Almanaque No 23

Quem se ocupará das crianças? A solidão e os gadgets na família atual

Nádia Laguárdia de Lima / Juliana Tassara Berni / Helena Greco Lisita

LAMA -Richardson Pontone

Este artigo apresenta uma reflexão sobre as transformações acarretadas nas relações familiares a partir da cultura digital. Tal reflexão surge a partir de falas de adolescentes em grupos de conversação oferecidos em escolas públicas de BH pelo laboratório “Além da tela: psicanálise e cultura digital”. Chamou-nos a atenção a frequência com que os adolescentes afirmam ter pais ausentes ou pouco interessados por suas vidas. O uso excessivo dos dispositivos eletrônicos, feito pelos adolescentes, é justificado por eles como forma de suprir essa ausência dos pais. Entretanto, para alguns adolescentes, o desinteresse ou a falta de investimento dos pais nos filhos é consequência do fascínio que esses aparelhos digitais exercem sobre os pais. Consideramos que a adolescência é o tempo lógico de separação da autoridade paterna, momento em que os jovens percebem que os pais falham. Assim, questionamos se o fascínio pelas tecnologias seria apenas uma das formas atuais de justificar a falha dos pais ou se haveria algo de novo na família contemporânea.

 

O projeto “Conversação nas escolas: adolescentes e redes sociais”[1] é desenvolvido em escolas da rede pública de Belo Horizonte. Esse projeto, como o próprio nome revela, utiliza a metodologia de Conversação, tal como proposta por Jacques Alain-Miller, e visa a intervir junto aos adolescentes, criando espaços de reflexão nos quais a utilização do ciberespaço possa ser interrogada pelos jovens.

 

Embora a cultura digital seja o tema central dos encontros, ponto de partida das conversações, a oferta da palavra permite que outros assuntos caros à adolescência apareçam. As relações familiares são temas recorrentes em muitos grupos.

 

Em um dos grupos, todos os adolescentes têm pais separados, moram com a mãe e têm pouco ou nenhum contato com o pai. Eles se queixam de não poder ficar muito tempo conectados à internet devido ao excesso de tarefas domésticas. Alguns se queixam, ainda, da falta de atenção da mãe, do seu vício pelas redes sociais e da preferência pelos irmãos mais novos.

 

Em outro grupo, João diz: “meu pai me odeia, só sabe me criticar”. Márcia comenta: “eu sou adotada, meus pais biológicos são drogados, meu pai morreu e minha irmã é puta”, “até um ano de idade eu era totalmente largada, até que uma vizinha começou a cuidar de mim”. Esses adolescentes se designam, de forma irônica, como “os anjos da escola” e dizem que “não conseguem sair da internet”.

 

O tema da família foi também recorrente em outro grupo, no qual os adolescentes parecem se situar entre a infância e a adolescência. A animadora da conversação pergunta se eles percebem alguma diferença em suas relações com os pais, agora que estão na adolescência, e se as redes sociais interferem nessas relações. Pedro diz que a vida familiar mudou muito por causa do telefone: “Na minha infância, meus pais não sabiam o que era o telefone nem nada, e agora eles vivem por isso. Não tem mais aquilo de conversar, é tudo registrado em fotos. A vida da minha irmã é toda registrada em fotos. Não tem mais o diálogo que tinha antes, não tem mais aquela relação de conversar, de boca. Eu me sinto sozinho porque agora tudo é na base do telefone. Não é mais como antes. Eu nunca fui de ficar muito na rua, então eu conversava muito com meus pais. Hoje eles vivem a base de tecnologia. Sempre com o telefone na mão, sempre registrando o que minha irmã faz”.

 

Em seguida, todos os adolescentes do grupo começam a falar sobre como veem as relações de suas mães com a internet: “Minha mãe me tira do computador para ela ficar”. “A minha queima o arroz”. “Minha mãe fica o dia inteiro jogando, pode cair uma bomba do lado dela que ela nem vê”. A animadora retoma: “Vocês acham que era diferente quando vocês eram crianças?”. Marcos responde: “Não é a idade que tá atrapalhando, é a tecnologia”.

