Almanaque No 15

Almanaque on-line entrevista

Rômulo Ferreira da Silva

Como estão os preparativos para o VII Enapol? O que podemos esperar desse Encontro?

Rômulo Ferreira da Silva: Primeiro eu gostaria de agradecer o convite para fazer a abertura das atividades do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais e da EBP – Minas Gerais e a oportunidade de falar ao Almanaque on-line sobre o 7º Enapol. Esse Encontro tende a privilegiar os trabalhos oriundos dos Institutos do Campo Freudiano. O Congresso da EBP, que ocorre a cada dois anos, em alternância com o Enapol, privilegia os trabalhos dos membros da EBP. É importante que os trabalhos desenvolvidos nos institutos possam aparecer na comunidade analítica da AMP.

A Comissão Científica pretende ler cada trabalho enviado, fazer observações e pedir retificações, ou seja, estabelecer um intercâmbio com os autores. Quanto mais tempo tivermos para que se estabeleça esse intercâmbio, melhor.

Além das mesas simultâneas, nós vamos ter as Conversações. Serão quinze Conversações. Esse trabalho está sendo coordenado por Ana Lydia Santiago, que faz parte da Comissão Científica do Enapol. Para cada tema da Conversação há um representante de cada Escola: EBP, NEL e EOL. Cada um desses representantes coordena um grupo de trabalho, que desenvolverá o estudo sobre o tema nos próximos seis meses que temos pela frente.

Os textos serão colocados no site para que todos possam participar da Conversação, tendo já lido o trabalho na íntegra.

Sobre a programação das plenárias, posso adiantar que teremos três mesas de AE: duas com os AEs mais antigos e outra com os AEs que ainda não fizeram testemunhos para um público maior da comunidade analítica da FAPOL.

Teremos também duas mesas plenárias para as quais serão elaboradas perguntas que articulem o tema do Enapol e a clínica.

Os eventos da Orientação Lacaniana também se articulam com a cidade e suas manifestações culturais. O que São Paulo irá oferecer aos participantes desse Encontro?

Rômulo Ferreira da Silva: Na articulação com as artes, temos já alguns convites confirmados.

1 – Regina Silveira, artista plástica de São Paulo. O trabalho de Regina é internacionalmente conhecido e nos oferece um panorama de como o artista se antecipa ao psicanalista, como nos disse Freud. Regina apresenta imagens que não têm compromisso com o sentido pré-estabelecido e que irrompem no real.

2 – Maria Adelaide Amaral, dramaturga, nos fornece um trabalho de textos, peças de teatro, seriados e novelas acumulado ao longo de todos esses anos de carreira. As imagens que capturam, mas que não apresentam, necessariamente, uma articulação com a ordem simbólica vigente.

3 – Gil Jardim, maestro, professor da USP, vai trabalhar o império das imagens sonoras. Além do percurso histórico da música, com a introdução de elementos fora do padrão instituído oficialmente pelas escolas de música, Gil nos apresentará um pouco de sua produção que repercute no nosso tema.

Estamos também seguindo um pouco o que aconteceu no final do ano passado aqui em Belo Horizonte, tentando colocar outras manifestações de artistas contemporâneos que possam, nos intervalos e nos eventos festivos, conversar com a Psicanálise.

Estamos organizando um coquetel também – a parte da festa é muito importante! O coquetel ocorrerá no Clube Hebraica, próximo ao local do evento. A festa será após o encerramento, um happy hour no domingo.

Como temos feriado na segunda-feira, 7 de Setembro, eu oriento que vocês fiquem um dia a mais, porque estamos fazendo uma bela programação de tudo o que está ocorrendo em São Paulo. A cidade está vazia nessa época, então fica bem interessante ficar um dia a mais.

A EBP está comemorando 20 anos. O que mudou do Imaginário de 1995, presente naquele encontro de fundação, para o de hoje?

Rômulo Ferreira da Silva: “O Império das Imagens” é o nosso tema. Ele remete, num primeiro momento, à fundação da nossa Escola. A nossa Escola foi fundada há 20 anos, e o tema do primeiro Encontro Brasileiro, que ocorreu no Rio de Janeiro, foi “A Imagem Rainha”. Nada mais interessante do que retomar essa história. Nós tínhamos no Brasil, à época, vários grupos lacanianos. Foi feito um trabalho, creio que durante uns cinco anos, pelo menos, para que houvesse uma grande conversa entre esses grupos, a partir do qual iniciou-se a troca de experiências epistêmicas e institucionais.

Esse movimento “Iniciativa Escola”, que, a partir de São Paulo, teve Jorge Forbes como seu grande incentivador, chegou ao seu ápice na fundação da Escola Brasileira de Psicanálise. Do corpo despedaçado, do corpo lacaniano despedaçado no Brasil, nós pudemos fazer uma “Imagem Rainha”.

Esse instante de ver foi vivido por nós, que lá estávamos, como um júbilo. Além do baile de máscaras em comemoração ao acontecimento, tivemos a presença da ex-Miss Brasil e ex-Miss Universo Marta Vasconcelos. Então, a “imagem rainha” em pessoa, na fundação da Escola. Dessa maneira é que, pegando o início da Escola como esse momento de júbilo de constituição dessa “Imagem Rainha”, depois de 20 anos, nós podemos tratar do Império das Imagens, que é uma outra coisa.

