Almanaque No 10

Prematuridade, trauma e constituição subjetiva

Márcia Regina dos Santos Renda

Cada bebê tem uma história — segundo filho, gravidez desejada ou indesejada, inseminação artificial. A singularidade da narrativa produz marcas que determinam a inserção do frágil filho do homem no romance familiar, suscitando, nos personagens desse romance, questões sobre como ser mãe, pai, irmão, avô, avó… Os envolvidos na trama da vida declaram, de algum modo, o investimento nessa nova empreitada.

Entretanto, entre o nascimento e a constituição do sujeito, existe um espaço que revela o encontro traumático com o real, e, quando esse evento é marcado por parâmetros inimagináveis, como os aparatos ligados à reanimação neonatal, o hiato é exacerbado de modo dramático.

O bebê que “chega antes da hora”, com síndromes, pode ser atado a representações que colocam em risco o laço com o Outro, pois a narrativa pode privilegiar os aparatos que cercam o teatro da reanimação, capturada por uma rede imaginária, em detrimento do nascimento psíquico do bebê (MOHALLEM, 2005).

Quando o bebê não sustenta a fantasia daqueles que o esperavam, as certezas vacilam, fazendo as frágeis garantias frente ao desamparo desaparecerem. Como investir, libidinalmente, esse bebê tão inesperado, no qual não se reconhece ninguém de sua linhagem? O encontro com o real inassimilável produz horror em cada ser que dele se aproxima: pais, familiares, equipe clínica. É como um trauma que desaloja. O instante de ver instaura o abismo que interfere na operação do tempo de compreender e do momento de concluir.

Dessa maneira, o cenário da neonatologia faz desmoronar o que sustentava a história. A eminência de morte concorrendo com o nascimento é da ordem de uma incerteza insuportável. “Vida e morte se encontram misturadas, sem que se possa distingui-las. É o traumatismo absoluto” (ANSERMET, 2003, p.49).

Contudo, necessário se faz dar sentido ao traumático. Caso contrário, há o risco da fixação em significantes alienantes, passando o sujeito a ser o “que o traumatizou: prematuro, deficiente, dependente” (MOHALLEM, 2005, p.103).

Diante dessas circunstâncias, como reencontrar o equívoco e o desejo? Como ultrapassar o horror e encontrar a “liberdade significante”? Essas interrogações põem em cena a intervenção do analista em um centro de neonatologia, pois a prematuração é uma desordem fecunda, falha bem-sucedida da vida, que arrasta o ser humano a diferir de sua essência para descobrir sua existência (LACAN, 1946).

1. O real, traumático, no bebê

A representação do nascimento e da morte é incognoscível no real, pois confronta o ser humano com algo subjetivamente inassimilável (ANSERMET, 2003).

Embora a concepção do ser humano seja fruto de uma história, entra em jogo aí algo para além dessa história. Todo nascimento atualiza questões, tanto para aqueles que já estão no mundo e ajudam a produzir a narrativa para o novo integrante, quanto para o próprio recém-chegado, no caso, o bebê, mais tarde.

Portanto, a questão freudiana de saber de onde vêm os bebês pode ser tomada como o enigma (da vida) por excelência. Circunscrever esse saber à esfera da biologia da reprodução ou da história familiar não parece suficiente para encaminhá-lo.

Tentar articular esse enigma implica fazer referência ao que vem antes — ao que antecede. Contudo, nascer também representa corte, ruptura. A questão comporta dupla face: ligação e separação. Entretanto, como ir além do que precede? Como escapar de certo determinismo, quer seja biológico, genético ou histórico-familiar?

Em uma das facetas dessa dupla face, o nascimento de um bebê traz a questão da morte. Podemos supor que, talvez, a criança, mesmo sem o saber, ou recordar, posteriormente, a perceba também. A vida, em seus primórdios, é frágil, prematura, convocando cuidados intensos e, por vezes, extremos. Muitos pais e familiares vivenciam, de forma dramática, esses primeiros momentos, quando os bebês necessitam de procedimentos (reanimação) cotidianos, observados em unidade de tratamento neonatal: “Logo vem o tumulto das máquinas de suporte à vida. Em meio a um odor de muco, sangue, baba e sabão, esse ateliê recupera o corpo […]. As perfurações, aspirações e sondas não são suficientes para separar a vida da morte” (ANSERMET, 2003, p.97-98).

