão da leitura estruturalista, passando pelo não-todo da posição feminina até o regime do não-todo generalizado, quer dizer, até pensar que não tudo do real do gozo do parlêtre seja reabsorvível pelo Nome-do-Pai.

 

“Todas as mulheres são loucas” é uma conclusão que emana dessas elaborações. Ela introduz um jogo entre “todas / não toda” e “loucas / não loucas”.

 

Assim o universal do que elas desejam é a loucura: todas as mulheres são loucas, como se diz. É por isso mesmo que são não todas, isto é, não loucas-de-todo, mas antes conciliadoras, a ponto de não haver limites para as concessões que cada uma faz a um homem: de seu corpo, de sua alma, de seus bens (LACAN, 2003. p. 358).

 

O que Lacan visa nessa frase com o termo loucura é o resultado dessa parte não limitada pelo falo, o lado não-toda da mulher. Esse fora da norma-macho[1] acarreta simultaneamente a emancipação em relação à lei do pai e o pronta-pra-tudo das mulheres que poderia ser qualificado de loucura. Mas, ao mesmo tempo, esse passo de través em relação à norma fálica as torna também menos loucas, pois mais próximas do real e mais realistas quanto aos semblantes, é sua relação com o S( ) (LACAN, 1985, p. 87).

 

Há aqui, portanto, esse traço simultaneamente do sem limite, do fora da norma, do excesso, que é um dos traços da loucura, sem que isso remeta à psicose. É um traço que, da psicose ao feminino, faz um ponto de loucura: o ilimitado, o transbordamento dessa função normativa que é a função fálica.

 

A segunda proposição coloca igualmente em jogo a questão do “todo”, de uma certa “universalização” que Lacan tempera com “se se pode dizer semelhante expressão”. No entanto, essa proposição só pode ser compreendida a partir da mudança de estatuto do Nome-do-Pai e de sua pluralização, que permitirá, com a foraclusão generalizada, uma outra perspectiva sobre a clínica.

 

“[Freud] considerou que nada é senão sonho, e que todo mundo (se se pode dizer semelhante expressão), todo mundo é louco, isto é, delirante” (LACAN, 2010, p. 31).

 

Aproximar a expressão “todo mundo é louco” a “nada é senão sonho” coloca essa frase em contato com a questão da relação com a realidade enquanto subjetiva.

 

Freud adianta que, mesmo se pudesse ser simples dizer que “a perda da realidade seria, para a psicose, dada de início” e que “para a neurose seria o caso de pensar que ela é evitada”, na verdade, “toda neurose perturba de uma maneira ou de outra a relação do doente com a realidade” (FREUD, 1924/1969, p. 205). Há sempre, tanto para os psicóticos como para os neuróticos, um “não querer saber” de um real que levará o sujeito a se defender dele. Ele substituirá ou limitará esse “impossível de suportar” (LACAN, 1979, pp. 7;11) por uma construção pessoal, quer seja delírio, quer seja fantasia. Todo mundo é louco quer dizer que todo mundo tem uma maneira singular de tratar esse impossível e de acreditar na realidade.

 

J.-A. Miller faz dessa frase uma bússola, um condensado do ultimíssimo ensino de Lacan (MILLER, 2009, p. 69). Nesse texto, mira as certezas dos universitários que acreditam ter o verdadeiro saber sem considerar que, como “todo mundo”, eles também deliram. Mas, no contexto de seu ultimíssimo ensino, Lacan se esforça para “concernir” esses clínicos que não querem saber nada do real que, na loucura de que dão testemunho os psicóticos, vem tocá-los intimamente, mesmo se o “para todos” da loucura está implicitamente em tensão com um “não para todos” da psicose. Pois, se a loucura é para todos, ela não é “toda” a mesma. Lacan se serve disso, então, para visar e fazer ressoar esse ponto de certeza mais singular do parlêtre, ponto de loucura irredutível.

 

O particular e o singular

 

À bipartição “há” ou “não há” o Nome-do-Pai que ancora a clínica descontinuísta das categorias clínicas se opõe uma continuidade da foraclusão generalizada, com “todo mundo é louco”. No entanto, como J.-A. Miller relembrou muitas vezes, essas duas modalidades, ainda que em tensão, não se opõem. A foraclusão generalizada não incide sobre o significante do Nome-do-Pai, mas sobre a impossibilidade de inscrição de um real que concerne à relação do parlêtre com o outro sexo: é a não-relação sexual. Isso afirma, contudo, a importância do furo que constitui esse ponto de real em torno do qual o parlêtre poderá construir sua porção de delírio a fim de suprir aquilo que não se inscreve. Por outro lado, embora o Nome-do-Pai possa ser um apoio para tratar a não-relação sexual, a metáfora paterna nunca é completamente realizada.

 

A clínica descontinuísta nos leva a trabalhar com as categorias clínicas. Estas reúnem os signos particulares de uma classe. O particular é “o que se assemelha de um sujeito a outro” (MILLER, 2009, p. 27). A clínica borromeana e continuísta é aquela das singularidades dos “esparsos disparatados” (LACAN, 2003, p. 569), aquela do reconhecimento dos achados particulares de cada parlêtre, aquela do sinthome. Ela trabalha a partir do Um de gozo de cada um.