 

Flávio toma a palavra: “Minha mãe é chata demais. Toda hora ela me chama e me pergunta ‘como que faz isso aqui no celular?’. E o pior é que ela aprende num minuto”. O colega interpela: “Ué, você queria que ela demorasse pra aprender?”. Flávio, então, explica: “Claro. Eu queria que ela ficasse conversando comigo. Minha mãe nem conversa comigo direito”.

 

Eles seguem reclamando dos pais, mas de forma banalizada, rindo e se zombando mutuamente. A animadora pede que expliquem melhor suas queixas. Eles explicam que o que está atrapalhando não é a idade e nem o número de filhos, é a tecnologia “que atrapalha a família inteira”. A animadora pergunta o que eles fazem diante disso, e um participante diz: “Eu falo ‘para de mandar GIF, mãe’”. Mário diz: “Eu já acostumei. Eu fico no computador e ela fica no telefone. Mas a gente convive”. Lucas fala rindo: “A minha mãe fala que está ocupada cuidando da minha irmã, mas na verdade ela está com o celular lá. Ela nem está vendo o que minha irmã está fazendo. A minha irmã pode afogar lá atrás dela que ela nem vê”.

 

O adolescente e a família

 

Lacan (1969/2003) afirma que a família, apesar de todas as transformações sociais vividas ao longo dos tempos, continua exercendo função imprescindível na constituição subjetiva, a de transmitir um desejo não anônimo. Destaca que os cuidados maternos trazem a marca de um interesse particularizado e o nome do pai é o vetor da encarnação da lei no desejo. A função do pai é a de impor um limite ao gozo da mãe. Assim, a função da família é a de promover um sujeito desejante. Em outro texto, de 1968, Lacan ressalta que toda formação humana – e aí se inclui a família – tem, por essência, a função de refrear o gozo.

 

Posteriormente, Lacan afirma que a perda de gozo é estrutural e que o impasse sexual leva à construção de ficções “que racionalizam a impossibilidade da qual provém” (1972-1973/2003, p. 531). Sendo assim, cada família constrói as suas ficções para dar forma ao que se opera na estrutura. Ao mesmo tempo, ela tem a função de reforçar essa contenção estrutural do gozo, viabilizando o surgimento do desejo.

 

As ficções sobre a família são, portanto, construções simbólicas diante do traumatismo originário que está na origem de todo falasser. Como afirma Bassols (2016), toda família é um aparato de gozo, um modo de resguardar o segredo do gozo como inominável. Ao escutar cada adolescente falar de sua família, é possível ter acesso a uma trama discursiva tecida em torno desse inominável.

 

A puberdade desvela a impossibilidade de a trama simbólica tecida na infância recobrir o real do gozo. O púbere é confrontado com a inexistência da relação sexual e com a inconsistência do Outro, o que o leva a se desligar da autoridade dos pais. Os adolescentes percebem que os pais falham. Assim, questionamos se o uso da tecnologia seria apenas a forma atual de justificar a falha dos pais, desvelada no tempo lógico da adolescência, ou se haveria algo de novo. O uso excessivo dos dispositivos tecnológicos pelos pais estaria interferindo na função que eles exercem junto aos filhos?

 

Nossa hipótese é a de que o uso excessivo dos aparelhos digitais tenha contribuído para uma maior indiferença entre pais e filhos, tanto pelo objeto de gozo utilizado, que é comum a todos, quanto pelo excesso de uso a que todos estão submetidos. Pais, mães e filhos estão capturados pelo poder fascinante dos celulares, objetos mais-de-gozar, de forma indistinta. Mas quais seriam os efeitos subjetivos desse apagamento da diferença geracional e da ascensão do mais-de-gozar sobre as famílias?