Desse modo, muitas vezes, inaptos para viver, os bebês retornam, sem nome, para a terra de onde foram retirados.

No nascimento, assim como na morte, algo é extraído. Nessa operação, uma hiância é produzida de forma inexorável. A chegada de um bebê põe em marcha essa fenda.

De acordo com as teorias freudianas sobre o narcisismo (FREUD, 1914/1996), a vinda de um filho desperta os aportes narcísicos dos pais:

“A criança terá mais divertimentos que seus pais; ela não ficará sujeita às necessidades que eles reconheceram como supremas na vida […]; ela será mais uma vez realmente o centro e o âmago da criação – Sua Majestade o Bebê […]. A criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram […]” (FREUD, 1914/1996, p.98).

Logo, essa ferida narcísica também é transmitida, pois o bebê lembra ao adulto uma parte dele mesmo à qual jamais terá acesso. O enigma da origem segue intacto, rompendo laços com qualquer anterioridade.

Além disso, o infans que se apresenta diante dos pais não é, exatamente, como ele é, visto que não deve ser restringido à realidade carnal ou biológica, pois ele já estava lá antes de seu nascimento e sempre estará lá depois da morte.

Estar diante de um bebê implica encontrar-se também com o resto de uma simbolização que escapa a qualquer designação histórica, pois se trata do real (ANSERMET, 2003). Algo da ordem de uma estranheza que não produz laço, que, paradoxalmente, evidencia, igualmente, a presença da pulsão de morte. “A vida é a forma mais pura em que reconhecemos o instinto de morte” (LACAN, 1953, p.321).

Mais uma vez, a dupla face do enigma da vida se faz notar, apontando para a continuidade da descendência e a descontinuidade do sujeito. Em uma face, a indução linguajeira que o constitui como sujeito do significante, submetido ao simbólico que o antecede. Na outra face, a hiância, um inassimilável que convoca uma escolha por parte do sujeito. Escolha esta imprevisível. Resta a possibilidade de escapar ao sintoma dos pais ou a perpetuação de ocupar o lugar de objeto de suas fantasias:

“É a partir dessa necessidade que as funções da mãe e do pai são julgadas. Da mãe: uma vez que seus cuidados trazem a marca de um interesse particularizado, mesmo que pela via de suas próprias faltas. Do pai: uma vez que seu nome é o vetor de uma encarnação da lei do desejo” (LACAN, 1969/1986).i

Quando essas funções parentais falham, a angústia extrema emerge, pois não se apresentam os meios de abordagem para o intransmissível que o real comporta. Dessa forma, a estruturação da subjetividade é fruto da contingência da resposta de uma criança a uma parte inabordável que lhe foi, de alguma forma, transmitida.

2. O simbólico, anterior, ao bebê

Ao estudar a síndrome de hospitalismo, Spitz (1987) enfatizou a importância da qualidade do vínculo mãe-bebê para que este pudesse escapar da depressão e da morte.

Interessante, nesse estudo, é a hipótese que o autor formula para a ocorrência da condição depressiva no bebê: o fato de as enfermeiras dos orfanatos usarem máscaras sobre o nariz e a boca, o que impedia o bebê de dirigir seu olhar para a parte inferior do rosto do adulto que dele se ocupava.

Vale a pena lembrar a consideração de Freud sobre o sorriso de Gioconda — sorriso estranho, enfeitiçante, enigmático (FREUD, 1910).

Pesquisas recentes sobre a atividade do bebê em relação ao meio ambiente, como, por exemplo, a descoberta dos neurônios-espelhos, apontam que as afirmativas sobre a incapacidade sensorial do bebê estão obsoletas. O pequeno ser humano possui, desde muito cedo, a capacidade de reconhecimento. Desse modo, na pesquisa de Spitz, a visão do bebê das expressões faciais e dos movimentos do adulto encarregado de seus cuidados — usualmente, a mãe, oferece pontos de referência para o pequeno ser. O bebê solicita à mãe e esta lhe atende, fato que também provoca uma resposta do bebê. Essa experiência produz efeito sobre a mãe, que interpreta as solicitações do filho, recobrindo-as com seus conteúdos fantasmáticos. Tal movimento coloca em evidência a condição de necessidade, por parte do bebê, da intervenção do Outro. O real da prematuração biológica do filho do homem cede lugar à presença do Outro.

De que Outro se trata? Podemos configurá-lo nos domínios do semelhante mais experiente?