 

Quando, no século XX, havia casos paradigmáticos – tal como Schreber encarnando a categoria clínica da psicose –, com Joyce, Lacan mostra a maneira própria e singular de fazer sustentar o enodamento dos registros. O caso não é mais, portanto, paradigmático de uma classe. Na clínica do sinthome, um caso não basta para demonstrar uma categoria porque não se trata mais de dar conta de um “para todos” da classe clínica, mas de um “não-todo” que, de cada singularidade, faz a infinita pluralidade dos possíveis.

 

A psicose ordinária veio tirar conclusões em ato dessa transformação que a nossa época exige que se leve em conta. É um primeiro passo. Entretanto, a psicose ordinária ainda tem um pé no discurso do mestre classificador: é uma psicose. Tem, porém, o outro pé no fora da norma e na singularidade, vindo iluminar essa nova forma de conceber a clínica. Desmancha-prazeres do nosso conforto clínico, obriga a fazer um esforço de des-classificação dos parlêtres para se situar sobre os signos discretos e as invenções inéditas de cada um.

Como dar um passo a mais?

 

Já sabemos que a estrutura da sociedade tal como era com suas normas, seus princípios, seus interditos, se alterou. Os neuróticos estão igualmente sujeitos a ter que inventar uma forma de fazer, pois esses elementos da tradição prêt-à-porter que lhes permitiam construir uma maneira de enodar os registros de forma padronizada foram alterados, sofreram mutações, não têm o mesmo lugar no mundo. A invenção é então necessária “para todos”.

 

A evacuação do impossível pelo discurso do mestre atual deixa todos os sujeitos à mercê de um ilimitado. Por que então essas amarrações singulares, quando estáveis, estariam fora da “normalidade” e de qual? A partir do momento em que nos orientamos rumo a uma “igualdade clínica” (MILLER, 2015), o Nome-do-Pai é apenas uma entre outras formas de enodar os registros.

 

Uma vez que Lacan se pergunta se Joyce era louco (LACAN, 2007, p. 75), mais do que a resposta que ele não dá, o que é interessante é que ele se coloca essa questão enquanto demonstra, ao mesmo tempo, a maneira singular que Joyce tem de enodar os registros, prescindindo do Nome-do-Pai. É com efeito outra forma de separar loucura e psicose.

 

Num certo número de casos, o que se passava antigamente por “loucura” pode, a partir de agora, ser integrado em nosso mundo de todos os possíveis. As loucuras se dissolvem hoje na selva dos estilos de vida, a cada um seu modo de gozar. Se “todo mundo é louco”, cada um o é de uma forma, de uma loucura diferente.

 

A civilização contemporânea é feita de uma multiplicidade de subjetividades que coexistem, talvez menos territoriais que antes do mundo globalizado, mas, em compensação, mais variadas. Essa coexistência de subjetividades faz com que, por um lado, a vida tenha uma vertente mais padronizada, mas, por outro, tudo pode também ser cada vez mais sob medida. É preciso, antes de tudo, escolher, pois a tradição não orienta mais os parlêtres como antes. Entretanto, ao mesmo tempo, somos muito “orientados” nas nossas escolhas, por exemplo pelos algoritmos e pelo que nos é insidiosamente imposto pelo avanço do mundo tecnológico. E a padronização ou a exceção, a escolha ou a imposição, comportam muito bem seu ponto de loucura (LAURENT, 2009, p. 9).

 

O termo loucura implica este interessante paradoxo que faz com que possa remeter àquilo que há de mais “extraordinário” na psicose e mesmo nos momentos igualmente massivos da neurose, como àquele ponto mais singular do parlêtre, ponto de loucura irredutível que ressoa na expressão “todo mundo é louco”.

 

Tradução: Ana Helena Souza

Revisão: Márcia Mezêncio

 

 

Referências

FREUD, S., (1924/1969). “A perda da realidade na neurose e na psicose”, In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago vol. XIX.

 

LACAN, J. “Televisão”, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003.

 

______. O Seminário, Livro XXIII, O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2007.

 

______. “Overture de la section clinique”, de Jacques Lacan (estabelecida por J.-A. Miller), Ornicar? 1979, n.º 9, pp. 7-11.

 

______. “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003.

 

______. “Transferência para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes!”, Correio, revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 65, São Paulo, 2010, p. 31.

 

______. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1985, p. 87.

 

LAURENT, E. “A modo de prólogo”, In: O sentimento delirante da vida. Buenos Aires: Colleccíon Diva, 2011.

 

MILLER, J-A. “Nous sommes poussés par des hasards à droite et à gauche”, In: La Cause Freudienne, 2009, nº 71, p. 69.

 

MILLER, J-A., “O inconsciente e o corpo falante”. Conferência de encerramento do IX Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (2014). O osso de uma análise. Mais O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

 

MILLER, J-A., “São os acasos que nos fazem ir a torto e a direito”. In: Opção Lacaniana, n° 55, novembro, 2009. p. 27.

 

[1] Em francês, há um jogo de homofonia entre norme-mâle, aqui traduzido como “norma-macho”, e a palavra normal [N.T.].

VICTORIA HORNE REINOSO

Psicanalista, membro da Escola da Causa Freudiana

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