O imaginário, tal como nessa mudança de perspectiva marcada pelos temas desses dois encontros, pode ser recortado em diferentes momentos na obra de Lacan. Que recorte será privilegiado na orientação epistêmica do VII Enapol?

Rômulo Ferreira da Silva: Escolhi abordar o tema do Enapol baseado no meu percurso, de como passei da Psiquiatria para a Psicanálise, levando em conta que foi meu trabalho com a psicose que me fez, de fato, me dirigir à Psicanálise.

Penso que Lacan, desde o início de seu ensino, foi muito visual, sempre utilizando-se de desenhos, grafos e fórmulas. No texto “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, com aquilo com que eu me deparava, como fórmulas e grafos, me sentia, muitas vezes, mais perdido do que como depois de começar a ler o texto. As figuras me desorientavam. Mas foi nessas idas e vindas que pude avançar um pouco na questão da psicose.

Esse percurso, me parece, dá uma ideia do que é o caminho do Imaginário em Lacan.

Lacan começou seu trabalho propriamente psicanalítico com o Estágio do Espelho. Escrito cinco anos após sua defesa de tese sobre o caso Aimée, a coisa começou a se complicar porque tem um recurso à biologia para tentar dar conta da constituição do eu baseado no legado freudiano.

No Estágio do Espelho pode-se observar o que Lacan propõe como aquilo que se dirige a um outro, para obter, desse outro, a imagem de si mesmo. É no Estágio do Espelho que temos o imaginário promovendo a Gestalt do sujeito.

Um passo além é a introdução do esquema L. Ele é apresentado como um Z, que introduz o grande Outro.

Lacan diz que esse esquema L é para a neurose ou psicose, tanto faz. O sujeito está estirado nos quatro cantos. Se estiramos o esquema Z sem a tensão colocada nos vértices dos dois triângulos que se desenham, temos uma linha reta. Como um elástico, esse Z, agora figurado em linha reta, pode perder seus pontos de tensão das extremidades e se configurar como um único ponto, fazendo coincidir S, a, a’ e A. É um destino possível da psicose.

A partir da linha tracejada que vai de A ao S, se estabelece a configuração da neurose à diferença da psicose, pois o atravessamento do simbólico no eixo imaginário dá uma espécie de garantia da tensão que mantém o sujeito neurótico estirado nos quatro cantos. O tesouro dos significantes atravessa a relação imaginária, divide o sujeito e redefine o a’, a imagem que se faz a partir da relação especular, pura e simplesmente.

Nessa operação que se faz aqui, então eu guardaria o esquema L sem o atravessamento do grande Outro na relação imaginária para pensar a psicose. E na neurose seria importante dar esse passo, que é o Outro atravessando a relação imaginária, barrando o sujeito que está do outro lado.

Para ir um pouco mais rápido, passo ao esquema R, no qual Lacan estabelece, de fato, o triângulo imaginário numa relação de importância inferior ao triângulo simbólico estabelecido pelo Complexo de Édipo.

No esquema I, esquema de Schreber, desaparecem os dois triângulos, e o real toma todo o espaço, antes para a neurose, restrito uma faixa que mais tarde será configurada como uma faixa de Moebius. Não é à toa que, depois do seminário VI, Lacan se dirige à Ética. É um momento de impasse, porque até então o paradigma era a neurose, e daí Lacan passa a colocar a psicose como paradigma. Dando um grande salto no ensino de Lacan, novamente quando ele toma um caso de psicose, não mais Schreber, mas Joyce, no Seminário XXIII, e apresenta, para cada psicose, um nó específico. Para Schreber, o nó de trevo numa continuidade entre os três registros.

Até então, Lacan trabalhou os três registros amarrados borromeanamente pelo quarto nó, o sinthoma, como sendo o nó para as neuroses. Para Joyce ele desenha um nó não borromeano, também amarrado pelo sinthoma. Da independência dos três registros para as neuroses, Lacan subverte essa proposta, avançando, desde esse Seminário, à página 118, para um novo imaginário. Nos dois seminários seguintes, XXIV e XXV, Lacan propõe um imaginário disjunto do simbólico em relação ao real. Nessa disjunção aparece um imaginário sem compromisso com o sentido, e, portanto, mais adequado ao real.

Pela inadequação do simbólico ao imaginário, o que nos resta é imaginar o real. Há uma barreira a essa operação que Lacan nomeia como nossa inibição em imaginar o real. O final da análise seria a via de pensarmos a ultrapassagem dessa inibição e a possibilidade de dar uma imagem ao real, disjunta da ideia de fazer disso um possível sentido?

Para complicar nossa discussão, faço referência aos dois termos que Lacan utiliza ao longo de toda a sua obra: imaginer e imager. Imaginer, imaginar, aparece carregado de sentido; imager, que traduzo por “imajar”, nos inspira a pensar que imagens podem bordear o real sem a pretensão de dar-lhe sentido.

Dessa forma, hoje, a clínica com os autistas pode nos ensinar algo mais sobre o final de uma análise, assim como a psicose estimulou Lacan a se dirigir para uma proposta de que a análise tem um fim e para a criação do dispositivo do Passe.

 

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