Circunscrevê-lo às dimensões da mãe ou da realidade do mundo pode-se revelar insuficiente, pois o bebê, de algum modo, já estava lá antes mesmo de sua concepção. A expectativa de sua presença se fazia notar através do discurso de seus pais e familiares.

Nessa perspectiva, o outro necessário à manutenção da vida ultrapassa a noção utilitária dos cuidados autoconservativos. Trata-se de um Outro anterior que precede o sujeito — Outro simbólico, que é necessário para a sobrevivência tanto biológica quanto para a assunção subjetiva.

Considerações finais

O bebê que chega à unidade de reanimação é filho de mãe confrontada, mais do que qualquer outra, com a imagem da mãe má, por não lhe ter dado uma vida bela, saudável e que, talvez, tenha desejado a sua morte.

Diferentemente do nascimento sem problemas, o nascimento precipitado se passa no horror e na urgência, impedindo que o narcisismo da mãe seja renovado. Nesse caso, “a realidade reencontra o fantasma e surge o trauma” (MATHELIN, 1999, p.17). Por ser impensável, o trauma permanece sem fala. Dessa forma, busca-se uma causalidade que dê conta de explicar esse acontecimento. Porém, é necessário dar ao evento traumático uma significação, um estatuto. Persistir na tentativa de reconstrução da verdade histórica. Esse trabalho de elaboração é indispensável nessas circunstâncias.

Caberá ao analista, nesses tempos de rupturas, trabalhar a questão da perda, possibilitando o acesso à simbolização desse nascimento que, ambientado na urgência, no drama e na morte, não pôde ser falado.

Freud ([1929] 1930/1996) formula o conceito de pulsão de morte operando em silêncio no interior do organismo, com vistas à sua destruição. Entretanto, ressalta que uma porção dessa pulsão pode ser posta a serviço da vida, se desviada para um objeto externo, em vez de voltar-se contra o próprio ser. A perspectiva freudiana permite articular que o encontro com o real porta a potência criadora. É justamente a hiância que permite escapar de qualquer determinismo. Ao psicanalista resta a responsabilidade de fazer emergir o espaço para a indeterminação, o vislumbre de um ponto de suspensão — abertura que possibilite o surgimento da imprevisibilidade, fundamental para que o sujeito possa advir.

[1] LACAN, Jacques. (1969) “Deux notes sur l’enfant”, Ornicar?, Revue du Champ freudien, Paris, n.37, 1986, p.13-14. No original: “C’est d’après une telle nécessité que se jugent les fonctions de la mère et du père. De la mère: en tant que ses soins portent la marque d’un intérêt particularisé, le fût-il par la voie de ses propes manques. Du père: en tant que son nom est le vecteur d’une incarnation de la Loi dans le désir.”

Referências bibliográficas:

ANSERMET, François. “O pavor da origem”, In: Clínica da origem: a criança entre a medicina e a psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2003. p.21-104.

FREUD, Sigmund. (1910/1996) “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância”, In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, v.XI, p.69-141.

______. (1914/1996) “Sobre o narcisismo: uma introdução”, In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, v.XIV, p.77-108.

______. ([1929] 1930/1996) “O mal-estar na civilização”, In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, v.XXI, p.67-148.

LACAN, Jacques. (1946) “Formulações sobre a causalidade psíquica”, In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p.152-194.

______. (1953) “Função e campo da fala e da linguagem”, In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p.238-324.

______. (1969) “Deux notes sur l’enfant”, Ornicar?, Revue du Champ freudien, Paris, n.37, 1986, p.13-14.

MOHALLEM, Lea. “’Nada como o tempo…’: prematuridade e trauma”, In: MOURA, Marisa Decat de. (Org.) Psicanálise e hospital 4: versões do pai, reprodução assistida e UTI. Belo Horizonte: Autêntica/FCH FUMEC, 2005. p.93-105.

MATHELIN, Catherine. “O sorriso da Gioconda”, In: O sorriso da Gioconda: clínica psicanalítica com bebês prematuros. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999. p.5-32.

SPITZ, René. “A constituição do objeto libidinal”, In: O primeiro ano de vida: um estudo do desenvolvimento normal e anômalo das relações objetais. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1987. p.27-146.

Márcia Regina dos Santos Renda

Psicóloga, aluna do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, pós-graduada em Teoria Psicanalítica. E-mail: mrenda@scaimex.com.br

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