 

 

A civilização atual e seus efeitos sobre a família e os laços sociais

 

Lacan (1970/2003) destaca que a civilização atual está marcada pela ascensão ao zênite social do objeto a e sustentada não pela renúncia ao gozo, mas, ao contrário, pelo seu imperativo. Em 1972 ele nos apresenta o discurso do capitalista, no qual o lugar de agente é ocupado pelo sujeito contemporâneo e por sua liberdade de consumo. O que está em questão não é mais a falta do sujeito, mas sua demanda enquanto consumidor. A máxima “tudo é possível” demonstra que o direito ao gozo se tornou dever de gozar e o mercado deve produzir produtos para todas as demandas do sujeito.

 

Acompanhamos, na atualidade, o declínio do pai, a queda da transmissão vertical fundada no Ideal e a promoção da horizontalidade das identificações e dos laços sociais. A família assume o lugar de uma igualdade formal, sem princípio de garantia, sem hierarquia ou autoridade. Além da horizontalidade do laço, há uma mudança na relação com o gozo. Os termos se inverteram: se a família tentava ordenar o real do gozo, o real do gozo é que reordena a família hoje (BASSOLS, 2016). Vinciguerra (2017) comenta que, se o gozo era ocultado pela instituição familiar, ele ressurge claramente na atualidade, pois a esfera do privado busca se exibir e a reivindicação do direito a gozar se afirma livremente.

 

Lacan (1968/2003) comenta que não existe gente grande e que devemos reintroduzir nossa medida ética através do gozo. Laurent acrescenta que “o que separa a criança da pessoa grande é a ética que cada um faz de seu gozo” (1994, p. 32). O adulto é aquele que se responsabiliza pelo seu modo de gozo. A época atual é caracterizada pela “criança generalizada” (LACAN, 1968/2003), ou seja, ninguém se responsabiliza pelo seu modo de gozo.

 

Na contemporaneidade, há uma tendência à objetalização do sujeito que desvela a condição da criança como objeto resto de um desejo, não mais objeto fálico do par parental. As mães não estão mais ocupadas com os seus filhos, mas sim com os seus gadgets, deixando mais clara a posição da criança de objeto resto do desejo materno.

Se não há gente grande, quem se ocupará das crianças hoje? O outro anônimo do espaço virtual? Alguns adolescentes mergulham na virtualidade como uma forma de se manterem numa posição de alienação ao Outro, evitando a solidão cada vez mais marcante na contemporaneidade. Assim, mantêm-se no gozo com as suas fantasias, através dos jogos virtuais que lhes oferecem a oportunidade de se sentirem invencíveis, fortes e destemidos, ou através das redes sociais que os mantêm ligados, conectados aos amigos virtuais, na ilusão de não estarem sós. Segundo La Sagna (2016), “esses objetos de consumo vão entrar em concorrência com outros objetos e outras satisfações enodando fantasias e usos regressivos do objeto e saturando, por vezes, o local e o uso possível do objeto separador para o sujeito”.

 

A oferta da escuta como uma saída aos impasses contemporâneos

 

Os adolescentes, em sala de aula, não podem falar do seu pior. As conversações permitem que o adolescente fale daquilo que ninguém quer ouvir, possibilitando um tratamento simbólico ao mal-estar que perturba o laço social. Como salienta Vieira, (2012, p. 10), “sempre é possível encontrar um destino aos extremos do dizer”. Esse espaço presencial tem alguém “de carne e osso” disposto a escutá-los, interessado no que eles dizem. O espaço da conversação não é o lugar anônimo do desabafo, mas um lugar onde um sujeito toma a palavra e se implica nela. Dessa forma, o adolescente pode sair da posição de objeto e se responsabilizar pelo seu modo de gozo.

 

Buscamos, via transferência, levar o adolescente a construir a sua rede de sentido, articulando as experiências on-line com as off-line. A transferência permite um tratamento ao gozo, uma vez que produz uma nova relação com o objeto, mas também um novo tipo de objeto, que é, para Lacan, o objeto causa do desejo (LA SAGNA, 2016).

 

Procuramos ficar atentos ao que captura cada adolescente na tela, aos efeitos dessa captura no próprio corpo e nos laços sociais. Como cada adolescente é afetado (no nível do afeto) pelas imagens e palavras que emergem da tela? O que cada um inventa com esses dispositivos para dar tratamento ao gozo?

 

A experiência com os adolescentes nas conversações nos mostra que, diante da desorientação advinda da falta de referenciais simbólicos sustentáveis na atualidade, eles parecem não recusar o Outro. Ao contrário, tentam, cada um à sua maneira, fazê-lo consistir. O meio virtual torna-se, nesse contexto, propício para a busca de identificação de pares e formação de grupos, servindo como ancoragem na travessia até a fase adulta (COSENZA, 2016). Percebemos o quanto é importante escutar esses adolescentes, permitir que a palavra se enlace ao gozo. João marca a importância desse espaço de escuta: “O que a gente está falando aqui, tem gente que nunca consegue falar”.

 

 

Referências

 

BASSOLS, M. “Famulus”. In: Revista FAPOL on-line. Disponível em: http://www.lacan21.com/sitio/wp-content/uploads/2016/10/lacan21_2016_volume2_PT-1.pdf. 2016. Acesso em jun. 2019.

 

COSENZA, D. “A iniciação na adolescência: entre mito e estrutura”. In: CIEN Digital, 19 mar. 2016. Disponível em: http://www.institutopsicanalise-mg.com.br/ciendigital/n19/hifen.html. Acesso em jun. 2019.

 

LA SAGNA, P. “A adolescência prolongada, ontem, hoje e amanhã. Almanaque on-line. IPSM, n. 16. 2016. Disponível em: http://almanaquepsicanalise.com.br/a-adolescencia-prolongada-ontem-hoje-e-amanha. Acesso em jun. 2019.

 

LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2003

 

______. (1968). “Alocução sobre as psicoses da criança”. In: Op. cit., p. 359-368.

 

______. (1969). “Nota sobre a criança”. In: Op. cit., p. 369-370.

______. (1970). “Radiofonia”. In: Op. cit., p. 400-447.

 

______. (1972-1973). Televisão. In: Op. cit., p. 508-543.

 

______. (1972/1978). “Du discours psychanalytique”. In: Lacan in Itália (p. 32-55). Milão: La Salamandra.

 

LAURENT, E. (1994). “Existe um final de análise para as crianças”. In: Opção Lacaniana, n. 10. São Paulo: Eolia. p. 24-33.

 

LIMA, N. L. et al. “A identificação na contemporaneidade: os adolescentes e as redes sociais”. In: aSephallus, revista eletrônica do núcleo Séphora. Rio de Janeiro: vol. 6, nº 12. mai-out, 2011. Recuperado em:          http://www.isepol.com/asephallus/numero_12/artigo_01.html. Acesso em jun. 2019.

 

VINCIGUERRA, R. P. “A psicanálise em relação às famílias”. In: Almanaque, revista eletrônica do IPSM-MG. n. 18. 2017. Disponível em: http://almanaquepsicanalise.com.br/a-psicanalise-em-relacao-as-familias/. Acesso em jun. 2019.

 

 

 

[1] Projeto vinculado à UFMG realizado pelo “Além da tela”, coordenado pela Profª Nadia Laguárdia de Lima. As conversações em questão foram animadas por Helena Greco e Juliana Berni.

 

Nádia Laguárdia de Lima / Juliana Tassara Berni / Helena Greco Lisita

Nádia Laguárdia de Lima Professora adjunta IV do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre e doutora em Educação pela UFMG. Pós-doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenadora do Laboratório Além da Tela: psicanálise e cultura digital | nadia.laguardia@gmail.com

Juliana Tassara Berni Psicóloga, mestre e doutoranda em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Integrante do Laboratório Além da Tela: psicanálise e cultura digital | jutassara@hotmail.com

Helena Greco Lisita Psicóloga, mestre e doutoranda em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Integrante do Laboratório Além da Tela: psicanálise e cultura digital | helenagrecolisita@gmail.com

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